Olá, meus caríssimos coimbrinhas,

poucas ruas escondem tanta história em tão pouco espaço. Uns míseros 137 metros distam da Antero de Quental à Sá da Bandeira, para formar a Rua Tenente Valadim.

Só um homem de grandes feitos pode ficar para a história conhecido por um único nome, Valadim, Tenente Valadim. Como Marechal Carmona, Platão, Galileu, Napoleão ou Toy.

A rua que agora alberga o mediático hambúrguer do não menos mediático Gastropiço, foi outrora entrada lateral, contígua a essa hamburgueria, do mítico Golden e dos seus elevadores almofadados. Foi ainda ponto de encontro de intermináveis noites estudantis, regadas a traçadinho, no limítrofe Troika, hoje mais bem frequentado e asseado restaurante.

Mas quem foi o desditoso Valadim, assassinado aos 25 anos em terras moçambicanas?

Nascido em Lisboa a 13 de junho de 1865, filho de um oficial da armada e de uma doméstica, de seu nome completo Eduardo António Prieto Valadim, entra cedo para a carreira militar onde é promovido a alferes em 1884, embarcando para Moçambique no ano seguinte.

Há-de regressar a Lisboa com uma doença grave, mas é ainda em convalescença que regressa para Moçambique em 1885, já como Tenente.

É aqui que começa, verdadeiramente, a curiosa e trágica história destes 137 metros de rua.
A missão deste Tenente por terras moçambicanas passava por reforçar a presença portuguesa, dando-lhe um cunho mais oficial e corpóreo, atendendo até a alguma validação dos povos indígenas que habitavam as várias regiões.

Pois, por entre os vários povoados que foi encontrando, ao longo dessa missão, para os lados da região do Niassa vai-se dar com um régulo (pequeno Rei, líder, é o que quer dizer régulo, seus ignorantes) de seu nome Mataca Bonomali, nome de jogador italiano.

Aparentemente bem recebido e depois de cumpridos todos os salamaleques oficiais, ficou acordado o hastear da bandeira portuguesa para o dia seguinte, às sete da manhã – tenho as minhas dúvidas se é prudente amontoar pessoas e sua má-disposição matinal a esta hora. Qualquer café com pouco açúcar poderá espoletar uma reação menos amigável.

No momento em que se hasteava a bandeira, alguns homens que assistiam tentaram impedi-lo. Dá-se um violento confronto de imediato entre contendores dos dois lados, até que Mataca, num golpe único decepa o Tenente Valadim. Não sei se Bonomali, com o seu ludopédico nome, ainda tentou algum malabarismo com a cabeça do infeliz. Morre assim, em janeiro de 1890, Tenente Valadim.

Só meses depois a notícia da tragédia chega a Portugal, laivada de consternação, pela violência da mesma e por haver indícios de promiscuidade e intriga instigada pela coroa britânica, ainda a trote do propalado ultimato britânico.

É então que, numa onda de patriótico provincianismo, que deve ter apanhado as autoridades britânicas de surpresa, quase causando a sua rendição, é propagandeada uma campanha que visa atribuir o nome Tenente Valadim a ruas ao longo do país.

Coimbra não é exceção e figura daquelas que serão, atualmente, 34 em todo o território nacional, tornando-se uma das ruas mais comuns em Portugal.

Esta história recordou-me de uns versos que Jacques Brel canta em Zangra, e que bem a resumem:

Je m’appelle Zangra et je suis lieutenant
Au fort de Belonzio qui domine la plaine
D’où l’ennemi viendra, qui me fera héros

Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.

O Tatonas

Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participaram nesta edição os jovens do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Tiago Carvalho, Salvador Graça, Lourenço Meneses, João Fialho, Guilherme Santos Braz, Gabriel Neves, Evelyn Petrie, Duarte Pardal, Catarina Medeiros, Ana Alves e Alice Gil.

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