Com uns bons minutos de atraso, chegou à paragem do Jardim da Manga o autocarro 7, a servir de modelo às novas viaturas eléctricas compradas no final do ano passado pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e já em circulação. Momentos antes, José Manuel Silva, presidente da autarquia, já dava a demora como garantida, «inevitável por causa das obras» do metrobus. Outros argumentos possíveis, contrapôs, deixaram de se colocar com o investimento que está a ser feito na renovação da frota e foi colocado em marcha nos últimos meses. «Já não há incumprimento de horários, nem supressão de chapas [viagens] por falta de recursos materiais», destacou.
Tornar os SMTUC (Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra) um «meio de transporte fiável em que as pessoas possam confiar para os levar a horas ao seu destino» estava no topo das prioridades do programa eleitoral de José Manuel Silva que, já em funções, alertou para a urgência de alargar a frota para assegurar a oferta de transporte programada, sem supressão de horários. Para o autarca, o segundo ano de mandato já fez a diferença. «2023 foi o ano em que se adquiriam mais autocarros», ao abrigo de um plano de renovação da frota que «não existia nos anteriores mandatos» e «está a ser rigorosamente cumprido», resume.
Mais autocarros a caminho
Além dos 10 novos autocarros que entraram ao serviço a 1 de Março, em Janeiro, a CMC colocou em circulação mais 12 novos miniautocarros também eléctricos, o que representou um investimento total de 10,8 milhões de euros, tendo sido comparticipada em 7,8 milhões por fundos comunitários.
O orçamento deste ano canaliza cerca de 30 milhões de euros para os SMUTC e prevê a compra, no último trimestre deste ano, de mais 15 novos autocarros standard ou médios, ao mesmo tempo que são abatidos os veículos mais antigos e menos eficientes em termos energéticos. A operação será repetida, todos os anos, até 2030, colocando a taxa de imobilização em 15%. Há um ano estava em 40%.
A perspectiva é que este ano a idade média dos autocarros baixe já de 16 para 11,2 anos, numa frota composta por 190 veículos (mais 37), mantendo-se o número de linhas regulares em 110, numa extensão 657 Km.

O impacto das novas viaturas na qualidade do serviço e na captação de passageiros nestes primeiros meses não está medido e será sempre enviesado pelos intensos nós de trânsito nos principais acessos e vias da cidade, causados pela construção do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM). Jorge Jesus, presidente do conselho de administração dos SMTUC, volta a usar a carreira que está a ser mostrada à imprensa como exemplo: «O autocarro saiu da rendição no horário previsto. O que acontece é que apanhou os constrangimentos que são conhecidos – e esses não conseguimos resolver».
Não podem ser feitos ajustes nas linhas? «Poderíamos fazer alguma revisão de horários, mas correríamos o risco de diminuir a oferta e causar insatisfação», responde. As queixas, no entanto, já existem e sem indicadores de melhoria, como confirmamos noutras viagens a bordo dos SMTUC.
Concurso para rever a rede em preparação
Também incluída no programa eleitoral e já vertida nas linhas estratégicas para 2024 está a «reformulação geral da rede dos SMTUC para simplificação e optimização» do serviço. A CMC prepara-se para um concurso público para a revisão das linhas, tendo em conta a entrada em funcionamento do SSM, prevista para o final deste ano, entre Serpins e Coimbra, mas «é prematuro» apontar datas uma vez que o caderno de encargos está ainda a ser preparado, indica Jorge Jesus.
Na altura em que foram anunciados os planos da Câmara, falámos com o estudante Tomás Batista que desenhou um sistema mais eficiente, cortando um terço das linhas, e estava a trabalhar numa versão do projecto para apresentar à CMC e aos SMUTC, à semelhança do que fez, com sucesso, em Lisboa, com a Carris, tendo algumas das propostas sido aceites. Em Coimbra, o encontro ainda não aconteceu, embora Jorge Jesus reconheça que «alguns aspectos interessantes» na proposta de Tomás. «Se acharmos que algumas das ideias têm algum significado e relevância serão percorridos os trâmites normais para que isso faça parte dos inputs», diz.

A frota disponível, reforça Jorge Jesus, é já suficiente para responder às necessidades, mas há outro desafio, sem grandes soluções à vista ao nível do poder e gestão locais: a falta de motoristas que, admite, continua a levar a algumas supressões de serviços e a motivar novos recrutamentos. «Temos um número elevado de vagas por preencher. Os concursos estão a correr, mas não sei como vão fechar. Na última admissão que fizemos, em Janeiro, no próprio dia, houve dois candidatos que desistiram e não apareceram», conta, ao lembrar o «enquadramento remuneratório» pouco atractivo e que não depende nem dos SMUTC, nem da Câmara.
As dificuldades de contratação estendem-se também aos mecânicos, com a empresa a «recorrer a prestadores de serviços» e a «apostar na reorganização interna» para garantir o funcionamento dos serviços e a manutenção dos equipamentos.
Nova app para bilhetes à distância
A compra de bilhetes e passes à distância, em particular a partir do telemóvel, foi outra das medidas para os SMTUC propostas por José Manuel Silva, no programa eleitoral que apresentou em 2021. Está a começar a ser cumprida. Em Janeiro, foi lançado o portal Coimbra ConVida, que permite o carregamento de passes pela Internet, evitando deslocações e filas de espera. Para usar o sistema é, no entanto, preciso criar um perfil presencialmente e, de acordo com Jorge Jesus, esta é uma das explicações para os ajuntamentos registados nos últimos dias em algumas lojas físicas, com procura acrescida também por causa do alargamento dos passes gratuitos aos estudantes do ensino superior.

Também no início deste ano, foi instalada uma máquina que permite a compra e carregamento de títulos, na Estação de Coimbra B, semelhante à que já existe no Mercado Municipal D. Pedro V, e vão ser colocadas mais duas: uma no Pólo I da Universidade de Coimbra e outra no Largo da Portagem.
Nos planos está também a criação de uma nova aplicação, mais intuitiva e fácil de utilizar do que a Coimbra Move-me, que tem vindo a ser criticada por não permitir uma consulta rápida aos horários. O pagamento electrónico ainda não é possível, mas está a ser considerado.
Acessibilidades por melhorar
O autocarro em que viajamos tem piso rebaixado e é acessível a pessoas que utilizam cadeira de rodas, com Jorge Jesus a destacar a «elevada taxa» de viaturas «com estas funcionalidades» e a «grande preocupação» dos SMTUC em prestar um serviço inclusivo e sem barreiras. Ainda em Fevereiro, ilustrou, a empresa esteve reunida com a ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) e vai procurar dar resposta a um «conjunto de preocupações». A principal queixa tem que ver com a falta de avisos sonoros nas paragens a anunciar a chegada dos autocarros – a informação é dada pelos motoristas, quando abrem as portas. No interior, todas as viaturas estão equipadas com sistema sonoro, mas há avarias e vai ser feita «uma inspecção» para reparações.
Além da oferta regular acessível a utilizadores de cadeira de rodas (o reparo mais comum é a falta de informação sobre as linhas abrangidas), os SMTUC têm, desde os anos 80, um «serviço de transporte especial», flexível e que funciona por marcação, assegurando deslocações entre casa e o trabalho, a escola ou serviços de saúde. O orçamento deste ano prevê a compra de mais duas viaturas «para aumentar a oferta e melhorar a prestação de serviço», no valor de 140 mil euros.

Ainda no reforço social do serviço, José Manuel Silva prometeu «reformular profundamente a Ecovia» e avançou neste sentido ainda no primeiro ano do mandato. O serviço foi alargado aos utilizadores da rede geral dos SMUTC e a preços mais acessíveis, resultando um «crescimento acima dos 180» no número de passageiros: 6500, no final de Setembro. O circuito da linha vermelha foi também alterado para servir a zona da Estação Velha, assim como o parque situado por debaixo dos viadutos da Casa do Sal, para «dar resposta a uma nova procura, designadamente face ao previsível aumento de utilizadores com destino aos HUC».
Apesar dos esforços e perspectivas de melhorias, o número de passageiros previsto para este ano é de 11,7 milhões, ainda abaixo dos números pré-pandemia.
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