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«Todos temos sinais de autismo, é o autismo banda larga»

Esta foi uma de várias ideias atiradas por Guiomar Oliveira, autora da primeira análise epidemiológica do autismo em Portugal, onde se estima que a condição afecte cerca de uma em cada mil crianças. Diogo Nolasco foi uma delas e partilhou a experiência e soluções numa conversa aberta na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

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Fotografia: Mário Canelas

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«A neurodiversidade pode ser tão crucial para a raça humana quanto a biodiversidade é para a vida em geral.» A frase é da socióloga australiana Judy Singer. Foi ela que em sua tese de doutoramente, em 1996, cunhou o termo neurodiversidade, palavra que o corretor ortográfico do processador de texto Word ainda teima em sublinhar de vermelho para dizer que a palavra está errada. O que parece refletir a perceção geral que se tem desta condição neurológica que não tem nada de errada. É simplesmente diferente. Diversidades neurológicas são várias, sendo as mais conhecidas a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), Perturbação de Hiperatividade de Défice de Atenção (PHDA) e dislexia, entre outras.

Foi para falar sobre Neurodiversidade e autismo: do diagnóstico à intervenção e à transição para a vida adulta que pais, investigadores, médicos e demais pessoas interessadas no assunto reuniram-se no passado dia 20, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Estivemos lá para aprender e compartilhar com vocês, e constatamos mais uma vez que Caetano Veloso está certo quando diz que de perto ninguém é normal.

Indagar – ou perguntar-se – o que se passa com aquela criança – ou com o filho – é, via de regra, o começo da jornada de uma pessoa com autismo. Nem sempre os profissionais da saúde chegam um diagnóstico exato. «Ansiedade cobre muitos dos sintomas, que, na realidade, muitas vezes chega a ser o principal elemento incapacitante», referiu a psicóloga Elsa Vieira, que é também da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA) de Coimbra, que oferece o serviço de montar um plano de transição para a vida adulta.

O diagnóstico de autismo é feito por equipas especializadas e pode levar de dois a três anos, especialmente por não ter biomarcadores, mas, sim, um conjunto de comportamentos, sinais e sintomas, como salientou o psiquiatra e professor da Universidade de Lisboa, Carlos Filipe. Para dificultar ainda mais as coisas, há pouca formação em neurodesenvolvimento nas faculdades de Medicina do País, segundo ele. Não existe cura para o autismo, é uma condição para a vida toda, não há fármacos para tratamento, apenas remédios paliativos para alguns dos sintomas.

A partir do diagnóstico confirmado, os autistas podem concorrer a vagas de trabalho por cotas, o que não ajuda muito, na verdade, pois a vasta maioria das empresas ainda opta por preencher a determinação legal com trabalhadores portadores de deficiências físicas, como enfatizou Prazeres Domingues, da APPDA de Viseu. «Falta formação aos empregadores, falta visão das empresas.» As pessoas neurodivergentes podem ainda requerer o Atestado Médico de Incapacidade Multiuso, que oferece alguns benefícios, como apoios sociais, bolsas de estudo no ensino superior, entre outros.

De acordo com a pediatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (UC), Guiomar Oliveira, autora da primeira análise epidemiológica do autismo em Portugal, em 2005, há uma prevalência estimada em Portugal de cerca de uma em cada mil crianças para a faixa etária entre os sete e os dez anos. Houve um aumento de 0,1% no período de 2000 a 2019, porque está-se a conhecer mais sobre a perturbação, o que resulta na evolução do critério diagnóstico.

A médica pioneira no mapeamento da prevalência do autismo rejeita a palavra deficiência e repudia veementemente que agressividade seja uma característica da perturbação. Apenas quando alguns autistas têm uma crise é que podem tornar-se agressivos. «Todos temos sinais de autismo, é o autismo banda larga», afirmou a professora, o que fez a plateia rir.

Quem também arrancou sorrisos dos presentes ao evento foi Rita Serra, que estava no auditório usando quatro chapéus: mãe, investigadora do Centro de Estudos Sociais da UC, integrante do colectivo Voz do Autista e autista, diagnosticada depois de perceber que sua filha tinha os mesmos comportamentos que Rita quando miúda, o que é não incomum, segundo a investigadora. «Cá em casa somos todas autistas», foi a resposta que ela deu quando sua filha lhe perguntou se ela também era.

Rita não diz que tem PEA, mas sim que é autista e por um simples razão: como é um diagnóstico definitivo, é impossível ela deixar de ter a perturbação, deixar de ser autista. A mulher dos quatro chapéus tem as suas criptonites: «almoçar com outras pessoas, crossfit, conversas à toa, câmara do Zoom». Ela alerta que crise (meltdown) de criança autista não é birra e enfatiza que a aceitação das diferentes formas de cognição é um conceito político «porque está associado à justiça».

Dois episódios na vida de Diogo Nolasco, de 28 anos, evidenciam a afirmação da investigadora do CES. Aluno do terceiro ano de História, com uma média de 19.8 valores que o levou a ser nomeado Embaixador da Universidade, ele não foi aceite por um professor de uma disciplina ainda no primeiro semestre do curso. Pior ainda, recorda que a mãe, Ana Isabel, era professora do ensino básico e chamou-o de «parasita social».

Foi «perspicácia de mãe», responde, quando indagada sobre como descobriu que o filho era diferente. Diogo não sentava, gatinhava, mas começou a falar muito cedo e dizia palavras completas. Segundo ela, o filho aprendeu a ler sozinho. O pediatra achava que era apenas problemas de ordem motora, mas ela não estava convencida. Um dia leu um artigo do neuropediatra Nuno Lobo Antunes sobre Síndrome de Asperger e era tudo igual ao seu filho. «Se agora é difícil, imagine há 15 anos.»

Em 2013, a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) reuniu algumas síndromes em um único transtorno, o Transtorno do Espectro Autista (TEA), que enquadra a Síndrome de Asperger e o autismo em um mesmo diagnóstico. Assim, o que antes se conhecia como duas desordens separadas passou a pertencer à mesma condição, que abrange um grande espectro de sintomas.

Diogo diz que não sofre bullying na faculdade, mas seus relacionamentos de maior proximidade são com os professores. Quer ser investigador de História da Religião. As únicas questões que ainda o incomodam são socialização e falta de autonomia, pois quer ter um espaço só para si. E tem uma mensagem para as pessoas autistas: «Sejam sempre vocês mesmos e não deixem que o mundo vos mude. Sejam vocês a mudar o mundo, com o vosso esforço, o vosso querer, a vossa força e a vossa verdade».

O mundo já está a mudar e há-de atingir o patamar civilizatório em as diferenças na neurologia devem ser reconhecidas e respeitadas como uma categoria social, semelhante à etnia, classe socioeconómica, orientação sexual, género ou deficiência, como proposto por Judy Singer, no capítulo da tese intitulado: Why can´t you be normal once in your life? (em português: Por que é que não podes ser normal uma vez na vida?)

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