Olá, meus inenarráveis coimbrinhas.

Há uns tempos deparei-me com esta inusitada história de true crime, bem nas nossas barbas, rolando das nossas colinas até me bater bem defronte, no queixo. Foi impactante. Um clarão de luz, seguido de um negrume absorvente. Um choque eletrizante que isto se tenha passado aqui, no mesmo solo que pisamos, nas mesmíssimas terras e povoações que conhecemos.

A história de Luísa de Jesus, apesar de trágica, merece ser conhecida e divulgada. Eu procurei fazê-lo, mas ninguém o fez tão bem como os dois artolas que concebem o podcast coimbrão: Make Celas Great Again – MCGA.

Foram ao âmago da questão, assumiram a história como se fossem corpo presente naqueles idos do século XVIII. A peça, de tão bem documentada, apoiada em registos históricos, leva-nos a lugares tenebrosos e é uma viagem no tempo à Coimbra de antanho.

Numa dedada, a história conta-se simples, mas o enredo criado neste episódio do MCGA leva a experiência mais longe. Em época de sórdidos documentários sobre crimes e criminosos, esta assenta que nem uma ensanguentada luva.

Luísa de Jesus há-de ter sido a primeira, a última e, se calhar, a única serial killer portuguesa.
O caso começou a ser descoberto em Abril de 1772, quando duas funcionárias da Roda dos Expostos entregam mais duas crianças, supostamente a terceiros, através de Luísa de Jesus, que já teria levado, nos entrementes, 32 recém-nascidos.

A Real Casa dos Expostos de Coimbra situava-se no alto do Montarroio e foi aí também que se encontraram os primeiros restos mortais que a viriam a incriminar. Quinze são desenterrados ali mesmo na colina que hoje subimos e descemos sem qualquer ideia da macabra história ali passada.
Mais tarde, já na casa da acusada, segundo relato da sentença da Casa da Suplicação, «se descobriram em um pote de barro vários pedaços de cadáveres corrompidos e fétidos (…) E semelhantemente debaixo de uma pouca de palha se acharam quatro cascos de cabeças com a carne comida e um corpo de criança organizado (…)»

O móbil destes hediondos crimes residiu na ambição de embolsar os 600 réis a que tinha direito por cada criança retirada dos Expostos. No total, terá desviado cerca de 20 mil réis, ou, como dizia a minha Avó, 20 mé reis.

Foi a última mulher executada em Portugal.

No episódio 14, da temporada 2, deste luxuoso podcast, apoiado pela Coimbra Coolectiva, vão poder seguir todos os passos, todos os envolvidos e todos os ínfimos pormenores desta aterradora história, ao longo de 50 minutos.

Vale certamente a pena. Mais um pedaço de história desta cidade, fora do postal ilustrado da altaneira Torre.

Ide ouvir!

Share.

Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

Comenta esta história