A Estação Nova de Coimbra permanece fechada à circulação ferroviária desde janeiro de 2025, no âmbito do Metrobus, mas continua no centro de um debate aceso na cidade. Entre protestos de utilizadores, sindicatos e movimentos cívicos, persistem as críticas à perda de centralidade para a Baixa, aos impactos no comércio local e à forma como este processo foi conduzido — mesmo com a Câmara Municipal a avançar para uma reconversão cultural do edifício via subconcessão à Infraestruturas de Portugal.

É precisamente nesse intervalo — entre desativação contestada e possibilidade de nova vida urbana — que surge o bash — Festival Urbano, de 8 a 10 de maio, promovido pela BREW! e co-organizado pela autarquia. Fundada por João Claro, a BREW! cruza novamente cerveja, cidade e encontro, propondo uma ocupação temporária da estação que convida o público a reencontrá-la através de experiências diversas.

O bash mantém o modelo híbrido já utilizado no Brew! Coimbra, combinando entrada livre com uma experiência paga associada à Beer Experience. A principal diferença está na organização dos acessos: a entrada é gratuita até às 18h para visitar a estação, participar no Urban Creative Lab ou nos pontos de restauração (menores de 16 anos entram sempre grátis), sendo o acesso à Beer Experience e ao ambiente noturno feito mediante bilhete — 5€ por dia ou 10€ para três dias, com copo reutilizável incluído — onde se concentra uma seleção curada de cervejeiras nacionais e uma Beer Wall com referências exclusivas e de edição limitada.

«Mantemos esse modelo porque faz parte da nossa identidade: queremos que o festival seja aberto à cidade, onde convivem entusiastas e famílias. Paga quem consome ou vive a experiência completa; não paga quem quer passear e fazer parte», explica João.

A programação respira Coimbra: cervejeiras independentes, provas comentadas e harmonizações, street food e cocktails de autor, DJ sets e o Urban Creative Lab com flash tattoos, pintura e graffiti ao vivo com artistas locais, e um mural criado a partir das ideias dos jovens do TUMO. Há ainda rodas e workshops de dança, open mic de poesia com comunidades da cidade, popping, a exposição Tipos de Coimbra e outras ativações a anunciar.

No bash, a arte urbana é pensada de forma abrangente — não apenas como o que está pintado no espaço público, mas como uma forma de o transformar e de criar interação com quem por ele passa. «É natural que existam sentimentos de nostalgia associados a este espaço, mas o bash pode ajudar a conduzir essa nostalgia para uma visão mais de futuro, mais estimulante», diz João Claro.

«Ao longo de três dias, cada pessoa vai construir uma ideia para o edifício — restauração? Cultura? Empresas ligadas à Baixa com vista para o rio? Propomos uma forma de viver a estação. Não é definitiva, mas um ponto de partida para imaginar a cidade, em diálogo.»

Num edifício ferroviário desativado, «um urban beer fest já é uma afirmação de que podemos fazer coisas diferentes em Coimbra, mobilizando pessoas, negócios e projetos locais — mais importante que a escala», sublinha. O bash evolui da «beer scene» global para uma proposta urbana e cultural diversa, alinhada à estratégia municipal de atrair visitantes e afirmar Coimbra como city break cultural.

A lógica de financiamento equilibra receitas próprias (bilhetes, consumo, street food, patrocínios) com apoios da Câmara e Turismo de Portugal. «Foi desenhado para se sustentar, mas com visão de cidade: trazer gente, prolongar estadias e potenciar impacto», resume João.

E nós, na Coimbra Coolectiva, fomos convidados a participar e não ficámos à margem: criámos a Rádio bash para estar ativamente no festival. O bash aceitou o nosso contributo e, em parceria com a Bluehouse, estamos agora a preparar uma grelha especial que emite de e para o festival: entrevistas, reportagens em direto, programação comentada e foco em cerveja artesanal e arte urbana. A cabine no recinto amplia o evento: ouvir, provocar, devolver à comunidade. «Não é só cobertura, é ouvir. Com a Coolectiva faz sentido: auscultam a cidade e criam conteúdo com impacto», diz Claro.

Fica então o convite: venham ao bash nos dias 8, 9 e 10 de maio. Será uma oportunidade para transformar nostalgia em imaginação, viver a estação de formas diferentes, reencontrar a Baixa e construir em diálogo o que pode ser este espaço. Entre cerveja artesanal e arte urbana, queremos ter muitas conversas sobre o futuro — o festival convida toda a comunidade a participar.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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