Gabriela e Christopher são dois imigrantes que acabaram por encontrar em Coimbra, no número 90 da Rua Direita, o lugar onde podiam transformar uma acumulação de experiências em projeto. Ela veio da hotelaria e da restauração, depois de anos na Suíça, com uma atração antiga pela coquetelaria e pela ideia de que um cocktail pode ter a mesma exigência e detalhe de um prato de alta cozinha. “Gosto do universo dos cocktails”, diz Gabriela Dias. “Para mim, um cocktail é como um prato num restaurante Michelin: tudo conta, tudo tem detalhe e tudo tem uma história.” Ele traz consigo um percurso internacional no design de joalharia, entre a Suíça, Itália, Paris e Nova Iorque, e foi precisamente desse olhar minucioso, estético e muito autoral que nasceu parte da identidade do espaço. “Eu sempre fiz isso desde criança”, conta Christopher Lopes, sobre o desenho de joias, trabalho que ainda desenvolve, agora de forma independente.

Os dois chegaram a Coimbra depois de percursos longos, feitos entre países, áreas profissionais e formas muito diferentes de olhar para o trabalho. A escolha da cidade não foi apenas uma mudança de morada; foi também uma decisão sobre onde fazia sentido começar de novo. Num centro histórico que continua à procura de novas formas de uso, o Pregos & Co surge como uma aposta pequena no formato, mas não na intenção. É uma casa que quer caber no espaço, mas também na cidade.

A história do Pregos & Co começou, como muitas boas ideias, numa conversa de casal e num caderno improvisado: um logótipo desenhado num guardanapo, uma lista de possibilidades, algumas visitas a espaços e a decisão de avançar com uma casa pequena, mais íntima, onde a escala fizesse sentido para os dois. “Nós queríamos empreender em alguma coisa. Tivemos várias ideias”, lembra Gabriela. “O Chris é uma máquina de ideias. Cada semana tem uma ideia nova. Então, às vezes temos que filtrar um bocadinho as ideias e ver o que dá para fazer e o que não dá.” Não havia margem para um grande restaurante, nem vontade de reproduzir fórmulas gastas. Havia, sim, a vontade de fazer um lugar onde eles próprios coubessem, onde pudessem estar um de cada lado do balcão, a construir um projeto com as mãos, com o orçamento contado e com a noção de que empreender é também aprender a falhar, ajustar e recomeçar.

Esse percurso de construção nota-se em cada detalhe. A casa nasceu de uma lógica de contenção e escolha rigorosa, mas sem perder ambição. “Nós queríamos ter uma coisa específica. Quando a pessoa procura uma coisa concreta, já sabe onde ir”, resume Gabriela. Essa ideia atravessa a carta e o espaço: poucos pratos, uma identidade clara, uma estética cuidada e uma vontade de criar uma experiência que fique na memória. O Pregos & Co não quer ser uma casa de excessos; quer ser uma casa com assinatura.

No centro estão os pregos no pão, pensados não como concessão à tradição, mas como a sua reinvenção. Há um prego de cebola caramelizada que se tornou o best-seller, uma versão com raclette inspirada na Suíça, um prego com pesto onde entra a memória da Itália, e outras combinações que tentam condensar numa carta pequena a história dos dois. “Tentamos criar aqui alguma coisa da nossa história num menu”, resume Christopher. Na bebida, a lógica é parecida: cocktails clássicos, bem executados, com o respeito pela receita e a consciência de que um bom clássico não precisa de ser desfigurado para ser interessante. “É importante também fazer um bom clássico e respeitar a receita”, diz Gabriela.

Essa combinação de simplicidade e assinatura é talvez a chave da casa. Há um cuidado na estética do espaço, nos materiais, nas cores, na forma como o ambiente foi pensado para ser confortável e acolhedor, mas também há uma recusa em transformar isso num espaço frio ou demasiado desenhado. O Pregos & Co quer ser bonito sem ser exibicionista, curioso sem ser hermético, e suficientemente aberto para que um cliente de 18 anos ou um casal de 70 se sintam no mesmo lugar sem estranheza.

A Rua Direita entra aqui como parte da narrativa, mas sem se sobrepor ao projeto. A escolha da rua foi uma aposta consciente, feita sobre uma artéria marcada, durante décadas, pela dificuldade em consolidar uma vida comercial contínua na Baixa e pela procura persistente de novas formas de dar uso ao centro histórico. Num lugar que continua a negociar entre memória, circulação e permanência, o Pregos & Co acrescenta uma camada nova a essa transformação. “Achamos que a rua tem potencial”, diz Christopher. “Não é uma rua perfeita. É um desafio para nós.” E é precisamente nesse desafio que o projeto ganha força: uma casa pequena, um menu curto, uma identidade muito sua e uma relação direta com quem entra.

Mais do que um negócio de restauração, o Pregos & Co traduz o regresso de dois percursos internacionais a Coimbra e a decisão de abrir, na Baixa, um espaço pequeno, autónomo e com identidade definida. “Somos imigrantes”, diz Gabriela, e é nessa frase que cabe muito do que esta casa é: regresso, reinvenção, aprendizagem e aposta. Num tempo em que a Baixa continua a procurar novas formas de vida, o projeto acrescenta-lhe uma linguagem própria, feita de cozinha, cocktails e atenção ao detalhe. E talvez seja isso que o torna relevante para lá da carta: a ideia de que Coimbra também se vai fazendo destes lugares pequenos, pensados ao detalhe, onde uma rua e uma cidade continuam a experimentar maneiras de voltar a ter futuro.

O Pregos & Co fica na Rua Direita, 90, na Baixa de Coimbra, com serviço de almoço e jantar de quarta a domingo, encerrando à segunda e terça-feira.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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