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Cria’ctividade: alternativa à praxe com afectos e mais contacto com a realidade local

Setembro é o princípio de muita coisa, inclusive da relação de centenas de jovens com a nossa cidade. Estivemos na décima edição da iniciativa que reafirma a forma não-binária de os integrar, com uma programação que passa por rodas de conversas sobre direitos humanos, concertos e leitura de poesia na rua.

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Fotografia: Mário Canelas

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Benny Correia era ainda caloiro de Psicologia em 2020 quando, logo no primeiro dia de aula, conheceu o Cria’ctividade, coletivo informal de estudantes, autogerido e autofinanciado. Durante a tradicional apresentação aos estudantes recém-chegados, Benny deparou-se, como ele próprio conta, com um conjunto de estudantes trajados a participar precisamente da praxe – conjunto de tradições académicas de iniciação à vida dos estudantes que envolve trajes e atividades específicas (e que têm levantado muitos debates atualmente).

Pouco interessado nessa prática, Benny, entretanto, não deixou de ser acolhido. Junto dos praxistas estavam também os organizadores do Cria’ctividade a recrutar caloiros para outras formas de integração e de iniciação à vida académica. Falámos sobre a iniciativa no ano passado, mas este ano acompanhámos de perto algumas actividades e falámos com quem participa.

Benny continua a recordar. «Depois do momento de apresentação da praxe, apareceu um antigo membro do Cria’ctividade, o Rodrigo Nogueira, a dizer que quem quisesse estaria mais do que convidado para participar das atividades do “Cria”. Logo a partir desse momento eu percebi o quão acolhedor o Cria’ctividade poderia ser porque, não querendo impor aquilo que é o certo ou o errado, deu a possibilidade de escolha, percebi que haveria essa liberdade.»

Benny Correia, organização Cria’ctividade

Embora muito particular, essa história é muito provavelmente semelhante à de outros tantos estudantes que, ano a ano, chegam a Coimbra para uma experiência que, para além de académica, é também de reconhecimento e integração social.

Tradicionalmente, como deixa-nos perceber Benny, que atualmente integra a organização do Cria’ctividade, a praxe é um dos meios mais típicos de socialização, entretanto nem todos sentem-se contemplados por ela. E este é também um dos sentidos das atividades que promovem. Mas não só.

Integração pela via alternativa

Há quase uma década o Cria’ctividade tem demonstrado que as opções para a integração dos estudantes recém-chegados com aqueles que já cá estão por mais tempo – e de todos com a cidade – são infinitas quando bem articuladas. Para Hugo Tavares Gageiro, organizador do Cria’ctividade desde a segunda edição, o propósito destas atividades é justamente ultrapassar as questões binárias tão marcantes no mundo académico entre os praxistas e não praxistas, entre repúblicos e não repúblicos.

«Espaços criativos ajuda a colocar em perspectiva a coletividade, a existência em grupo, e de um certo modo, ajuda a politizar e pensar sobre existir numa cidade como esta.»

Muireann Ní Bheathais, estudante ERASMUS

Tal questão, como lembra Hugo, está nas discussões que originaram as primeiras edições do Cria’ctividade, em meados de 2014. Movimentos estudantis, ao constatarem ser a praxe a única forma de integração existente à época, reuniram-se para buscarem uma alternativa para uma verdadeira integração. Isso significa que também era necessário não ser um movimento anti-praxe, como menciona Hugo Gageiro.

«Isso advém de uma noção de fazer uma verdadeira integração. Tem de se integrar toda a gente. Então, não podemos ser anti-praxe. Temos de ser alternativos à praxe, mas convidar tanto as pessoas da praxe, as pessoas anti-praxe, toda a gente que esteja ao redor, a comunidade mesmo de Coimbra – porque muitas vezes os estudantes e os movimentos académicos se esquecem das pessoas que são realmente de Coimbra e por vezes nós também, claro. Isto, na sua gênese, era um bocado por aqui, foi minha primeira reunião do Cria’ctividade, foi a primeira reunião pós-Cria’ctividade.»

Hugo Gageiro, organização do Cria’ctividade

Para ser uma alternativa, também as atividades tiveram de ser pensadas a partir de caminhos diversificados. Assim, criou-se uma rede de atividades diárias, durante uma ou duas semanas. A tradição que se mantém em todas as edições do Cria’ctividade envolve rodas de conversas, concertos, performances, tour por pontos de Coimbra, tertúlias e saraus, performances, jantar comunitário, workshops, entre outros.

O resultado dessa organização coletiva é uma daquelas boas contradições. O Cria’ctividade é a prática alternativa à praxe mais antiga de Portugal. Na atual décima edição, comprova-se o inevitável: a rede de atividades diárias de receção aos caloiros e não caloiros faz do mês de setembro – mês em que todos os caminhos dos estudantes vão dar a Coimbra – o mês de início de uma comunidade de afetos.

Comunidade de afetos (e de debates)

As histórias que se cruzam de Benny Correia e Hugo Gageiro são renovadas a cada ano. Em 2021, recorda Beatriz Bandeirinha da Silva, foi a primeira vez que esteve no Cria’ctividade e, em suas próprias palavras, foi quando conheceu «as pessoas que ditaram o [seu] ano letivo», foram as pessoas que depois realmente a acompanharam e que ela acompanhou e cuidou.

As dezenas de atividades, nos mais variados formatos, que este ano foram distribuídas por duas semanas deram a ver as múltiplas possibilidades de uma rede de práticas interessadas cultural e politicamente tornar-se também uma comunidade de afetos. Neste caminho, uma comunidade de afetos se estabelece a partir de interesses comuns e indispensáveis.

Numa roda de conversa sobre Direitos Humanos, dois estudantes Erasmus recém-chegados da Espanha participavam de tópicos levantados pela Amnistia Internacional – Portugal sobre os desafios relacionados ao direito à habitação. Gaetano Mengs, em Coimbra há pouco mais de duas semanas, conheceu as atividades do Cria’ctividade por meio das redes sociais. Para ele, é muito importante que as pessoas conheçam o Cria’ctividade para que conheçam as outras partes da vida universitária de Coimbra e para que os estudantes possam ter escolhas para além da praxe.

Gaetano vive temporariamente em uma República e busca um lugar para que possa definitivamente se alojar – um dos tópicos debatidos na roda de conversa, que se passou no Liquidâmbar, e visto como um dos problemas abissais em Coimbra com consequências para a comunidade de modo geral, não só para os estudantes. 

Arthur Costa, participante

Entre um tópico e outro da roda de conversa, Arthur Costa, estudante de Relações Internacionais, complementa o assunto afirmando que, para ele, a vida académica só é possível por morar numa Residência Estudantil. Para além dessa constatação, proporcionada pelos dados e pelos depoimentos de outros estudantes na roda de conversa do Cria’ctividade, Gaetano percebe a importância de atividades como estas, principalmente pelo que proporcionam de contato com a cultura e os problemas locais.

«É muito importante para nós, estudantes de Erasmus, entrar nas dinâmicas sociais e culturais do lugar para nós. À parte da situação das praxes, há também como uma borbulha de pessoas internacionais. E elas geralmente ficam só com outros internacionais. Está bem, mas para mim não faz muito sentido». Para Bernat Codina, também espanhol recém-chegado para uma temporada de Erasmus, o Cria’ctividade foi um espaço de partilha de questões políticas, mas também de interação em festas. Vê, entretanto, que esse tipo de atividade alternativa não é necessariamente a atividade principal da maioria dos estudantes.

Para Muireann Ní Bheathais, estudante da Irlanda, o Cria’ctividade é um espaço para encontrar novas pessoas e mais do que isso, permite pensar sobre como existimos com estas novas pessoas. «Espaços criativos ajuda a colocar em perspectiva a coletividade, a existência em grupo, e de um certo modo, ajuda a politizar e pensar sobre existir numa cidade como esta. Isto sempre chama a atenção a certos tipos de problemas políticos encarados pelos estudantes. Isso demonstra também como o ambiente pode mudar o modo como nós interagimos uns com os outros».

A integração aos modos do Cria’ctividade deixa suas marcas. Clara Guguoita, estudante italiana, afirma a importância no âmbito mais profundo de uma integração alternativa. A sua posição é a de que, enquanto a praxe reproduz um sistema hierárquico, o Cria’ctividade atua em outras esferas. Ela havia acabado de participar de um workshop de escrita criativa.

Para além da dicotomia

Com uma jornada ainda longa pela frente, o Cria’ctividade demonstra, nesta décima edição, que a integração entre os estudantes pode ultrapassar a dicotomia entre a praxe e a anti-praxe e ser ainda mais. Ser também um espaço de trocas políticas e culturais que resultam em uma comunidade de afetos indispensáveis aos estudantes que chegam para uma jornada académica decisiva.

Hugo Gageiro ressalta que o mais bonito do Cria’ctividade é justamente superar essa dicotomia e contribuir para a existência dessas atividades tão diversas. Para Benny Correia, a melhor parte de sua relação com essa já tradicional alternatividade é poder, agora, retribuir aquilo que ele teve quando era ainda caloiro.

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