Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Tive grande relutância em escrever sobre José Maria Correia Cardoso. O objetivo destas crónicas é encarnar, na medida de tornar carne, os nomes das ruas menos óbvios. A dificuldade em encontrar informação acerca deste retirou-me, em parte, a motivação de o fazer. Mas fiz mote da deficiente divulgação da pessoa em causa e decidi torná-la, à evidente incompleta e insatisfatória biografia de Brigadeiro Correia Cardoso, o foco central do texto que se segue.
Brigadeiro Correia Cardoso sempre me inspirou doçura e candura, incentivado pelo belo docinho de origem brasileira e que, espantem-se, teve origem exatamente no apoio e arrecadação de fundos para as Presidenciais brasileiras de 1945 ao Brigadeiro Eduardo Gomes.
Engraçada contradição se atentarmos ao nome Brigadeiro, como Chefe de Brigada e remotamente repartindo a origem etimológica de briga. O doce cândido a partilhar paredes com o agreste beligerante. Poético ser, este Brigadeiro, dois em um.




Correia Cardoso nasceu a 26 de novembro de 1890, tendo falecido a 23 de março de 1963.
Sabe-se que terá estudado Filosofia, foi Professor no Liceu José Falcão e foi ainda, de não somenos importância, Presidente da Câmara. Aparentemente, de 1951 a 1957, portanto dois mandatos, ainda que de nomeação, não deixa de ser coisa pouca.
No entanto, parece que a cidade tratou de votar ao total esquecimento este Brigadeiro, o que não deixa de ser deveras curioso, tendo em conta que vê o seu nome eternizado numa, ainda substancial, rua da cidade.
No Catálogo dos Presidentes da Câmara Municipal de Coimbra, é dos edis com menos caracteres gastos na sua biografia – somente sete linhas (menos inclusive que o Salvador numa sexta à noite no NB), não tendo sequer fotografia correspondente.

A rua em si, alberga o sagrado e o profano, se considerarmos a Igreja de Santo António dos Olivais a olhar de cima a infame Tutoria – Centro Educativo dos Olivais, tantas vezes erradamente apelidada de titoria.
O que dizer de uma rua sombria, maioritariamente feia – têm de concordar – guarnecida pela construção mais vil da segunda metade do século XX? O nome, como disse acima, sempre me inspirou uma certa candura, uma poesia métrica. Brigadeiro Correia Cardoso, apesar de comprido, é um nome que escorre naturalmente pelos lábios e desperta uma agradável fluidez. E por isso sempre quis saber quem era este Brigadeiro.
Agora que o sei, a ilação que daqui retiro é que, por vezes, a memória identitária duma cidade é manipulada. Não deixa de ser menos real, mas, ainda assim, enviesada.
Poderá alguém que, mesmo tendo exercido o mais elevado cargo duma cidade, ou por apenas o ter feito, mesmo sem qualquer marco que o distinga, ter direito a dela fazer parte imortalmente? Tenho as minhas dúvidas. Creio, aliás, que o oposto faria mais sentido. Retirar a quem tão extinguível pegada, como se em areia molhada fosse feita, não prevaleceu
Acredito que há locais, nomes, figuras, personagens, eventos e narrativas que são fruto do seu tempo. Fazem sentido no seu contexto histórico, na sua contemporaneidade. Por isso, mas acima de tudo, apesar disso, não mais acrescentam à localidade que pretendem valorizar.
A Praça 8 de Maio já foi Largo de Sansão, em tempos.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participou nesta edição o jovem tumonauta do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Francisco Martins.




