A guerra na Ucrânia é também uma guerra de informação. Se não o fosse, a União Europeia não teria proposto o encerramento da agência de notícias russa Sputnik e do canal público russo RT. Proposta seguida por vários países europeus, por considerarem que estes dois meios de comunicação não são mais do que altifalantes da propaganda do regime ditatorial de Putin. Regime que, ao mesmo tempo que invade e destrói solo ucraniano, bombardeia bases militares, mas também escolas e hospitais ucranianos, elimina, através da censura, qualquer tipo de comunicação social independente em solo russo e ameaça de tal forma os órgãos de comunicação social (OCS) internacionais que os «obriga» a deixar o território governado com mão de ferro, ou melhor, mão «atómica», capaz de destruir toda a humanidade.

Da Rússia já saíram nomes grandes do jornalismo como a BBC, a CNN, a ZDF alemão, RTVE espanhola ou a RAI italiana. Enquanto a Rússia se esvazia de OCS, o oposto acontece em solo ucraniano, quase todos os países da Europa, Portugal não é exceção, enviou equipas especiais para algumas das principais cidades do país, mas também para as principais fronteiras, nomeadamente na Polónia e na Roménia. E, aqui, nestes cenários de guerra temos visto o melhor e o pior do jornalismo, que tem algumas funções fundamentais, que devem conviver em equilíbrio e que, nestes cenários em que nos explodem as emoções, nem sempre é fácil de equilibrar.

Primeira, o jornalismo deve informar. À partida parece ser, de todas as funções, a mais fácil de cumprir, mas importava aqui teorizar um sem fim de outros princípios que aqui se cruzam e que não temos espaço ou tempo para desenvolver, mas importa apontar: a credibilidade das fontes, o informar com objetividade, rigor e isenção, o mediar e dar voz ao que é verdadeiramente do interesse público. Há jornalistas portugueses, na Ucrânia, a fazê-lo. E a fazê-lo bem. Perdoem-me aqueles de quem me esquecerei neste momento, mas a mim que estou no conforto da minha sala a escrever este texto,
apetece-me agradecer as reportagens de qualidade que tenho visto da Cândida Pinto, do Pedro Mourinho e do José Rodrigues dos Santos ou ouvido as reportagens do Nuno Amaral e do Pedro Cruz. Informar é isto que eles (bem) estão a fazer. A chegar onde os outros que cá estão na redação não chegam. A mostrar aquilo que não são apenas as imagens oficiais desta ou daquela câmara mais ou menos controlada por invasores ou invadidos. São eles que nos contam histórias, que as relatam na primeira pessoa. São eles que ouvem as fontes primárias, não apenas as oficiais, aquelas que sentem a agrura e o amargo desta guerra imposta por um dos lados. Fazer isto é bem diferente de estar na Ucrânia, num hotel, a relatar o que o governo local colocou nas redes sociais, e isto também está a acontecer. Poderia era ser feito por qualquer outro jornalista sentado na redação no nosso país. Não chega ir, dizer que se está, e mostrar de hora a hora a mesma avenida da cidade para garantir que se está a informar com rigor, interesse e profundidade. Há que acrescentar algo mais ao banal.

Segunda, o jornalismo deve permitir o controlo e a vigilância social, tentando não cair na disfunção que também é tão propriamente sua, o alarmismo. Importa que, da Ucrânia, nos cheguem informações que nos permitam perceber o impacto desta guerra na restante Europa, em Portugal em específico, e até mesmo na humanidade. Importa perceber os interesses que estão por detrás, quem é que Putin quer verdadeiramente penalizar com a invasão de um país soberano e de uma nação reconhecida internacionalmente. Importa esclarecer estas informações e não ficar pelo «folclore» da guerra (perdoem-me se esta expressão num contexto de guerra pareça festivaleira demais, mas justifica o que vem de seguida). Importa não valorizar demais a terceira função do jornalismo: o entretenimento. Não podemos, ou melhor, não devemos estar em cenários de guerra a descrever o que estamos a ver como se fosse um filme de animação, não devemos colocar o jornalista no centro das atenções, dando conta do que comemos, onde dormimos ou de como estamos, pois estamos lá (como estamos em qualquer outra história) para falar dos outros e não para falar na primeira pessoa.

Deverá ser difícil (talvez impossível) descrever a queda de um míssil num bairro residencial sem que os nervos, o medo, a vergonha alheia nos encha a voz para descrevê-lo, mas devemos impedir que isso se torne um «folclore», pois quanto mais isso fizermos mais depressa a guerra se tornará banal aos olhos de quem está a mais de quatro mil quilómetros do palco do conflito e, inevitavelmente e sociologicamente, isso vai acontecer. Tentemos favorecer que aconteça o mais tarde possível: a adrenalina vai esmorecer, a solidariedade vai esmorecer e temo que acabemos por esquecer os ucranianos tal como esquecemos os sírios, os afegãos ou os sudaneses. Somos assim, humanos e de memória curta.

Depois, há a guerra da desinformação e até do excesso de informação, numa altura em que, todos nós, jornalistas ou não, queremos ser produtores de informação. Só que os jornalistas produzem informação dentro de balizas legais que os regulam e, mais ou menos sensacionalistas, exercem a sua profissão debaixo de um Código Deontológico e vestindo o colete do Estatuto do Jornalista. Já o comum cidadão produz conteúdos, sobretudo nas redes sociais, na ótica da velha «filosofia popular do “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Nestas alturas nunca é demais apelar ao bom senso de tentar distinguir nas redes aquilo que é informação verdadeira, daquilo que são histórias inventadas. Por isso, aqui vos deixo três dicas rápidas: primeiro, há que olhar atentamente para o título da notícia e, aqui, começo logo por citar uma jornalista ucraniana, que há vários anos luta contra as fake news. Olga Yurkova, em 2018, dizia que «se uma história é demasiadamente emocionante ou dramática, provavelmente não é real. A verdade é geralmente entediante».

Mesmo em contexto de guerra há que levar esta frase à letra. Muito do drama que nos chega é real, mas há sempre como aumentar ou pintar o cenário pior ou completamente ao lado daquilo que na verdade se passou. Se ainda assim abre a notícia, dica número dois: fontes de informação. Quem fala? Tem de estar bem identificada e de ser bem específica. Cientistas alegam, fonte do exército, médicos no local, população que viu… tudo isto não passam de generalidades. As fontes (quase sempre) existem, têm um rosto e são identificáveis: primeiro e último nome com cargo.

O terceiro conselho, talvez o mais desafiante é a obrigatória confrontação das informações. Há que cruzar dados, como na guerra se cruz fogo da artilharia. Há que ser desconfiado, ou pelo menos cético, em relação àquilo que nos contam. Encontramos a informação neste determinado sítio, agora temos mesmo de perceber se a podemos encontrar em outros OCS de referência. Se não encontra, deite fora, o mais provável é que seja falso. A guerra na Ucrânia não é falsa, é bem verdadeira, mas alguma coisa do que nos chega pode não sê-lo, sobretudo se a fonte de origem forem as autoridades russas ou a controlada comunicação social desse país.




Miguel Midões é jornalista desde 2004, actualmente ligado à rádio TSF. Professor do ensino superior na área do jornalismo, rádio e literacia mediática, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e no Instituto Politécnico de Viseu. Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra.

Share.

Jornalista

Comenta esta história