
Já aqui referimos algumas riquezas de Penela, mas desta vez trazemos uma que permaneceu enterrada durante alguns séculos. Falamos da Villa Romana do Rabaçal, um dos vários vestígios que atestam a presença romana nesta região,
A sugestão de visita daquela que, desde Junho, é considerada Monumento Nacional, passa por três fases: visitar o Espaço-Museu, que aliás está de parabéns pelo seu vigésimo aniversário, vivenciar a villa romana e absorver o vale do Rabaçal.
Espaço-Museu
Começamos a visita no Espaço-Museu, junto da Igreja Matriz do Rabaçal, para percebermos melhor o que realmente vamos ver. Como exposição temporária podemos contar com temas variados que cobrem desde a etnografia à gastronomia secular local.
A exposição permanente Villa romana do Rabaçal, era uma vez… começa com um vídeo da reconstrução tridimensional desta Villa, só assim como quem nos retira quaisquer pequeninas expectativas. A grandiosidade desta herdade obriga-nos a elevar o respeito pela cultura desta época e o 1.º piso do Museu explica-nos as peças deste puzzle.
Para além da residência senhorial, esta villa, que é como quem diz esta herdade, com mais de 100 hectares, conta ainda com balneário (com fornos de aquecimento de água para os proprietários e convidados), área rústica (instalações para escravos) e de produção (com lagar, estábulos, armazéns, oficina e eira).
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Os materiais utilizados nestas construções contam com a pedra, como o calcário local e a mármore de diferentes cores, o metal, fundido e forjado no local, a cerâmica e o vidro colorido, tão delicado como versátil — elemento diferenciador à mesa do nobre, no pulso da dama e no pavimento da residência senhorial. Ver cada peça e perceber o fabrico ou a utilização, desloca-nos mais de 10 séculos.
Estamos perante um espaço especial, de características estilísticas novas para a época em Portugal. Apesar de não se saber o nome do proprietário, seria com certeza uma família nobre, capaz de tal visão arquitectónica.
Villa romana do rabaçal
Chegando à propriedade, com oliveiras a perder de vista, deparamos com as ruínas da casa senhorial, dos séc. IV – V, pensada ao pormenor. O antropólogo Flávio Simões, explica-nos cada divisão, e rapidamente reconstruímos aquela vivência, à época. Recuemos no tempo, vistamo-nos a rigor e sintamos cada passo sobre o mosaico que alcochoa todo o piso, ladeado pelo mármore branco que reveste cada espaço.
E como no centro é que está a virtude, é nele que encontramos um peristilo, jardim interior, por onde entrava a luz que iluminava toda a casa. Seria bastante aparatoso, octogonal, com 24 colunas e orientado segundo a rosa-dos-ventos. O pragmatismo de Flávio diz-lhe que o número de colunas se deve a uma questão de sustentação do telhado. Nós, gostamos mais da teoria da arqueóloga Sónia Vicente, sendo uma representação das 24 horas do dia, como um grande relógio solar.
É a partir do corredor que rodeia este jardim que irradiam todos os compartimentos. Desde a sala de arrumos ou trabalhos, uma das que não tem mosaico e que seria a entrada de serviço, com uma torre de vigia; o vestíbulo e quarto de recepção a forrarem o corredor de acesso principal; as salas de aparato, como oecus – sala de negócios, com uma zona elevada onde estariam o senhor, os filhos e os escrivões, em frente aos convidados – e o triclínio – sala de Inverno ou Verão com nichos laterais que serviriam de locais de privacidade durante as festas. Não é difícil dar asas à imaginação, não é verdade?
E o piso? Totalmente coberto por mosaico, feito de acordo com a disposição da mobília, construído com tesselas, pequenas peças de calcário, vidro ou cerâmica, de várias cores, que encaixam e formam painéis com padrões coloridos ou figuras. As cores frias predominam nesta villa, dando uma sensação de lonjura e repouso, tal qual o céu e o mar. À volta do peristilo o mosaico é duplicado em faces opostas, com excepção de uma delas, com painéis alusivos às estações do ano.


O Flávio limpou a areia que está a servir de protecção, e surgiu a face da representação feminina do Inverno, de ar tristonho, túnica pesada, com ornamentos muito simples e com uma alcachofra fechada, planta que se vê na região durante o Inverno. Tal como esta, também a Primavera, Verão e Outono se apresentam repletas de metáforas alusivas à estação do ano correspondente. Ao centro delas, encontrar-se-á um Laureus Victorious, ou Apolo, representando a civilização, e uma figura que ainda nos pode dar uma epígrafe com o nome de família.
Muitas são as curiosidades que Flávio nos conta que reafirmam que esta seria uma casa de lazer e de luxo. Mas nem tudo é de leitura fácil e mesmo entre investigadores surgem dúvidas, como a sala cruciforme que poderá ser um triclínio ou uma basílica. Certo é que após ser abandonada, na fase final do império (séc. V), esta villa continuou enquanto espaço agrícola, sendo posteriormente, entre os séculos XIV – XVI, utilizada como necrópole. Daqui, a morte deu origem à vida do olival comunitário que hoje vemos, com quilómetros de extensão e no qual encontramos oliveiras centenárias.
Apesar de apenas a residência senhorial ser visitável de momento, conseguimos perceber a extensão da villa, até às termas e à área rústica, ainda em escavação.


Vale do Rabaçal
De clima temperado, vegetação tipicamente mediterrânica e boa disponibilidade de água, não admira que as populações do passado ao presente se tenham estabelecido no vale do Rabaçal. A paisagem deste vale merece o destaque na Rota Carmelita – Caminhos de Fátima, e traz-nos uma memória ancestral reconfortante, de como era viver numa terra capaz de fornecer alimento e matéria-prima de categoria. Para os amantes de queijo, saibam que a tradição do maravilhoso queijo do Rabaçal pode remontar à época romana, mas o sabor é intemporal. No entanto, não há longevidade que bata a das oliveiras centenárias instaladas nestas paragens, tão resistentes como a sua simbologia, gravada nos mosaicos romanos desta villa. E se o azeite e o queijo não fossem o suficiente para fixar as populações, a fauna, a qualidade das terras agrícolas e o calcário certamente terão tido um peso nessa decisão. Não deixem de subir ao Miradouro de Chanca, para que a vista panorâmica vos faça absorver toda esta paisagem.
Esta villa, reportada por Santos Rocha no início do século XX, e em escavação desde 1984, está rodeada por sítios arqueológicos associados à época romana, como as villae romanas de São Simão (8,5 km em linha recta), de Santiago da Guarda (a 12 km a Sul), de Chão de Lamas (a 12 km a Este), que na realidade era uma estalagem para pernoita, e de Conimbriga (a 12 km), em cujo território administrativo se encontrava. Uma vez que nos encontramos junto à via romana que ligava Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), no troço entre Sellium (Tomar) e Conímbriga (Condeixa-a-Velha) ou Aeminium (Coimbra), não é de estranhar que se tenham identificado já cerca de 40 sítios arqueológicos, e nós estaremos no seu encalço.


Preço:
Normal: 2,35€; Estudante/Sénior: 1,20€; Grupos: 1,65€; Crianças/Escolas: Grátis.
Horários: 3ª a Domingo: 10h – 13h e 14h – 18h, no Espaço-Museu.
Contactos:
Email
Telefone: 239561856
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Texto: Inês Teixeira
Foto de capa: Flávio Simões
Fotos: Inês Teixeira









1 comentário
Informação preciosa sobre este núcleo museológico do Rabaçal que ainda não visitei.
Muito obrigada
Ana Ponte