Imagine sentir-se sempre exausta, com um diagnóstico de «ansiedade generalizada» ou «depressão crónica» que nunca encaixa totalmente na sua vida. Sente que falta uma peça no puzzle: por que esta sobrecarga sensorial constante? Por que o hiperfoco em certas tarefas, mas o caos em interações sociais? Por que a exaustão depois de um dia «normal»?

Falamos de neurodiversidade quando dizemos que as variações neurológicas humanas – como autismo, perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA, ou TDAH, como é frequentemente conhecida), dislexia – fazem parte da diversidade natural da espécie, tal como outras diferenças físicas ou culturais. Já neurodivergente descreve uma pessoa cujo cérebro funciona de forma diferente do padrão socialmente esperado (neurotípico), e que muitas vezes enfrenta barreiras num mundo desenhado para um único modo de pensar e sentir. Em vez de ser vista como «defeituosa», essa diferença pode e deve ser entendida como parte da riqueza da experiência humana.

Em Portugal, uma em cada cinco mulheres lida com problemas de saúde mental (Perfil de Saúde do País 2023), mas muitas mulheres neurodivergentes – pessoas autistas, com PHDA, dislexia, discalculia, disgrafia, síndrome de Tourette, entre outras condições – passam décadas camufladas, mascarando os sintomas para encaixar no padrão feminino esperado: sossegada, sensata, controlada. Muitas só recebem um diagnóstico mais preciso depois de anos a serem chamadas de distraídas, desorganizadas, dramáticas ou difíceis, atormentadas pela culpa e pela ansiedade.

É neste vazio que nasce a LIRA, criada pela neuropsicóloga conimbricese Mariana Lucas Aguiar: uma app e um protocolo clínico pensados para mulheres neurodivergentes, que está a ser acelerado pelo programa Ímpares, iniciativa da Fundação Ageas. Com 15 anos de prática clínica, Mariana – ela própria diagnosticada com PHDA aos 36 anos – sabe o que é ser invisível num sistema desenhado para outros. «A LIRA dá linguagem às mulheres para irem à consulta e sensibiliza psiquiatras e psicólogos», diz nesta entrevista à Coimbra Coolectiva.

Camufladas desde crianças: o preço feminino

Os critérios diagnósticos clássicos para autismo e PHDA foram construídos, durante décadas, a partir da observação de rapazes – crianças com hiperatividade motora, estereotipias visíveis, comportamentos que «incomodam» quem está à volta. As meninas aprenderam sobretudo a internalizar. «Desde cedo incute-se que uma mulher tem de estar sentada, sossegada. Elas camuflam traços – biologicamente tendem mais a internalizar, e a sociedade reforça isso», explica Mariana. Contacto ocular? Treinado à força. Desregulação emocional? Facilmente rotulada como perturbação borderline ou bipolar.

Para muitas, os sintomas «rebentam» em momentos de grande transição hormonal: gravidez, pós-parto, perimenopausa, menopausa. «Chegam à consulta com depressão, ansiedade, burnout – mas por trás pode estar autismo ou PHDA, sublinha. A partir daí, somam-se comorbilidades graves: perturbações alimentares (compulsão ligada a défices de dopamina, seletividade alimentar típica do espectro do autismo), doenças autoimunes, tentativas de suicídio. «Passam uma vida inteira a sentir que são ‘demais’ ou ‘de menos’ e a achar que o problema são elas, sem saber o motivo.»

A LIRA foi desenhada para acompanhar o quotidiano de cada mulher, em vez de se limitar a um momento de consulta. A app monitoriza ciclos energéticos diários com check-ins simples. De manhã: «Com que energia acordaste? Dormiste bem?» Ao final do dia: «Este evento social drenou-te? As crianças não dormiram? Como está o teu corpo?» À medida que vai recolhendo respostas, a LIRA começa a desenhar padrões: por exemplo, identificar fases do ciclo menstrual em que a impulsividade aumenta e sugerir estratégias práticas, como limitar compras online ou planear tarefas exigentes para momentos de maior foco.

A aplicação também personaliza recomendações. Sugere, por exemplo, o uso de headphones em contextos de muito ruído ou pequenos exercícios de grounding – técnicas para ancorar no presente, focando nos sentidos ou no corpo, como sentir o chão com os pés descalços durante alguns segundos. No espaço «Mundo Interior», apresenta microexercícios e convida a registá-los: «Por 5 segundos, descalça os pés e respira fundo – como te sentes agora?» A ideia é ajudar a traduzir sensações difusas em linguagem que a própria pessoa possa levar para a terapia: «Hoje distraí-me no e-mail, por que? O que estava a acontecer à minha volta?»

Além do apoio direto à utilizadora, a LIRA foi pensada como ponte com os profissionais de saúde. A app gera informação organizada que pode ser usada em consulta, sobretudo em casos em que há dois ou mais diagnósticos já atribuídos – por exemplo, ansiedade e depressão – mas em que se suspeita que algo ficou por ver. «Uma mulher com duas comorbilidades merece que se explore a hipótese de PHDA ou autismo antes de se aplicar apenas um protocolo básico para ansiedade», defende Mariana. A equipa está também a desenvolver formação para psicólogos com base num protocolo próprio, com preço simbólico, para que possam usar estes dados de forma ética e informada.

Já disponível numa fase inicial gratuita, a LIRA está a ser melhorada com o apoio do programa Ímpares, com o objetivo de chegar a mais mulheres e também a mais profissionais de saúde. Mariana resume assim a ambição do projeto: «É acender um fósforo numa noite escura – dar às mulheres um ponto de partida para se compreenderem e exigirem o cuidado que merecem.»

Mariana Lucas Aguiar nasceu e cresceu em Coimbra, passou pela Escola Secundária D. Maria, foi nadadora de alta competição pela Académica, habituada desde cedo a conciliar treino intenso, escola e vida familiar. O plano inicial era Medicina, mas um exame de Biologia que correu mal levou-a a outro caminho: estudou Psicologia e especializou-se em Neuropsicologia. Pelo caminho, passou por estágios e projetos ligados ao neurodesenvolvimento – desde um hospital privado em Lisboa até colaboração com o neurocientista Miguel Castelo-Branco, em Coimbra. Teve também uma experiência marcante em São Tomé, onde trabalhou com comunidades locais numa lógica de parceria e não de caridade.

Durante 15 anos integrou uma equipa de neurodesenvolvimento, até decidir dedicar-se mais ao trabalho com adultos e à maternidade. Co-fundou a Clínica Apego, em Lisboa, um projeto multidisciplinar focado em famílias, que integra pediatria, psicologia, pedopsiquiatria, terapia da fala, nutrição e fisioterapia, com uma abordagem que recusa patologizar escolhas como a cama partilhada ou amamentação prolongada.

Foi já em adulta, aos 36 anos, que Mariana recebeu o seu próprio diagnóstico de PHDA. «Sempre fui boa aluna, mas à custa de um esforço enorme. Estudar era uma maratona constante», recorda. Depois da maternidade, os sintomas tornaram-se impossíveis de ignorar. O contacto com tantas mulheres em situações semelhantes, e a constatação de que o sistema quase nunca as via como neurodivergentes, levou-a a criar a LIRA – uma ferramenta nascida da clínica, mas também da experiência pessoal de quem passou anos a tentar «dar conta de tudo» sem saber por que estava tão cansada.

«Quero que as mulheres sintam que têm autorização para dizer ao psiquiatra: ‘Tenho estes sinais, isto faz sentido para mim’ – e que os profissionais estejam disponíveis para olhar para além da ‘ansiedade’ ou da ‘depressão’», diz Mariana. Sem diagnóstico adequado, lembra, muitas vivem em picos constantes de stress, o que aumenta o risco de doenças físicas, nomeadamente autoimunes. «Se não arranjarmos tempo para cuidar da nossa saúde mental, acabamos por ter de arranjar tempo para estar doentes.»

Para muitas leitoras – sobretudo entre os 30 e os 60 anos – a descrição dos sintomas pode ser dolorosamente familiar. Há quem só descubra a neurodivergência depois de um filho ou filha receber diagnóstico e a família começar a rever, em retrospetiva, toda uma vida. Outras reconhecem-se nas histórias de esgotamento, ciclos de culpa e tentativas falhadas de «ser como as outras».

Para além da aplicação dirigida às mulheres, a LIRA está também a desenvolver um protocolo clínico estruturado, clinicamente fundamentado, pensado para apoiar psicólogos na avaliação de neurodivergência em mulheres. Um trabalho que está a ser desenvolvido em contexto real e aberto a profissionais interessados em integrar esta abordagem.

A LIRA não substitui diagnóstico médico, mas pode ser uma ferramenta de autoconhecimento e um ponto de partida para pedir ajuda com mais informação e menos culpa. No limite, pode ser a diferença entre continuar a achar que «o problema sou eu» e perceber que existe um nome, uma explicação e, sobretudo, estratégias para viver com mais verdade consigo própria.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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