Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Há ruas que diminuem de tamanho e outras há que se agigantam com o nome que carregam. Há ainda nomes que só o são por serem ruas e outros que o seriam sempre, de qualquer modo. É de um destes casos que falaremos de seguida, mas antes convém recordar que existe em Coimbra um caso bem peculiar, naquilo que foi, em parte, a Cumeada e formará o Bairro da Cumeada.
Esta área de Santo António dos Olivais tem uma particularidade bem curiosa, as ruas guardam nomes de poetas e/ou escritores: Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Eugénio de Castro, Luís de Camões, Gil Vicente, António Nobre e, de entre esses vultos, resiste estoicamente uma curtíssima travessa de 35m que dá pelo nome de Amélia Janny e é sobre ela que peroraremos hoje.
Nasce nesta desditosa cidade a 25 de fevereiro de 1841, fora do casamento. Acabou por adotar o padrasto como Pai, o médico Raimundo Francisco da Gama, a quem dedicou um poema.
Parece que tinha um extraordinário dom para a poesia, sendo que o seu primeiro poema conhecido data da tenra idade de quatro aninhos apenas e surge assim:
Ó chuva! cahi, cahi!
Cahi-me na minha mão:
Assim pudera a virtude
Cahir-me no coração!

Convenhamos, tamanha complexidade e, certamente, uma inadvertida melancolia e tragédia que creio ser incompreensível a uma menina de quatro anos. A não ser que nascida em Coimbra.
Publicou versos no Liz, publicação leiriense, e, mais tarde, no coimbrão Cysne do Mondego.
Parece que era uma conferencista e, acima de tudo, uma exímia declamadora. Ficaram conhecidos os seus saraus de declamação em sua casa na Couraça de Lisboa, onde ainda hoje é possível encontrar a placa que a recorda.
Foi aclamada por Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, Tomás Ribeiro, João de Deus, que lhe dedicou um poema, por Bordalo Pinheiro e ainda Teixeira de Pascoaes. Nunca tendo editado nenhum livro dos seus poemas em vida, em 2003 a Câmara Municipal de Coimbra editou as obras completas de Amélia Janny, numa coletânea de Manuel Zolino da Silva Figueiredo intitulada Amélia Janny: Miscelânea Poética.
Encontrar uma rua em Coimbra homenageando uma mulher é extremamente difícil e, quando se encontra alguém desta dimensão que, ao que parece, fez furor na sua época e nada desprezíveis seus poemas, encontra-se relegada a uma secundaríssima rua rodeada pelos mais veneráveis poetas que preenchem as mais nobres artérias.
Terá sido o valor desta poetisa maior do que o que a sua dimensão faz transparecer? Poderá ser Amélia Janny uma injustiçada do natural fluir da história? Estará Coimbra a ser injusta com Janny? Joga pedra na Janny…
É uma rua que não cabe nela. Merecedora de outros encómios, de outras celebrações, poderia ser a Florbela Espanca do Mondego, ou esta ser a Amélia Janny de Vila Viçosa. Por mais ruas e avenidas que vibrem este nome, por mais divulgação da obra e do trabalho desta senhora. 35 metros de asfalto soam a insulto para tamanho talento.
Por mais Amélias Jannys e menos Dias da Silva.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.

1 comentário
Muito pertinente!
A Quarentuna de Coimbra, num dos temas em que celebra a cultura da baixa, interpreta justamente um tema cuja letra pertence a Amélia Janny. Uma letra cheia de ritmo, muito bem apanhado pelo autor da música, António Maria Dias da Costa.
Uma personalidade algo disruptiva (como agora parece bem dizer), avançada para o seu tempo e que gozou de mais respeito nessa altura do que nesta que vivemos, o que torna tudo ainda mais estranho.