A pergunta marcou logo o enquadramento da conversa no AI-Nest #4, em Coimbra. O debate colocou em causa o lugar da escola e do ensino superior num tempo em que a tecnologia já influencia a forma como se aprende, se ensina e se avalia. No TUMO, Joana Lobo Antunes, Cristina Albuquerque, Penousal Machado e Pedro Santa Clara reuniram-se para discutir o impacto da inteligência artificial na educação, na tarde de quinta-feira, 9 de julho.
Fonte: Catarina Gralheiro
Fonte: Catarina Gralheiro
Fonte: João BarataA sessão começou com Bernardo Patrão, da associação AI-Nest, a enquadrar o encontro e a passar de imediato a moderação a Joana Lobo Antunes, investigadora e divulgadora científica, que contribuiu o debate sobre o impacto da inteligência artificial na educação. A conversa promete olhar para as possibilidades concretas destas ferramentas — da aprendizagem mais personalizada a novas formas de apoio a estudantes e educadores — sem fugir às questões mais difíceis, como o preconceito, a precisão, a privacidade e a dependência excessiva destes sistemas. E foi isso mesmo que aconteceu: um debate que rapidamente saiu da tecnologia e entrou na própria ideia de ensino.
A primeira resposta à provocação veio de Cristina Albuquerque, vice-reitora da Universidade de Coimbra para o Ensino e Atratividade. Para o responsável, a questão não é apenas saber o que a inteligência artificial faz, mas aquilo que continua a caber na universidade num tempo em que o acesso à informação se tornou quase instantâneo. “Estamos hoje continuamente a falar da inteligência artificial”, afirmou, mas o problema de fundo, defendeu, está na construção do conhecimento, da vontade de aprender e do espírito crítico. A universidade, sublinhou, continua a ter a missão de formar cidadãos capazes de interpretar a realidade e de distinguir o que é relevante do que é superficial.
Na mesma linha, embora com a nossa ênfase, Penousal Machado, professor da Universidade de Coimbra e investigador em inteligência artificial, argumentou que a facilidade de acesso à informação não elimina a necessidade de aprendizagem. “O fato das respostas estarem disponíveis” não mudou o papel da universidade, disse, frisando que a instituição serve para criar novo conhecimento e para desenvolver a capacidade de fazer perguntas relevantes. Uma curiosidade, lembrei, não é um dado adquirido: é algo que se treina. E, nesse sentido, a universidade mantém o papel de formar pessoas capazes de interrogar o mundo, em vez de apenas extrair respostas.
Pedro Santa Clara trouxe para o debate uma leitura mais frontal e crítica do modelo universitário tradicional. Para o professor catedrático e fundador da Escola 42 Lisboa e Porto — uma escola de programação totalmente gratuita para quem a frequenta, sem fins lucrativos e financiada por mecenas, particulares e empresas — a educação superior é demasiado presa a formatos que já não acompanham a velocidade da mudança tecnológica. A sua intervenção oscilou entre a provocação e a insistência numa ideia central: a de que a forma mais ineficiente de aprender continua a ser assistir a uma aula. Defendeu que a inteligência artificial pode permitir experiências de aprendizagem “muito mais eficazes, muito mais baratas” e com maior alcance, apontando para modelos baseados na prática, na autonomia e na aprendizagem entre pares.
Fonte: Catarina Gralheiro
Fonte: Catarina Gralheiro
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Fonte: Catarina GralheiroA crítica se estendeu à própria estrutura das universidades. Pedro Santa Clara apontou o excesso de regulamentação, os modelos de governança fechada e os incentivos que, na sua leitura, estão desalinhados com a qualidade pedagógica. Alertou ainda para a complacência institucional, defendendo que as universidades tendem a confiar demais na sua própria permanência histórica. Num dos momentos mais difíceis da intervenção, afirmou que o ensino superior precisa de mudar de forma mais profunda, porque a inteligência artificial representa uma rutura tecnológica que pode transformar radicalmente os modelos de aprendizagem e de investigação.
Foi quando a conversa chegou à avaliação que o debate ganhou nova densidade. Se a IA pode escrever, resumir e resolver exercícios, como avaliar o que cada estudante realmente aprendeu? Cristina Albuquerque respondeu com uma defesa firme da dimensão humana do processo educativo. Para si, a solução passa por combinar diferentes formas de avaliação, incluindo provas orais e momentos em que o estudante seja chamado a demonstrar, de forma direta, aquilo que aprendeu. “Temos de encontrar formas de colocar a componente humana em evidência”, disse, sublinhando que a universidade não pode assumir uma postura punitiva perante a IA, mas sim pedagógica.
A vice-reitora chamou ainda a atenção para a necessidade de adaptar os métodos de ensino aos diferentes perfis dos estudantes e às várias especificidades de cada unidade curricular. A inovação pedagógica, insistiu, não pode significar apenas acumular mais trabalhos, mais exames e mais instrumentos de controle. “Não existem receitas”, afirmou, defendendo uma universidade em construção permanente, capaz de se reinventar sem perder a exigência.
Pedro Santa Clara voltou a insistir num ponto que atravessou toda a sua intervenção: a necessidade de ouvir os alunos e de ajustar o ensino à forma como estes já utilizam a inteligência artificial. “Nós estamos a ensinar sem ouvir como é que eles estão a aprender”, disse, defendendo que os professores precisam de perceber de que forma os estudantes usam estas ferramentas para aprender melhor. Só assim, argumentando, será possível desenhar cadeiras e instrumentos de avaliação mais ajustados à realidade. “Eu não quero avaliar a IA, eu quero avaliá-los a eles”, resumiu, insistindo que o papel do professor já não é dar matéria, mas inspirar os estudantes a quererem saber mais.
Essa ideia atravessou todo o encontro: o professor deixa de ser um mero transmissor para passar a ser alguém que provoca, orienta e abre caminhos. E a inteligência artificial, longe de simplificar a tecnologia, tornou-se a mais urgente. Se os alunos recorrem a modelos para resumir slides, resolver exercícios ou procurar explicações, então a universidade terá de encontrar novas formas de se afirmar — não pela posse da resposta, mas pela capacidade de formação de pensamento, método e autonomia.
Na entrevista que deu depois à Coimbra Coolectiva, Joana Lobo Antunes levou uma discussão para outro ponto decisivo: a capacidade do sistema universitário de se renovar. Para si, o problema mais profundo é a dificuldade de o ensino superior integrar modelos de aprendizagem diferentes dos tradicionais. “É um sistema extremamente fechado”, disse, sublinhando que a universidade continua muito satisfeita consigo própria.
Joana destacou ainda a importância da relação entre professores e alunos como elemento central do processo educativo. Numa altura em que o acesso à informação se generalizou, defendeu que o valor da universidade passa cada vez mais pela mediação humana, pela orientação e pela criação de contextos de aprendizagem significativos. Na sua perspectiva, o ensino superior deve ir além da transmissão de conteúdos e apostar numa formação mais holística, capaz de desenvolver curiosidade, criatividade, sentido crítico e autonomia.
Já Pedro Santa Clara reforçou essa ideia com um exemplo concreto: “O meu amigo Claude explica-me tudo o que eu quiser”, afirmou, apontando o artificial como sinal da banalização do acesso à informação. Se isso já não é exclusivo da sala de aula, então a universidade terá de passar a oferecer outra coisa. Na sua leitura, o ensino superior precisa de olhar para experiências mais flexíveis, como na Escola 42, e também para modelos de formação intensiva e prática, de formar a repensar o que é, afinal, educar.
No fim da tarde, a discussão deixou uma conclusão aberta, mas firme: a inteligência artificial já não é apenas uma ferramenta, é um fator que está a obrigar a universidade a rever o que ensina, como ensina e com que objetivos. Entre a defesa da universidade como espaço de conhecimento, crítica e formação humana e a urgência de mexer em práticas, estruturas e incentivos, ficou a ideia de que o debate está longe de estar fechado.
Mais do que uma ameaça isolada, a IA surgiu ali como descobertas de uma mudança que já estava em curso. E talvez seja essa a linha mais forte que saiu do encontro: a educação já não discute apenas como usar a inteligência artificial, mas também o que ainda faz sentido ensinar, de que forma e quem deve continuar a ensinar num tempo em que as respostas deixaram de depender apenas da sala de aula.
