Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Ruas há que passam despercebidas, são as profundezas do icebergue que, juntas, carregam o peso da cidade.
Outras há que são a fina cobertura, a patine que fica à superfície que, apesar de em menor número, são protuberâncias mais visíveis, rasgam a cidade, tecem longos bordados, espraiam-se eternamente no imaginário citadino.
A Dias da Silva é uma destas. A Avenida Dias da Silva. A Avenida Doutor Dias da Silva. Projetada com 16 metros de largo e cerca de 1,3km, o que faz desta uma das mais compridas ruas de Coimbra, foi deliberada a sua denominação a 9 de setembro de 1910 – quatro dias após o falecimento de quem lhe emprestou o nome. O que poucos sabem é que a proposta anterior era a de renomear a Rua da Sofia com o nome deste homenageado. Em bom tempo repensaram.
Uma avenida de renome que, apesar de maioritariamente residencial – e que residências! – guarda algumas casas míticas na cidade, como o perene Madeira, e permite completar a quase totalidade do ensino escolar de alguém, desde o Jardim de Infância dos SASUC, passando pelo Fraldas e Fraldinhas, avançando até à EB1 dos Olivais e finalizando na Faculdade de Economia, o resto completar-se-ia na rua, nos milhentos e intrincados afluentes de que é servida esta avenida.
Quem foi, então, este insigne que merece uma das mais históricas e nobres artérias da cidade?




Mais uma vez, de tão extensa e relevante a sua obra, é bastante difícil sondar os seus feitos em vida, mas o Daniel nunca desiste.
Manuel Dias da Silva nasce a 1 de agosto de 1856 em Santa Cristina de Longos, concelho de Guimarães, mas parece que, ao seu tempo, seria Braga.
É nesta cidade que toma ordem de presbítero em 1879 e, no mesmo ano, se matricula em Coimbra na Faculdade de Direito, onde se forma com distinção em 1885, recebendo o grau de Doutor no dia 19 de junho de 1887.
Foi provedor da Misericórdia de Coimbra de 1891 a 1892 e Presidente de Câmara em dois triénios, totalizados de 1899 a 1905.
Em toda a literatura que encontrei, servem-se grandes loas ao seu serviço como líder municipal e como notável administrador da misericórdia, além de marco inequívoco no direito, tendo deixado incrível obra jurídica, sem, em boa verdade, se indicarem exemplos práticos, seja naquelas lideranças, seja nesta herança mais académica.
Não deixa de ser curioso que, à luz e perspetiva da distância do tempo passado, todos os Presidentes de Câmara e professores universitários são recordados como deixando obras notabilíssimas, trabalhos excecionais e de serem agraciados dum imaculado nobre espírito que os destaca dos demais. O binómio espaço-temporal é incrível na sua perceção de obra feita.
Portanto, das duas uma, ou nós éramos diligentemente liderados há 100 anos, o que nos catapultou, como bem sabemos, de forma indelével para os píncaros da modernidade, ou agora há toda uma nuvem carregada de um prolífico azar, que insiste em não nos abandonar, e somos sistematicamente governados por gente da mais trivial mediania.
De tudo isto há que parabentear a Câmara à altura em ter revogado a renomeação da Rua da Sofia para Rua Dias da Silva, senão hoje teríamos a mais histórica de todas as ruas da cidade com o nome de um total desconhecido.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
PS: Uma curiosa adenda. Carta de condolências de um ex-aluno seu, Alfredo Pimenta, retirada daqui.
Sobre o seu feitio rude, sob aquela máscara de traços grosseiros e fortes, sob aquela voz monótona e falha de atractivos, abrigava se um coração humano, impressionável, sensibilizável até ao extremo que desejariam e precisariam de possuir muitos dos que têm falas doces e amaneiradas e são tidos o havidos por afectivos.
Como professor, nunca me fez favores, que nem eu seria capaz de lhos pedir, mas tive em Dias da Silva um amigo, como raríssimas vezes poderemos encontrar (como certamente, jamais encontrarei) tão natural e evidente o seu desinteresse, tão clara a sua lealdade.
Conservo religiosamente uns pares de cartas suas.
E os seus conselhos, os juízos que formula, as suas palavras de incitamento e mesmo as leves e bondosas com que julgou digno de corrigir-se o meu feitio — tudo isso eu leio agora com saudade e com amor.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
