As repúblicas de estudantes de Coimbra representam um universo único do país. A existência destas casas comunitárias remonta aos tempos de D. Dinis e ao início da própria Universidade de Coimbra (UC). Atualmente, existem 24 destas casas, que funcionam sob modelos de autogestão e partilha de responsabilidades entre os seus membros. Duas destas casas, a República das Marias do Loureiro e Paços da República Baco encontram-se sob a tutela da própria universidade. Hoje, e após décadas de existência, enfrentam o risco de serem despejadas.

A comunicação foi feita inicialmente no mês de julho de 2025, através de uma visita informal de representantes da UC, com um relatório na mão, a informar os residentes de ambas estas casas que teriam três semanas para desocupar o edifício. Violeta Campos, antiga residente e atual comensal dos Paços da República Baco, refere que o relatório foi “alegadamente feito pelo Departamento de Engenharia e cingia-se a umas quantas fotografias num documento word”.

A jovem república confessa que a situação surpreendeu tanto residentes da Baco, como da casa vizinha, as Marias do Loureiro. Já Ana Castro, atual residente das Marias do Loureiro define a abordagem tida inicialmente pela UC como “bastante desumanizada e coerciva”, já que, segundo a mesma, não houve tempo para uma análise e uma discussão mais profunda acerca da necessidade de desocupar o edifício.

Entretanto, após um ano de silêncio, a UC comunicou formalmente a sua intenção de denunciar o contrato de ambas estas repúblicas. Isto significa que o objetivo da universidade é de cessar qualquer relação contratual que vigorava até então, colocando uma pressão adicional para os residentes destas duas casas desocuparem o edifício. Esta denúncia foi, por sua vez, autorizada pelo Ministério da Educação e Ministério das Finanças.

As Repúblicas das Marias do Loureiro e a Real República Baco funcionam no mesmo edifício, localizado no Largo de São Salvador, na Alta de Coimbra.

A vida de uma república: anos que sabem a séculos

Violeta Campos pertence aos Paços da República Baco há três anos. “Antes de vir morar para a Baco, eu já era muito amiga da casa, e foi crescendo o interesse em morar numa república”, confessa. A jovem admite que a sua vivência numa república foi como um confronto com um “modo de vida totalmente diferente”, que abria para a possibilidade de viver de uma forma comunitária, em que o quotidiano era partilhado por todos. Violeta Campos acrescenta que esta vivência permite também “criar uma rede de apoio muito sólida” não só entre as repúblicas, como entre a comunidade da cidade de Coimbra.

Os Paços da República Baco são a segunda república de estudantes mais antiga de Coimbra. De acordo com a atual comensal, a casa resulta de uma cisão de outra república, chamada República Por Vir, que deu origem aos Paços da República dos Kágados, em 1933, e um ano depois, à Baco, em 1934. Assim, esta casa comunitária, que se assume como horizontal e anti-praxe completou, em 2026, 92 anos de existência.

Apesar de, nas suas palavras, “ainda dependerem do sistema para muitas coisas”, as repúblicas afiguram-se como um espaço, para Violeta Campos, que se apresenta como um contrariar do sistema vigente mais individualista que se impõe. A mesma visão é partilhada por Ana Castro, atual residente da República das Marias do Loureiro, a casa mais recente a ser reconhecida como tal.

A República das Marias do Loureiro surgiu, em 1993, enquanto um espaço exclusivamente para mulheres. Nas palavras de Ana Castro, “essa é provavelmente a razão pela qual demorou tanto tempo a passarmos de solar a república”. Sendo reconhecida pelas restantes casas em 2003, as Marias do Loureiro tornaram-se, segundo a atual residente, num espaço com o intuito “de abolir qualquer tipo de opressão”.

A vivência de Ana Castro na república apresentou-se numa altura de desamparo na sua vida. “Vi-me sem casa depois do término de um relacionamento”, explica. Nesse momento, conheceu a casa, e ficou apaixonada pela horizontalidade que a acolheu desde o início. Ao mesmo tempo, a atual república salienta o facto de as Marias do Loureiro serem a primeira república de Coimbra que se assume como anti-praxe e transfeminista, natureza que a Baco também partilha segundo Violeta Campos, e um espaço que acolhe não só mulheres, mas diversas dissidências de género.

“Não é qualquer lugar que as pessoas se sentem confortáveis de estar”, explica Ana Castro em relação à importância das Marias do Loureiro enquanto espaço que se assume politicamente transfeminista. A atual república reafirma que, enquanto a sua casa existir, esta vai ser sempre lugar de acolhimento “de todas as pessoas que se encontrarem numa situação vulnerável”, independentemente da idade ou condição de vida. Considera assim que a existência de sítios como as Marias do Loureiro são fundamentais para combater “o etarismo, o machismo, a homofobia, transfobia e racismo” presentes na sociedade.

O imóvel do Largo de São Salvador

As duas repúblicas partilham um imóvel que se encontra no Largo de São Salvador e que, até ao verão de 2023, também acolhia a residência universitária da UC São Salvador. Violeta Campos refere que os Paços da República Baco se encontram a ocupar o edifício desde 1972. A República das Marias do Loureiro, que ocupava um edifício na mesma rua, juntou-se posteriormente. Por outro lado, a UC é dona do imóvel também desde os anos 90.

Tanto Violeta Campos como Ana Castro reconhecem que o edifício tem algumas patologias, e que a necessidade de obras estruturais tem vindo a ser identificada pelos vários moradores de ambas as repúblicas “há pelo menos 15 anos”. De acordo com ambas as repúblicas, o estado atual do edificado é resultante de uma “negligência recorrente por parte do proprietário”.

As duas repúblicas sublinham que, até ao momento, a UC não apresentou nenhum projeto ou orçamento para a realização de obras. “Não existe um plano financeiro, não existe um projeto arquitetónico do que eles esperam fazer com o edifício”, sublinha Ana Castro.

A atual residente das Marias do Loureiro indica que as obras que foram realizadas ao longo desse tempo foram “meramente paliativas”. Já Violeta Campos reforça a vontade de todos os residentes para que haja uma intervenção significativa no edifício. No entanto, as duas jovens recusam a avaliação da UC de que o edifício precise de ser desocupado.

Violeta Campos afirma que, após a primeira notificação informal de desocupação do edifício, a UC não foi capaz de garantir “soluções sustentáveis de realojamento que permitissem a continuidade das duas repúblicas”. De acordo com a comensal da Baco, a opção que a universidade ofereceu aos estudantes que se encontravam a viver nestas duas casas é a de entrada em residências dos Serviços de Ação Social da UC (SASUC). Ambas as repúblicas rejeitaram essa possibilidade.

“As repúblicas não são só os seus membros, pelo que é preciso um espaço que possa ser autogerido para podermos organizar todas as atividades que marcam a vida de uma República”, salienta a membro dos Paços da República Baco. Ana Castro reforça a vontade de que haja obras, mas deixa clara a vontade das Marias do Loureiro em defender “o seu direito a existir”, que na sua visão vai além da ocupação do edifício.

Neste momento, ambas as repúblicas estão organizadas para combater a denúncia do contrato. Ana Castro refere que as Marias do Loureiro, desde o primeiro contacto com a UC, reconheceram a importância “de ter representação jurídica e uma porta-voz” que pudesse apoiar no processo de contestação. Por outro lado, Violeta Campos reforça a importância de retomar o diálogo com a universidade, bem como envolver “outras entidades competentes que possam colaborar neste processo negocial”, como a Câmara Municipal de Coimbra. As duas repúblicas afirmam que se encontram à espera para reunir com o executivo de Ana Abrunhosa.

O processo de despejo e o assédio imobiliário

Desde o primeiro contacto, que ocorreu em 2025, foram várias as coisas que mudaram na vida quotidiana tanto da República das Marias do Loureiro como nos Paços da República Baco. A distribuição quinzenal à porta de bens alimentares providenciados pelos SASUC, apoio a que as repúblicas de estudantes têm direito, foi-lhes também retirado.

Tanto Violeta Campos como Ana Castro explicam que, até ao momento, têm de se dirigir todas as semanas ao armazém, para irem buscar a comida requisitada. A UC também chegou a devolver o pagamento das rendas dos residentes de ambas as repúblicas. Entretanto, Violeta Campos reforça que conseguiram arranjar uma alternativa para continuar a pagar as rendas.

Ambas as repúblicas consideram que estas ações constituem assédio imobiliário por parte da proprietária do edifício. “A justificativa deles para isso é mostrarem que não são coniventes com a nossa permanência no imóvel”, explica Ana Castro. Também Violeta Campos reforça esta ideia, ao dizer que ambas as repúblicas receberam um e-mail da UC a dizer que a mesma “se desresponsabilizava por completo caso alguma coisa acontecesse”, algo que para a comensal da Baco não faz sentido, visto que “foi a negligência do proprietário que nos trouxe até aqui”.

Na opinião de Ana Castro, a conduta da UC afigura-se como assédio imobiliário, por se ter baseado em “várias ações coercivas”, que se manifestaram desde o primeiro contacto. O interregno, e consequente silêncio, de um ano nas conversas acerca do futuro do imóvel também contribuiu para “o aumento da ansiedade e incerteza” entre as residentes das Marias do Loureiro.

Violeta Campos considera que esta forma de proceder não se justifica, porque “sempre se fez tudo direitinho”, desde o pagamento das rendas aos pedidos de apoio à UC. Nesse sentido, a atual comensal da Baco reforça a surpresa por parte tanto das Marias do Loureiro como da sua própria república para esta resposta por parte da proprietária do edifício. Ao mesmo tempo, salienta que é possível que o clima social e político “que facilita este tipo de ações”.

Os desafios e a luta por um futuro

Atualmente, a prioridade para ambas as casas é sensibilizar a comunidade para o que está a acontecer. “Agora com o início do ano letivo, queremos envolver a comunidade estudantil nesta luta, mas também dar-lhes a conhecer as nossas casas”, afirma Violeta Campos.

A comensal considera essencial que as pessoas conheçam as repúblicas como mais do que um sítio onde morar, mas como centros sociais, políticos e sociais da cidade de Coimbra. “Queremos que nos venham conhecer, que venham jantar, usufruir dos nossos espaços e pode ser que se apaixonem por isto também”, salienta.

Também as Marias do Loureiro têm apostado numa campanha mediática, sobretudo nas redes sociais, para dar a conhecer ao país a situação em que se encontram. “Temos feito um trabalho interno para perceber como as pessoas podem ajudar”, explica Ana Castro. A residente reforça a necessidade de colmatar as despesas legais que têm tido, fruto deste processo. “Temos uma vaquinha, na qual as pessoas podem contribuir se quiserem”.

A vontade de desistir não é algo que esteja nos planos de ambas as casas comunitárias. De acordo com Ana Castro, as Marias do Loureiro sempre acreditaram que “a gente consegue as coisas não ficando caladas”. Apontam para a rede de antigas, que mesmo à distância, “têm dado um apoio muito bom”, desde jurídico a financeiro. O mesmo acontece com a Baco, que define a sua rede de antigos como “extensa e unida”.

Além do risco de processos de despejo, que assola várias casas com senhorios privados, as repúblicas de Coimbra também têm vários desafios. Ana Castro aponta para o problema da continuidade das casas como das principais dificuldades sentidas por todas as repúblicas. “O sistema tem focado muito na promoção do individualismo enquanto modo de viver”, sublinha. Nesse sentido, considera que outra prioridade é trazer novas pessoas para todas as casas, para garantir o futuro das novas gerações.

Violeta Campos salienta ainda a luta por melhores condições em relação aos apoios dos SASUC como outro desafio. “Os produtos têm tido cada vez menos qualidade e perdemos a distribuição semanal porta a porta”, refere. Também sublinha a dificuldade de mobilizar pessoas, o que torna mais desafiante não só a continuidade, mas o tipo de atividades que podem fazer. Assim, refere que os Paços da República Baco se encontram “de portas abertas para quem queira ajudar”.

No entanto, o futuro apresenta-se como esperançoso. Ana Castro aponta para a importância das repúblicas “para o crescimento pessoal de cada pessoa que passa por uma república”. A atual residente das Marias do Loureiro acredita que quem escolhe fazer parte deste universo “oferece uma bagagem” para vários tipos de situações. “É uma experiência tão única que cria uma sensação de pertencimento, que é indispensável, sobretudo para quem nunca teve isso na vida”, considera.

De acordo com Violeta Campos, o tempo que passou na Baco foi de aprendizagem e o sítio “onde mais se politizou”. A jovem comensal acredita que este ambiente é também propício para o desenvolvimento do espírito crítico, por se constituírem como “espaços de debate sobre vários temas acerca do mundo em que vivemos”. Nesse sentido, salvaguarda a necessidade de lutar pela sobrevivência e existência de todos estes espaços.
“Para nós é mesmo inconcebível a universidade descartar duas repúblicas sem pensar duas vezes”, comenta Violeta Campos. Ana Castro completa esta ideia ao referir que as repúblicas não podem ser tratadas como uma “mera questão imobiliária”, mas que são “uma questão histórica, de identidade e de património”. A atual residente das Marias do Loureiro relembra que a classificação da UC como património da UNESCO, que se estende às repúblicas, reforçando a necessidade de preservar este património.

Resposta da UC

A Coimbra Coolectiva entrou em contacto com a UC para esclarecimento sobre a denúncia do contrato de arrendamento, bem como o futuro destas duas casas. Foram também feitas perguntas sobre as condições do edifício e se existe já algum plano ou orçamento aprovado para a realização de obras. A proprietária do edifício também foi questionada acerca das questões de assédio imobiliário levantadas pelas residentes.

A UC reafirma que a necessidade de desocupar o edifício se cinge por não existirem “condições de habitabilidade, o que constitui um risco para as pessoas e bens” que o ocupam. Estas conclusões foram fruto de “uma vistoria técnica”, que foram “reafirmadas por uma avaliação da Proteção Civil”. No entanto, a proprietária do imóvel não indicou quais as principais preocupações em relação ao estado do edifício do Largo São Salvador.

A UC também confirmou ter sugerido o realojamento dos residentes destas duas repúblicas em residências, “com possibilidade de regresso após o período de angariação de financiamento, elaboração do projeto e realização das obras”. No entanto, não esclareceu sobre outras possibilidades de realojamento a curto, médio ou longo prazo.
Assim, a proprietária do imóvel considerou que, “na impossibilidade de alcançar uma solução consensual, a UC não teve outra alternativa senão proceder à denúncia do contrato com a devida autorização ministerial”. Sublinha que, após obter essa autorização, “agiu em conformidade com as orientações da Tutela e procedeu à notificação de desocupação do edifício”.

Em relação à existência de um plano orçamental ou um projeto de requalificação, a UC não esclareceu se este já está elaborado. Também não comentou a designação da sua conduta enquanto assédio imobiliário por parte da República das Marias do Loureiro e dos Paços da República Baco.

Em 1968, após atuar no Teatro Avenida, Vinicius de Moraes foi à República Baco para cear, beber e conviver com estudantes.
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