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TPC: Atenção quando as crianças perguntarem sobre a guerra

Teresa Miguel tem 8 anos. Foi uma das dezenas de cidadãs e cidadãos que se reuniram na Praça 8 de Maio, em Coimbra, no passado dia 27 de Fevereiro. Até levou o próprio cartaz de apelo à paz. «Eu não fazia ideia de que ela sabia as cores da bandeira da Ucrânia, o amarelo e o azul já estavam no imaginário dela», comenta Monalisa Figueiredo. Teresa pediu paz. Ela sabe que há uma guerra a acontecer e que é importante mostrar apoio a quem sofre, e apelar para que o conflito termine o mais depressa possível. «Eu expliquei-lhe que há dois lados e a Teresa sabe o que é um ditador, sabe que é uma pessoa que não ouve os outros, que é uma pessoa má porque não se importa que o povo sofra e que o que ele faz não é necessariamente o que qualquer pessoa da nacionalidade dele faria.» 

À medida que as hostilidades escalam na Ucrânia, as crianças vêem e ouvem coisas sobre a crise nas notícias que levam a sentimentos de incerteza, ansiedade e medo que pais, cuidadores, amigos ou educadores não devem ignorar. Pelo contrário. Tatiana C. Homem, psicóloga clínica de crianças e adolescentes e especialista em aconselhamento parental na Psikontacto, explica que até à idade da Teresa «é importante explicar às crianças o que se passa à medida do que eles perguntam». Permeáveis quer ao que nos ouvem dizer, quer ao que acabam por ouvir nas notícias ou, no caso dos mais velhos, nas redes sociais, urge estar atento e filtrar a comunicação que é feita a pensar no espectador adulto.



«O Tic Tok partilha imensa informação sobre a guerra na Ucrânia, miúdos com 11 e 12 anos têm acessos a informação que não conseguimos triar e é importante os pais irem ao encontro das perguntas que fazem apesar de, às vezes, a tentação ser explicar tudo – ir quase à História da Ucrânia e explicar tudo o que está a acontecer, com muito detalhe, mas para os mais pequeninos pode não fazer sentido.» A psicóloga explica que os mais novos só questionam até onde estão preparados para o fazer, que é importante escutar as preocupações deles e responder apenas às questões que colocam.

«Pouparmo-nos não é olhar para o lado, é economizar esforços, gerir expectativas e permitir-nos ter esperança que amanhã vai ser melhor.»


Quando aparecem imagens das crianças deslocadas e fragilizadas na televisão, Monalisa Figueiredo tende a chegar-se à pontinha do sofá e levar as mãos à boca. Fica preocupada. «Mãe, por que é que lhes chamas tantas vezes “amor”?», atira Teresa. «Eu disse-lhe que era porque eles não tinham culpa de nada do que lhes estava a acontecer e que estava pronta para lhes dar um bolinho, que elas deviam estar na escola a brincar e não naquela situação», conta Monalisa. Tatiana C. Homem diz que as crianças e os jovens acabam por nos dar os sinais. Os mais pequeno desligam quando nos alongamos nas explicações, o que nos deve servir de alerta para não ir mais além. «Mais importante do que passar toda a informação é ouvir aquilo que eles espontaneamente nos queiram comentar e quando estiverem satisfeitos pararmos.»

Oportunidade

Teresa tem uma particularidade: ela tem o sonho de ir à Rússia, ver a Catedral de São Basílio – que «parece o palácio de uma princesa» – e o Hermitage. «Adora museus mas, há dias, disse: «Pronto, se calhar já não vou», conta a mãe. A partir dos 9 anos de idade, as crianças passam a ter uma maturidade cognitiva e sócio-emocional diferente. Tatiana C. Homem relata que nas escolas os professores já vão fazendo algumas ligações, sobretudo nas aulas de História, e as crianças levam questões diferentes para casa. «Pode ser uma oportunidade para abrir espaço à conversa em família, os adolescentes, por exemplo, normalmente estão pouco disponíveis para falar com os pais, por isso este até pode ser um momento interessante para fazer isso», atira. 


Cabe aos pais perceberem o nível de desenvolvimento dos filhos e, com sensibilidade, perceberam quando o tópico é interessante de explorar ou se simplesmente vão deixar os filhos assustados. A dicotomia a que estão habituados nos livros infantis e nos desenhos animados, deve ser evitada. «Não há bons nem maus, este é um bom momento para despolarizarmos um bocadinho e explicarmos que as acções de uma pessoa não representam a vontade do povo todo, nem agora nem nunca. É uma oportunidade para trabalharmos a empatia, esta perspectiva mais solidária, mais humanitária, este pode ser um bom momento para trazer mais estes valores para a conversa», sugere Tatiana C. Homem. 

Monalisa Figueiredo também frisa que é mesmo importante educar para a solidariedade humana e para certos ideais, como o de que a guerra não faz sentido. O que diz Teresa quando vê imagens de acções de ajuda humanitária na televisão? «Que quer comprar papas para bebé. Perguntei com que dinheiro e ela foi buscar os 11,16€ que tinha no mealheiro», relata a mãe. «A minha filha tem um mundo cor-de-rosa, o mundo que todas as crianças deviam ter, com alegria, mas há mais cores no mundo e é preciso que as crianças tenham noção de que são privilegiadas, e que quando outras crianças precisam de nós lhes podemos dar a mão. Podemos dar os nossos 11,16€ porque não precisamos deles.»

Alterações nos padrões de sono, pesadelos, dificuldade em adormecer, alterações de comportamento (como ficarem mais irritáveis ou mais agitados), dificuldade em manter a atenção e a concentração e alterações no padrão de alimentação são alguns dos sinais possíveis de que algo não está bem com os mais pequenos. Alguns até podem mostrar dificuldades na separação dos pais ou outros cuidadores, e os mais crescidos podem apresentar algum isolamento ou uma visão mais pessimista da vida e da humanidade. Tatiana C. Homem explica que há crianças que estão preocupadas em «saber se os mísseis chegam cá», se acontece alguma coisa a quem ajudar o povo ucraniano e se «os russos vão saber que enviámos medicamentos.» É um pensamento que é necessário desconstruir, garantindo a segurança e, ao mesmo tempo, a importância de ser solidário e levar esperança a quem precisa.


Com um pé já fora da pandemia de Covid-19, mas todas as consequências que a crise acarreta, as crianças e jovens estão a ser expostos a um conjunto anormal de situações adversas e uma espécie de stress prolongado. «Mas acho que não vai ser a regra, essas não são reacções típicas da maior parte das crianças, até há as que não reagem de todo e tudo OK, há coisas que lhes passam ao lado.» No entanto, a profissional avisa que não podemos esquecer que as reacções dos mais pequenos também têm a ver com aquilo que percebem nos pais. «Se eu, adulto, estiver permanentemente a ver notícias ou a falar do tema, com reacções de grande ansiedade, claro que isso vai ter um impacto muito maior.»

«A esperança no futuro constrói-se com base nas memórias boas que se cultivam no presente»

Tatiana C. Homem, psicóloga

A vida continua

É importante evitar o sentimento de culpa. Tatiana C. Homem explica que pensar que é errado estar a brincar quando há uma guerra a acontecer não faz sentido e que é bom brincar com os amigos, conviver e ter momentos prazeirosos. «A esperança no futuro constrói-se com base nas memórias boas que se cultivam no presente», declara. E o preço da ausência desse cultivo pode ser alto. «Então temos estes jovens pessimistas, a achar que o mundo é um lugar péssimo para se viver porque só acontecem coisas más.»

Em suma, a receita é: capacidade de escuta e validação daquilo que crianças e jovens apresentam. É possível estar atento e valorizar as preocupações, sem fazer com que o problema seja o centro das atenções. Desligar a televisão à hora das refeições e ver quando as crianças e jovens não estão presentes são algumas dicas, porque a probabilidade é eles terem contacto com o tema de outras formas. Evitar a sobre-exposição a más notícias, sobretudo à noite, é um conselho que vale também para os adultos também. Pouparmo-nos não é olhar para o lado, é economizar esforços, gerir expectativas e permitir-nos ter esperança que amanhã vai ser melhor.

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