No dia 4 de maio de 2026, a Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais autorizou a retirada dos bancos do conjunto de Habitações Económicas da Federação das Caixas de Previdência, no Bairro Norton de Matos. A remoção e substituição dos elementos geraram diferentes reações no bairro. Susana Lobo, moradora no bairro desde 2018 e professora de Arquitetura na Universidade de Coimbra, manifestou-se contra a decisão e lançou uma petição pública pela reposição dos bancos originais, que reuniu 503 assinaturas.

De acordo com a arquiteta, foram demolidos 20 bancos, substituídos por 12 novos modelos, diferentes dos originais: “Não se percebe como é que foram destruídos 20 bancos à marretada, sem deixar vestígios, quando estavam em boas condições”. Apenas dois bancos estavam em mau estado: um deles devido ao abatimento do solo e o outro devido a danos provocados por um acidente de automóvel.

Uma das justificações apresentadas pelos dirigentes para a remoção dos bancos prende-se com o facto de serem inclinados e menos adequados para os moradores mais velhos. Os novos bancos são mais altos e de pedra. À data de publicação desta reportagem, de acordo com o presidente da Junta de Freguesia, José Rodeiro, a obra de substituição dos bancos está terminada.

Qual é a relevância dos bancos originais?

Para compreender o valor arquitetónico dos elementos originais, recuamos a 1966, ano em que foi publicado o projeto do arquiteto Jorge Albuquerque para o espaço, no qual estavam incluídos os bancos de betão em causa. Segundo Susana Lobo, o projeto é especialmente importante pelo desenho do espaço público que rodeia a urbanização: “É único no país e serve, inclusive, de objeto de estudo nas minhas aulas”, revela.

“Esta foi uma das únicas intervenções modernas em Coimbra à escala urbana, contemporânea da intervenção na Solum, e rompe com a ideia tradicional de família que conhecíamos do Estado Novo”, explica. Para a professora, as Habitações Económicas da Federação das Caixas de Previdência constituem uma “introdução à nova estrutura de habitação coletiva em altura, que marca o período de grande produção de uma nova geração de arquitetos modernos portugueses, desafiados a experimentar novas tipologias de habitar”.

A iniciativa do arquiteto Jorge Albuquerque de desenhar os espaços de convívio e usufruto coletivo é, segundo Susana Lobo, a particularidade que atribui mais valor ao projeto: “O arquiteto não se limita a desenhar os edifícios, desenha também o equipamento desportivo. Chega a ser construído um ringue de patinagem, que agora é um campo de jogos, e cinco módulos de comércio. Há ainda o desenho do verde, das árvores e, claro, os bancos”.

Para mostrar a importância dos elementos, a professora recriou numa maquete o desenho de Jorge Albuquerque, que trouxe também para a conversa com a Coimbra Coolectiva. Segundo a professora, esta obra não existe em mais nenhum lugar do país e, por isso, marca a passagem do arquiteto por Coimbra, estudado a fundo na academia.

A ligação emocional

Quando lançou a petição pública, a professora sentiu um impacto imediato no bairro: “Comecei a conversar com amigos que vivem aqui, ou que já viveram aqui e continuam a frequentar o bairro, outros que me contactaram através das redes sociais, e percebi que há uma camada emotiva associada a estes bancos e a este espaço”, conta.

A fotografia que ilustra a petição é de uma antiga moradora do bairro, agora pediatra, que passou a infância neste lugar. “E, além desta rapariga, há muitas outras pessoas com histórias”, acrescenta, “pessoas da minha geração e anteriores que, em miúdos, jogavam à bola no campo e faziam dos bancos balizas”.

Para Susana Lobo, estes equipamentos fazem parte da vida do bairro e, “sendo uma peça que integrava o desenho do arquiteto, são também parte da identidade e património deste conjunto”. Na sua opinião, a “solução de catálogo” encontrada, referindo-se aos novos bancos, revela “uma insensibilidade tremenda e uma falta de respeito pelo legado que temos na cidade”.

Os bancos vão ser repostos?

A reivindicação atual da arquiteta foca-se na reposição dos bancos originais na zona que envolve o campo de jogos. Esta vontade foi manifestada no dia 30 de julho, numa reunião com o executivo da Câmara Municipal de Coimbra e a Divisão de Apoio às Freguesias. Nesta conversa, Susana Lobo alertou os dirigentes para a relevância arquitetónica destes elementos, com 60 anos de história, mas a autarquia disse não ser possível acarretar os custos da reposição dos bancos originais em todo o conjunto.

Ficou, no entanto, a promessa de “tentar repor os bancos na zona que envolve o campo”, partilhou. “Se os bancos forem repostos nesta zona, vão servir também como obstáculo ao estacionamento abusivo”. Além disso, na opinião da professora, “vão permitir devolver ao conjunto de Habitações Económicas um espaço de convívio e desporto mais seguro e convidativo para os mais novos, cumprindo a ideia original do autor do projeto”.

Para terminar, Susana Lobo deixou uma crítica aos técnicos municipais: “Quando os nossos dirigentes e as pessoas que estão responsáveis por desenhar a nossa cidade não têm uma cultura de cuidado e não se interessam por perguntar ou saber a relevância das coisas, acontecem erros como este. Parece que estão fechados num gabinete e não podem sair”.

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