Ninguém chegou por engano. Num fim de tarde frio, a sala do TUMO Coimbra voltou a encher-se de leitores — veteranos e estreantes — para o segundo encontro do Clube de Leitura Coolectiva. Um mês depois do pontapé de saída, o grupo reapareceu com novos rostos, livros lidos, anotações nas margens e o mesmo desejo inicial: parar para escutar.

Desta vez, a conversa começou devagar, com Martha Mendes a propor o mesmo ritual de apresentação para quem chegava pela primeira vez. Nome, motivo e, sobretudo, o que traz cada um ali. «Estamos todos no mesmo barco», lembrou a mediadora. «Isto não é uma aula nem há especialistas. Somos apenas pessoas que gostam de ler e conversar sobre livros.»

E não foram livros leves. Entre A Idade Frágil e Huris, os leitores mergulharam em histórias duras — de guerra, silêncio e sobrevivência — e partilharam impressões emocionadas. Uma das participantes confessou ter ficado «revoltada» com a violência narrada; outro falou da palavra que ficou a ecoar-lhe na cabeça: silenciamento. «Em todo o lado há quem seja calado — nas guerras, nas casas, nas sociedades que fingem não ver.»

Seguiram-se leituras cruzadas e novas perspectivas: uns leram o romance como metáfora do apagamento feminino; outros reconheceram nele a «política do esquecimento» que atravessa não só a Argélia, mas tantos lugares onde a história é reescrita para caber no presente. Martha sintetizou: «Estes livros lembram-nos que a literatura é também memória — e uma forma de dizer o que ficou por dizer.»

Entre as intervenções, surgiram ideias para o futuro: melhorar a disposição da sala, pensar em grupos menores, experimentar novas dinâmicas de partilha. No fim, venceu um consenso absoluto — o vinho há de manter-se.

Antes de encerrar, Martha anunciou as próximas leituras:

Partida, de Julian Barnes · Quetzal
Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco». Partindo da história de um casal de namorados que se reencontra quarenta anos depois e decide tentar uma «última possibilidade de ser feliz?, Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice e, inevitavelmente, a morte. Segundo o próprio autor, a vida é, na melhor das hipóteses, «uma comédia ligeira com um final triste».

Julian Barnes nasceu em 1946, em Leicester, e é autor de mais de vinte livros. Em 2011, venceu o Man Booker Prize com O Sentido do Fim. Três dos seus romances foram finalistas do prémio, incluindo O Papagaio de Flaubert, também galardoado com os prémios Médicis e Femina.

Agora e na Hora da Nossa Morte, de Susana Moreira Marques · Companhia das Letras
Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda – primeiro os olhos, depois o coração, e por fim, as mãos. Neste livro de estreia, Susana Moreira Marques guia-nos por aldeias esquecidas de Trás-os-Montes e por rituais de despedida, gestos de consolo e promessas de futuro. Entre enfermeiros, doentes e familiares que enfrentam o fim da vida, o livro ilumina as histórias de quem parte e de quem fica, «para que ninguém se esqueça e ninguém seja esquecido». A autora mistura reportagem, história oral e meditação filosófica, para escrever sobre a memória, a mortalidade e os laços de amor.

Susana Moreira Marques é autora de vários livros de não-ficção literária e tem colaborado com o Público, a BBC, a Granta e o Literary Hub. É também coeditora da revista Mamute e escreve para televisão e cinema.

O próximo encontro do Clube de Leitura Coolectiva está marcado para 27 de fevereiro, às 19h, no TUMO Coimbra, novamente com lanche e vinho partilhados — e duas obras que prometem continuar a escutar o mundo através dos livros.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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