Muitos órgãos de comunicação social separam o local, o nacional e o internacional, como se fossem mundos desligados. As divisões interior/exterior, endógeno/exógeno ou local/extralocal têm a vantagem de simplificar e ordenar o pensamento, mas também o demérito de não corresponderem à realidade dos factos. Alguns dos acontecimentos mais marcantes das últimas décadas demonstram isso mesmo. O 9/11; a crise financeira iniciada em 2008; o fluxo de refugiados de 2015/16; a pandemia e a presente guerra na Ucrânia mostraram-nos que, enquanto heterotopia confinada e autossustentada, o local não existe. Pelo contrário, vivemos em lugares que são a síntese complexa e dinâmica de diferentes escalas geográficas. Ao mesmo tempo, o geógrafo Milton Santos disse-nos que o centro do mundo é onde nós estamos. Estas palavras têm um duplo alcance. Por um lado, dão-nos um referencial de observação, por outro, não negam as interdependências que nos afetam.
Foquemo-nos na atual guerra em território ucraniano. Estamos em cima da ocorrência e muito condicionados pelos acontecimentos diários. É por isso difícil antecipar o modo como este conflito se vai inscrever no lugar que é o nosso centro de observação – Coimbra. Ainda assim, arrisquemos algumas linhas de reflexão.
Desde o dia 24 de fevereiro, a Ucrânia parece-nos mais familiar. Nesta Geografia das perceções, é instintivo juntarmo-nos aos agredidos e levantarmos barreiras contra os agressores. No espaço mediático, os mapas tornam-se omnipresentes. O primeiro ataque desencadeou a constante exposição de representações cartográficas do território ucraniano. As principais cidades, as fronteiras contestadas, as centrais nucleares, os fluxos das forças invasoras, os trajetos dos refugiados – os conteúdos variam mas a Ucrânia está mais próxima. Com as manifestações de apoio, descobrimos o amarelo e o azul da bandeira ucraniana. Percebemos o valor de agregação das camisas de linho bordadas e dos adereços floridos. Não é estranho que assim aconteça. Os conflitos acentuam a topofilia (o «amor aos nossos lugares») e as manifestações de identidade e pertença.
Ao mesmo tempo, descobrimos o que porventura não conhecíamos. Vivemos nos mesmos lugares de uma comunidade ucraniana até então invisível. A tendência geral é o estereótipo. Nas nossas cidades, temos imigrantes africanos, indianos e aquele que são «de Leste». Todos categorizados assim, desta forma, sem complicar muito. Com a guerra, vimos que os moldavos, romenos, ucranianos ou russos, são diferentes e não se podem confundir. O conflito também nos tem trazido medos. Tememos as ondas de choque de acontecimentos que podem colocar em causa o nosso quotidiano. O encarecimento dos combustíveis, da energia que nos entra em casa, da alimentação, todas estas variáveis se projetam no local e nas nossas vidas.
Os nossos quotidianos higienizados, a partir dos quais assistimos a uma guerra transmitida em direto, são confrontados com outros medos e riscos. Até onde irá o agressor? Quais as linhas de demarcação da violência direta? Existe o perigo real de uma terceira guerra mundial? E as centrais nucleares? O que pode acontecer? Ainda que Portugal apenas tenha sofrido efeitos muito vagos e indiretos do acidente tecnológico de 1986, Chernobyl é um topónimo mítico inscrito na nossa memória pessoal e coletiva. Contudo, o tempo pode ser um fator de erosão. O prolongamento indefinido destes acontecimentos assistidos através de um ecrã, pode banalizar os factos e levar à indiferença pelo que se passa no terreno. Se assim for, a Ucrânia irá juntar-se à Geografia da omissão que passa por conflitos esquecidos como a Líbia, a Síria, o Iémen, o Sara Ocidental ou a Faixa de Gaza.
No imediato não é assim. O território ucraniano ainda está na primeira página, aquela que alimenta os esforços espontâneos da hospitalidade. A este propósito, deixa-se um alerta. Acolher refugiados é um processo longo que deve acontecer fora dos ecrãs e das redes sociais. Os sistemas inorgânicos de acolhimento, com a vaga de iniciativas individuais ou de grupos de voluntários que se deslocam à fronteira para trazer uma ou outra família de ucranianos, é um risco que deve ser ponderado. Sem estruturas bem organizadas de apoio, a distribuição de populações vulneráveis por geografias difusas pode ajudar a resolver o problema no imediato mas não dá garantias de um auxílio mais prolongado. Percebe-se que estas populações pretendem o regresso ao país de origem. No entanto, existe algo que ninguém domina- o tempo de duração do conflito. Se este se prolongar, o apoio às vítimas deve ser consistente.


João Luís Fernandes é geógrafo, professor do Departamento de Geografia e Turismo (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), investigador do CEIS20- Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra, com interesses em áreas como a Geografia Cultural e a Geografia Política.
