Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Seria de esperar que todos soubessem quem foi Sá da Bandeira, aliás Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, primeiro marquês de Sá da Bandeira.
A única avenida em Coimbra digna desse nome, a única avenida capaz de ombrear com os palcos europeus, apesar do voto ao ostracismo a que foi deixada nas últimas décadas, é o epítome desta cidade, a perfeita metáfora da grandiosidade abandonada, da decrépita glória, da fina sumptuosidade enferrujada pela incúria e displicência reinantes.
Soubesse Sá da Bandeira dos que agora lhe urinam as calçadas e lhe iluminam as falidas fachadas, apregoando bordões tão eloquentes como Kamartelo 2.0, e o homem não daria voltas na tumba, dela sairia com estrondo tal, fazendo estremecer o Cemitério dos Prazeres, abalroando qualquer carro que lhe fizesse frente na A1, inclusive saindo em Condeixa, de forma a evitar cruzar o inenarrável marco comemorativo da A1, e dirigir-se-ia imediatamente àqueles que permitiram que a Sá da Bandeira se tornasse o escombro do que já foi e tocaria de aplicar duas lambadas bem assentes – mas de luva branca, que o homem é do sec. XIX – a quem ousou deixar abandonar a mais imponente e deslumbrante artéria da cidade, que agora somente parece uma rasgada carótida a jorrar sangue incessantemente.
Mas quem foi este senhor?
Antes de mais, foi primeiro barão, primeiro visconde e primeiro marquês de Sá da Bandeira. Cousa pouca, no entanto, sendo o primeiro, torna a coisa mais fácil, pois foi para si criado.
Nascido em Santarém e morrido em Lisboa (1795 – 1876), o nome pelo qual viria a ser conhecido permanentemente – Sá da Bandeira – surge aquando das Guerras Liberais e respetivo cerco do Porto, estando a defender o último reduto na Serra do Pilar, mais precisamente no Alto da Bandeira, e é ferido num braço, tendo este que ser amputado. Desde então ficou conhecido como o maneta, um pouco como esta cidade.
A 4 de Abril de 1833 foi agraciado com o título de Barão de Sá da Bandeira, em memória àquele dia trágico, embora heroico. Um pouco irónico ser o lugar no qual perdes um braço pelo qual vais ser recordado para o resto da eternidade. Um pouco como se Coimbra ficasse recordada para todo o sempre pelas suas ruas em granito.
Teve passagem pela cidade, quando estudar aqui ainda era uma coisa, matriculando-se nos cursos de Matemática e Filosofia, no ano de 1818.
Foi Presidente do Conselho de Ministros, como quem diz Primeiro-Ministro, por cinco vezes, entre 1836 e 1870. O último “primeiro-ministro” formado por cá foi António de Oliveira Salazar. Coimbra, sempre na vanguarda da modernidade.
Sá da Bandeira é reconhecidamente um defensor da igualdade e da liberdade política e como tendo sido a primeira grande figura pública e política em Portugal a defender a abolição da escravatura. O que, aos dias de hoje, faria dele um perigoso radical.
É em sua homenagem que a cidade do Lubango, em Angola, é batizada de Sá da Bandeira, nome que prevaleceu de 1885 a 1974.
Alguns historiadores, nomeadamente Rui Ramos, assumem que muito do nosso mundo atual, quando digo nosso falo em Portugal, é fruto do século XIX, que o nosso imaginário, narrativas, estudos históricos, figuras a que atribuímos importância, a forma como contamos a história moderna e contemporânea é assente ainda em muitos mitos e vestes criadas nos 1800.
Sem desprimor a Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, que foi, como o comprova a sua história, um valoroso homem, mas tê-lo-á sido de forma tão vincada, pelo menos à distância atual, que justifique que a mais nobre, cosmopolita, urbana e parisiense avenida desta cidade, apesar de fustigada com décadas seguidas de maus-tratos, metáfora ignóbil da mesma, carregue o seu nome?
Talvez sejamos mesmo produto do século XIX e isso justifique muito do nosso atraso. Resta ainda saber se todas as ruas, monumentos e edifícios batizados por nomes de liberais e republicanos, resistirão ao ar do tempo. Sá da Bandeira morrerá a 6 de janeiro de 1876, em Lisboa, de causas naturais.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participaram nesta edição os jovens do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Daniela Fonseca, Eden Timóteo, Felipe Freitas, Francisco Pires, Gerson Muondo, Gonçalo Artur, Guilherme Andrade, Inês Neto, Joana Correia, João Tinoco, João Videira, Laura Andrade, Lucas Pereira, Maria Cardantas, Maria Rodrigues, Maria Santos, Matilde Cardantas e Rebeka Paszkiewicz.


















