Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Hoje dirigimo-nos a uma das principais artérias da cidade.
Outrora rasgada por uma estrada asfaltada, hoje orgulhosamente um passadiço calcetado onde dá prazer passear, ligando Baixa e Alta. Falamos, está claro, dessa manga pedonal Ferreira Borges – Visconde da Luz. Que poderá ser um dia, quiçá, continuada pela Rua da Sofia, acalentando essa esperança pelos clamores dos dias que correm.
Àqueles que maldizem desta última decisão camarária, convido-os a pensar o que terá sido, à época, terminar com o afluentíssimo trânsito da Ferreira Borges-Visconde da Luz e da volta que se necessita dar, de veículo motorizado, para aceder à outra ponta. E faço a pergunta ao contrário, estilo boomerang, quem estaria disposto a voltar atrás nessa decisão, hoje, ao dia em que leem estas linhas? Voltar a asfaltar aquele corredor…
Lancemo-nos ao que aqui nos trouxe e, antes de tudo, constatar o facto de ser muito mais comum as pessoas dirigirem-se àquela veia, no seu todo, como Ferreira Borges.
«Vou à Ferreira Borges.»
«Estou na Ferreira Borges.»
Lugares-comuns que o tempo tece.
Pois bem, quem foi Ferreira Borges, perguntam vocês, sedentos de saber e a transbordar curiosidade?
Ferreira Borges nasceu no Porto em 1786, tendo, no entanto, estudado Cânones (atual Direito) em Coimbra.
Excetuando esta breve passagem por Coimbra, este senhor nada teve que ver com a cidade.
Dividindo a sua influência e obra – como primeiro Código Comercial português – por Porto, Lisboa e Londres, foi deputado e organizador/criador, bem como impulsionador das Praças do Comércio do Porto e Lisboa.
Portanto, Ferreira Borges apanhou umas bebedeiras por Coimbra enquanto jovem estudante e fica, para sempre, o fiel depositário de uma das mais importantes vias comerciais desta aldeia. Faz sentido.
E o que dizer do senhor que se segue?
Visconde da Luz. Como o próprio título sugere, este cavalheiro era Visconde e era da Luz, esse sobejamente conhecido bairro da Lusa Atenas.
De nome próprio Joaquim António Velez Barreiros, nasceu em Oeiras em 1803 e foi um dos responsáveis pela estrada que liga Oeiras a Cascais, tendo inclusive direito a rua, travessa e jardim com o seu nome na vila portuária que, como todos sabemos, é contígua à Figueira da Foz.
A Visconde da Luz foi — e, de certa maneira, ainda é — a mais importante rua de Coimbra, anteriormente Rua de Coruche, com primeira menção conhecida no início do século XIII.
A rua, que seria sinuosa, estreita e imprópria para a sua importância, foi sujeita a dignificantes obras na década de 50 do século XIX, tendo como objetivo alargar, melhorar e torná-la merecedora do seu prestígio.


«A 14 de Setembro do mesmo ano (1858), são inauguradas as obras da Rua de Coruche a que se mudou o nome para Visconde da Luz, por ter este cavalheiro, na qualidade de Diretor-Geral do Ministério das Obras Públicas, contribuído para facilitar este melhoramento»*.
Então, temos um qualquer Ferreira Amaral, Jorge Coelho ou Mário Lino da altura e toca de apodar a rasgada via, ponto fulcral da vida social e comercial desta aldeia, com o nome de um mangas de alpaca, pato-bravo, que se limitou a fazer o seu trabalho, assinar papéis, algures num gabinete na capital, para avançar com uma obra.
Parabéns e palminhas ao incapacitado subserviente que se lembrou desta ignota ideia.
Assim, num ato contínuo, só possível aos mais brilhantes cérebros desta urbe, temos a principal veia pulsante da terrinha intitulada por dois ilustres desconhecidos que nada têm que ver com a história desta. Premiação da mediocridade, barómetro intelectual da Lusa Atenas.
Cidade que invariavelmente esquece os seus em detrimento do poder instituído e da ordinareca lambe-botice provinciana.
Coimbra a ser Coimbra desde 1858.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
* In A evolução Histórica e Geográfica da Baixa de Coimbra — Funções e Transformações. Uma proposta de exploração pedagógica, de Luís António Martins dos Santos.
