Há cineastas que, ao depararem-se com os problemas do mundo, procuram, apesar disso, um encantamento no meio do caos. Não renegam a realidade, nem o seu lado mais obscuro, mas também não se deixam vergar. Reconhecem e denunciam as problemáticas da sociedade, o que não os impede de encontrar beleza no que está diante dos nossos olhos, nas pequenas coisas mundanas, na natureza, nas emoções, numa busca constante pela fruição e pelo sublime.

Quando David Lynch nos mostra o mundo estranho de Blue Velvet, também nos apresenta uma cena em que a protagonista Sandy relata um sonho com pássaros que representam o amor. Depois de um momento de escuridão e vazio, aparecem milhares de pássaros e, nesse instante, o amor é a única coisa que pode fazer a diferença. E faz. Sandy termina dizendo que só existem problemas até que os pássaros cheguem. Também em Abril, de Nanni Moretti, encontramos um indivíduo extremamente politizado, cujas preocupações com a sociedade o deixam enfurecido, mas que, apesar das dificuldades da vida, não deixa de encontrar alegria nas pequenas coisas: num café, na sua lambreta ou no nascimento de um filho. Trata-se de um realizador que filma a felicidade apesar das angústias do protagonista.

Agnès Varda é uma destas cineastas, e este filme, em particular, representa essa busca. Podemos dizer que todos estes exemplos são de pessoas que, de alguma forma, são respigadoras, na medida em que procuram encontrar algo a que muita gente não dá valor e dar-lhe um uso diferente. Por isso, o título deste filme refere-se à respigadora que, neste caso, é Varda: uma respigadora de imagens. Aquilo que poderia ser um documentário tradicional, com entrevistas a várias pessoas sobre o ato de respigar em França, transforma-se através da sua autora como elemento diferenciador. Varda não está a tentar fazer apenas um documentário sobre um assunto, usa-o, sim, como pretexto para se descobrir e para descobrir o outro. O filme é conduzido pelo seu olhar e, mais do que tudo, pela sua intervenção física na obra.

A realizadora é, então, um ponto-chave que, através do seu olhar subjetivo, toma as rédeas da narrativa e procura, no acaso e nos seus próprios interesses, a reflexão do filme. Não é imparcial e não se inibe de tecer a sua opinião. Procura, nas pessoas entrevistadas, o seu íntimo, de forma a encontrar diferentes maneiras de ver a vida a partir do ato comum de respigar. Uns respigam por prazer. Outros, por necessidade. Alguns, pelos seus valores morais. Outros, ainda, por pretensão artística. Mas todos aproveitam aquilo que foi desperdiçado por alguém que não viu valor naquela comida ou naqueles objetos, mas que, para outros, é indispensável.

Varda também pratica o ato de respigar ao longo do filme, e esta prática está associada à busca por imagens. A inserção da sua presença assume um ponto de vista subjetivo, que intervém nos acontecimentos narrados e influencia a experiência estética da obra, assumindo uma postura performativa, que revela a sua intenção de provar uma relação entre o cinema e o ato de respigar. O primeiro manifesto surge quando reinterpreta a pintura The Gleaner, de Jules Breton, imita a espigadora do quadro, na mesma postura, mas, de repente, segura a sua câmara digital e intitula-se Respigadora, trocando as espigas pela câmara e referindo quais as possibilidades que esta lhe dá para criar imagens.

Agnès aproveita os recursos da câmara para experimentar novas imagens em movimento, atribuindo-lhes sentido estético através da montagem. A sua ação de respigadora manifesta-se pela intervenção nos acontecimentos, indo ao encontro das suas filiações estéticas. Num amontoado de batatas, quando um homem as vai recolhendo para um balde e refere que muitas estão deformadas, algumas em forma de coração, Varda diz assertivamente que quer essa batata, e vemo-la ir buscá-la e filmá-la. Com uma mão filma, com a outra, respiga. Encontra-se no processo de fazer um filme, mas está simultaneamente a viver. Num momento entrevista alguém, noutro fala sobre si e, de seguida, diz que vai entrevistar uma outra pessoa. Na continuidade da respiga, retira e come figos de uma árvore, afirmando, num gesto que corrobora o seu encantamento pela vida, que aquilo é uma maravilha da natureza.

A dado momento, a realizadora entra em sua casa e filma umas manchas no teto, enquadrando-as, de seguida, numa moldura, como se fossem uma pintura abstrata. As relações imagéticas construídas pela montagem constituem um dos motivos mais interessantes do filme, como acontece nessa cena. As pinturas relacionam-se com as imagens capturadas por Varda de respigadoras na atualidade, criando uma ligação entre passado e presente. Os movimentos funcionam como raccords que deambulam entre a experiência estética e uma relação poética mais contemplativa.

Os planos que normalmente ficariam de fora da montagem, por serem considerados erros, são usados como experiências de fruição, como acontece na cena em que a tampa da câmara, supostamente desligada, dança e cria um momento mais sensorial. É um daqueles momentos inexprimíveis, em que as palavras não conseguem explicar o que se sente perante uma relação que deveria ser aleatória, mas que diz tanto. Um plano que deveria ter sido cortado, mas que foi respigado. Uma tampa que não está a tapar a objetiva, que seria a sua função primordial, assumindo antes uma posição performativa perante ela. Mais para o fim, a cineasta aproveita uma pintura de espigadoras que estava na arrecadação de um museu e coloca-a à luz do dia. O vento fá-la tremer e acaba por emular a tempestade retratada no quadro: uma imagem estática transforma-se numa imagem em movimento, em que o presente afeta o passado.

Outro dos aspetos do filme, numa perspetiva temática, é a escolha de inserir os vários lados do problema, os que respigam, os proprietários e os representantes da lei. Uma das cenas mais evidentes deste facto ocorre quando Varda coloca em tensão o caso judicial de uns jovens que danificaram propriedade de um supermercado por este não os deixar respigar os desperdícios de comida deitados para o lixo. Varda ouve os jovens, ouve o diretor do supermercado e ouve a juíza que julgou o caso. Estas diferentes perspetivas são constantes na longa-metragem, abordando a tensão entre respigadores e proprietários.

Contudo, a sua posição como autora não é a de procurar uma compreensão neutra do outro lado, mas sim a de evidenciar o comportamento avarento dos proprietários. Varda chega mesmo a afirmá-lo e, logo de seguida, vemos um homem dizer que, apesar de a colheita já ter sido feita e de ainda sobrarem frutos bons para comer, as respigas não são autorizadas. A sua posição é clara, dar voz a estas pessoas, que são colocadas à margem do sistema formal de consumo e obrigadas a sobreviver dos desperdícios e das margens do capitalismo. A realizadora confronta a abundância da indústria com a escassez de quem vive à margem, e a sua câmara é a arma de denúncia desta tensão, à semelhança da espingarda cronofotográfica que fotografa as aves.

Num dos planos mais bonitos desta obra, a realizadora filma lentamente a sua própria mão e afirma que este é o seu projeto, isto é, filmar uma mão com a outra. Vemos as suas rugas, as marcas do tempo, e que belo é isso, com a mesma mão que acompanhamos ao longo do filme a intervir, a agarrar objetos, a respigar. Porém uma das mãos, a que segurava a câmara, fê-lo o tempo todo. A respigadora de imagens procurou o encantamento num mundo que nunca para e aparenta estar sempre a correr. A dada altura, tenta agarrar os camiões na estrada, um ato simbólico desta passagem.

Numa sociedade em que somos bombardeados por imagens, o ato de ir a uma sala de cinema seja talvez uma forma de respigar. Na sala escura, o foco de atenção é aquela experiência diante dos nossos olhos, que nos invade de maneiras que as imagens do quotidiano não conseguem. Porque alguém, por detrás da câmara, procurou respigar e reparar o mundo através do seu olhar, que escolhe partilhar connosco. Ver este filme no grande ecrã é uma oportunidade de experienciar a visão peculiar desta artista e teremos ocasião de o fazer no dia 21 de setembro de 2026, ás 18h30, no TAGV.

Esta é a estreia do Diogo Silva como colaborador de cinema da Coimbra Coolectiva. Diogo faz parte do Cineclube Bora Ver, cineclube de alunos dos Estudos Artísticos da FLUC, e vai passar a escrever todos os meses sobre cinema na nossa publicação.

 

Share.

Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

Comenta esta história