Hoje de manhã deparei-me com uma imagem que incomoda precisamente porque acerta: dois carrinhos de bebé. Num, uma criança em tons apagados; no outro, um cão em cores vibrantes, quase festivas. A mensagem é óbvia. O desconforto também.

Rapidamente surgem os guardiões da moral: “os valores estão invertidos”, “já não há decência”, “onde vamos parar?”. É sempre o mesmo coro. Sempre muito indignado, sempre muito certo de si, e quase sempre completamente desligado da realidade concreta em que as pessoas vivem.

A ideia de que isto é uma simples degradação moral é, no mínimo, preguiçosa. No máximo, é intelectualmente desonesta.

Vivemos num mundo que romantiza a família enquanto a destrói na prática.

Fala-se de natalidade, mas:

  • não há condições económicas para ter filhos,
  • não há estabilidade laboral,
  • não há tempo,
  • não há rede de apoio.

Fala-se de cuidar dos mais velhos, mas:

  • não há apoio ao cuidador informal,
  • não há estruturas acessíveis,
  • não há dignidade na velhice.

Fala-se de futuro, mas:

  • o ambiente colapsa,
  • a habitação é incomportável,
  • e a política continua surda.

E depois ainda há quem pergunte, com ar genuinamente confuso, porque é que as pessoas “preferem cães a crianças”.

Preferem?  Não. Adaptam-se ao que sobrou.

As pessoas não ficaram mais frias. Ficaram mais conscientes.

Ter um filho não é comprar um objeto emocional para preencher vazios. É assumir uma responsabilidade brutal num mundo que, cada vez mais, parece hostil à própria ideia de continuidade. E há um limite para a quantidade de autoengano que alguém consegue sustentar.

Optar por não ter filhos, hoje, não é necessariamente egoísmo. Muitas vezes é o oposto: é recusar trazer alguém para um sistema que não garante sequer o mínimo.

Os cães, entretanto, tornaram-se bodes expiatórios convenientes.

Mas um cão não substitui um filho. Substitui, isso sim, um tipo de compromisso que deixou de ser viável para muita gente.

Oferece afeto sem exigir um sistema inteiro a funcionar.

Oferece presença sem depender de políticas públicas inexistentes.

Oferece vínculo sem obrigar a um salto de fé num futuro cada vez mais duvidoso.

Num espaço onde tudo foi sendo substituído por betão, pressa e isolamento, os animais tornaram-se, para muitos, um dos poucos vínculos ainda vivos.

E talvez seja precisamente aqui que o desconforto se torna mais evidente e mais revelador.

Se os animais ocupam hoje um lugar emocional real na vida das pessoas, porque é que continuam a não existir no momento em que esse vínculo se quebra? Porque é que não há nome, nem espaço, nem tempo reconhecido para esse luto?

O mesmo sistema que define quantos dias de nojo são “legítimos” consoante o grau de parentesco (marido, filho, pai), simplesmente ignora um vínculo que, para muitas pessoas, é quotidiano, estruturante e profundamente afetivo. Enquanto Doula de Fim de Vida Animal, convivo com o constragimento hierárquico do luto.

Como se não existisse.

Como se perder um animal fosse um detalhe logístico, e não uma rutura emocional.

Mas quem já passou por isso sabe: não é.

É o silêncio de uma casa que antes tinha presença.

É a rotina que se desfaz de um dia para o outro.

É chegar a casa e já não haver ninguém à porta.

E, ainda assim, espera-se que tudo continue como se nada fosse.

Sem ausência justificada.

Sem tempo para parar.

Sem reconhecimento.

Há aqui uma contradição difícil de ignorar:

Por um lado, critica-se quem estabelece vínculos profundos com animais.

Por outro, recusa-se reconhecer o impacto real da sua perda.

Há excessos, claro. Há projeções. Como em tudo o que envolve afeto.

Mas reduzir este vínculo a caricatura é ignorar o que ele realmente representa.

Talvez porque reconhecer esse luto obrigaria a admitir algo mais desconfortável:

que estes vínculos não são acessórios.

São centrais.

E que, num mundo onde tantas formas de ligação foram fragilizadas ou desapareceram, os animais deixaram de ser apenas companhia;  passaram a ser estrutura emocional.

E depois há os mais velhos,  convenientemente esquecidos neste debate moralista.

Filhos que emigraram.

Famílias fragmentadas.

Casas vazias.

Também eles procuram ligação. Também eles encontram nos animais aquilo que a sociedade lhes retirou: companhia, rotina, presença.

Mas isso, curiosamente, já não indigna tanto.

A pergunta “onde vamos parar?” está mal colocada.

A pergunta certa é: o que é que fizemos, enquanto sociedade, para tornar a construção de uma família, de vínculos e de continuidade algo tão precário, tão pesado e tão arriscado?

Isto não é uma crise de valores.

É uma crise de condições.

E enquanto continuarmos a culpar indivíduos por se adaptarem, em vez de questionar o sistema que os empurra para estas escolhas, vamos continuar a assistir ao mesmo espetáculo: muita indignação… e zero mudança.

No meio disto tudo, há uma verdade difícil de engolir:

as pessoas continuam a querer amar.

Simplesmente deixaram de confiar que o mundo onde vivem aguente todas as formas desse amor.

Não foi o amor que mudou. Foi o mundo que deixou de estar à altura dele.

Rita Joana Pinheiro Maia é doula de fim de vida, realizadora, cantora, compositora e escritora, com formação em etologia canina, cuidadora dos pais desde os 16 anos, ativista dos cuidadores informais, e fundadora e presidente da Associação Dom Bichon, dedicada ao resgate e acompanhamento do fim de vida de animais.

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