Coimbra vista de cima é uma sinfonia geográfica que fascina o olhar: o Mondego serpenteia sinuosamente pelas margens verdejantes; os telhados vermelhos da Baixa formam um mosaico orgânico e caótico de uma urbe que cresceu rebelde contra o esquadro; a Sé Velha, austera sentinela medieval, ergue-se perto da Universidade com a sua torre agora estranha, já despojada de perspectiva terrestre. Esta visão elevada só nos foi possível graças a um voo de iniciação a bordo do icónico Piper Cherokee dos anos 60 – aeronave ligeira de 600 kg que nos impulsionou para o alto – porque não há como fazer uma reportagem sobre a história de meio século do Aero Clube de Coimbra sem levantar voo. Então foi o que fizemos: subimos e elevámos a narrativa a precisamente 600 metros de altitude por 20 minutos sobre a cidade, para ver Coimbra do alto.

Já embaixo, ouvimos os pilotos Vítor Dias e Nuno Costa, que são, respectivamente, presidente do Aero Clube de Coimbra (ACC) e vogal da direção. Contam a trajetória do ACC, que tem a sua sede no Aeródromo Municipal Bissaya Barreto (AMBB), de cujo desenvolvimento o ACC tem sido o principal responsável. Situado a 4,44 km a sudoeste da cidade, o AMBB é hoje a principal infraestrutura aeronáutica civil entre Lisboa e o Porto.

Partilha de asas

«Um aeroclube serve para partilhar aviões. Pilotar custa caro: inspeções anuais obrigatórias, seguros elevados, custos fixos implacáveis. Mas facilita o acesso a aeronaves e à experiência de voo a um custo muito inferior ao de possuir uma, oferecendo uma porta de entrada mais económica na aviação privada e recreativa. Partilhado entre muitos, dilui-se tudo – torna-se acessível», explica Vítor. Engenheiro civil da Universidade de Coimbra, nascido na Guarda, aprendeu a voar de asa delta nos Alpes alemães, durante o seu doutoramento em Engenharia Aeroespacial na Universidade de Stuttgart. Aprendeu lá, voltou em 1988 e, mais tarde, optou pela licença de Piloto Privado (PPL) em Coimbra, em 1997: «Fui funcionário público a vida toda, nunca ganhei fortunas, mas voo o que quero, graças à partilha.»

Nuno Costa entra na conversa com sotaque guardense misturado a anos em Inglaterra: «Sempre fui apaixonado por motores de carros e motos, aprender a pilotar aviões foi um passo óbvio.» Cresceu na Guarda até aos 17 anos, veio para Coimbra estudar Engenharia Informática e, em 2012, depois de uma sessão de esclarecimento no ACC, inscreveu-se no curso de PPL, que concluiu em 2013. Manteve-se sócio, voando regularmente mesmo a trabalhar fora, e acabou desafiado por Vítor a integrar a direção para trazer mais tecnologia e autonomia ao dia a dia do clube.

O Aero Clube assume-se, assim, como uma verdadeira ponte entre a sociedade civil e o mundo da aviação, oferecendo tanto a primeira experiência de voo a curiosos como um caminho sólido para quem ambiciona uma carreira profissional. A partir de Coimbra, uma pista bem localizada e com boas condições atrai outros aeroclubes e pilotos de todo o país, transforma voos de treino em movimento constante e mantém vivo o aeródromo. Ao mesmo tempo, os cursos de PPL funcionam como porta de entrada estratégica para companhias como a TAP – permitindo aos futuros pilotos acumular horas em aviões ligeiros, tornarem?se instrutores, ganhar experiência e preparar?se melhor para concursos –, enquanto os voos de iniciação, as reservas online e a escola de aviação alimentam um círculo virtuoso: quem vem por curiosidade fica muitas vezes como sócio, continua a voar e ajuda a dinamizar uma infraestrutura que é também motor de desenvolvimento tecnológico e turístico para a região.
?
O Aero Clube de Coimbra não brotou do nada em 1976 – as suas raízes cavam até 1949, quando Coimbra viu o primeiro avião aterrar na cidade: o antigo Tiger Moth da aeronáutica militar portuguesa, que mais tarde seria oferecido ao clube. Em 1954 foi fundado o Centro de Aeronáutica da Associação Académica de Coimbra (CAAAC), mas o regime salazarista travou a fundação do Aero Clube de Coimbra: «Não acreditava em concorrência, ponto final. A Aeronáutica Civil estava representada em Coimbra pelo CAAAC, com subsídios estatais para formar pilotos à Força Aérea, que não dava conta das vagas», explica Vítor.

Só após a Revolução dos Cravos, com diligências para criar uma associação cultural, desportiva e recreativa e a extinção unilateral do Centro de Aeronáutica pela AAC – que passou a considerar a prática aeronáutica incompatível com a nova orientação social – o Aero Clube de Coimbra se formaliza, a 14 de janeiro de 1976. São 32 fundadores visionários, nomes como António Varela Geraldo, Viriato Namora e Gonçalo Quadros (na foto, a bordo da Tiger Moth).

Bissaya Barreto não figura nessa lista, mas foi o seu lobby político que abriu portas a investimento e à construção do aeródromo que hoje leva o seu nome. A manutenção, porém, teve altos e baixos: encerrado em Junho de 2019 pela ANAC, por falta de conservação estrutural, o aeródromo reabriu em Dezembro desse ano após as obras exigidas pela ANAC terem sido feitas pela Câmara Municipal de Coimbra.

Próximo, acessível e em crescimento

A localização geográfica faz do Aeródromo de Coimbra um lugar muito próximo para frequentar, estrategicamente posicionado a minutos do centro urbano e com vistas privilegiadas sobre a cidade. Este equipamento quer crescer e atrair a comunidade: «Portugal precisa de muitas pistas e tudo o que facilite a visita ao país», sublinha Vítor, lembrando que Viseu já tem voo comercial regular e que Coimbra poderá seguir o mesmo caminho. Classificado como aeródromo de classe II, permite operações de transporte de aeronaves com menos de 20 lugares e voos intracomunitários mediante autorização prévia das autoridades de fronteira, da direção do aeródromo e da ANAC.
?
Não é só história – é convite prático. O aeroclube disponibiliza voos de iniciação sobre a cidade por 100€, valor dividido entre três passageiros, e por um pouco mais é possível estender o percurso até a Figueira da Foz. Os cursos de PPL custam cerca de 9.400€ (250€ de inscrição, 750€ de teoria e 700€ mensais durante 12 meses) e estão acessíveis a maiores de 16 anos, com 45 horas de voo e e?learning flexível. O ACC aceita donativos como entidade de utilidade pública e organiza passeios aéreos para crianças carenciadas em parceria com escolas e instituições, dando a quem nunca sonhou essa possibilidade: «É uma perspetiva que muda tudo: de um lado vê?se a neve na Serra da Estrela, do outro o mar da Figueira, com turbulências leves e uma vista frontal impossível nos aviões comerciais», diz Vítor.

50 anos com o céu aberto à comunidade

O Aero Clube de Coimbra completa 50 anos nesta quarta?feira, dia 14, mas a festa está marcada para o próximo sábado, dia 17, das 10h às 17h, no Aeródromo Municipal Bissaya Barreto. O programa inclui apresentações de toda a frota, voos de iniciação, demonstração acrobática, largada de paraquedistas, expositores, cerimónias formais e um almoço convivial no restaurante do clube.

Num mundo saturado de drones e aeroportos congestionados, o ACC prova que voar permanece humano, transformador e surpreendentemente acessível. Erguer voo para viver esta outra Coimbra é, hoje, menos um luxo e mais um convite à cidade inteira.


?

Share.

Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

Comenta esta história