Olá, meus caríssimos coimbrinhas,

Quando a Coimbra Coolectiva, pela pessoa da Vilma Reis, me convidou para uma segunda participação nas páginas da revista mais cool da cidade, por momentos hesitei. Somar às horas laborais e aos projetos laterais mais uma fonte de preocupação e responsabilidade não estava nos meus planos. Mas, para alguém sem planos, esse seria um mal menor.

Cedi e sei que me vou arrepender, mas até lá escreverei quinzenalmente acerca das placas toponímicas da cidade. Minto. Escreverei sobre as gentes que dão nome a essas placas. Vou, espero, dar-lhes dimensão, carne, estrutura e, enfim, vida, que foi o que as pôs ali em primeiro lugar.

Todos saberão quem foi Afonso Henriques, Calouste Gulbenkian, Humberto Delgado ou Miguel Torga, mas poucos conhecerão a vivência de Dias da Silva, Nicolau Chanterene, Carolina Michaelis ou Marnoco e Sousa. E é sobre este último que iniciarei esta nova rubrica. Vivi muitos anos à Marnoco e Sousa, uma das ruas mais idílicas da cidade, ladeada por belas vivendas e tendo como ombreira o romântico Penedo da Saudade. De coimbrinha rua não conheço melhor exemplar.

Sempre admirei aquele nome, que, de alguma forma, inspira robustez, integridade, decência e seriedade, um nome destinado a grandes feitos. Marnoco e Sousa. Que também poderia ser uma qualquer empresa Lda. Marnoco & Sousa Lda. – Alumínios e PVC.

José Ferreira Marnoco e Sousa nasce a 29 de Agosto de 1869 em Sousela, não confundir com Souselas – por favor, que falta de chá – e haveria de morrer em Coimbra em 1916, com apenas 46 anos, mas à época estes eram os novos 65 (vide foto do senhor).

E o que fez este de tão proeminente que justifique uma das mais emblemáticas e nobres ruas da cidade que não o viu nascer? O caríssimo Zé Sousa foi Ministro da Marinha e Ultramar, de 26 de junho de 1910 a 5 de outubro de 1910, cerca de três meses; se medirmos esta insignificância em Barbosas de Melo, talvez dê um pouco mais, e diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (1913 – 1916). Foi ainda presidente da Câmara desta douta cidade de 1904 a 1910 – o registo camarário ressalva um interregno em 1908, substituído por um tal João Rodrigues Donato, sem precisar a causa.

Parece que deixou grande legado à época em estudos jurídicos e de Direito e importantes reformas na Universidade, nomeadamente na reorganização de disciplinas e sua modernização, na Biblioteca, onde melhorou condições de trabalho, mandou edificar uma nova sala de leitura e trabalho publicado na modernização científica. Uma seca dum gajo, portanto, com quem não partilharias uma cerveja no Tropical.

Enquanto presidente de câmara, consta nos anais que terão sido anos de fervorosa atividade, com francas melhorias na iluminação da urbe, a conclusão da Avenida Sá da Bandeira, a edificação de parte do Mercado Municipal, as primeiras intervenções no então recente bairro do Penedo da Saudade – o nome daquela rua não é em vão.

Braga da Cruz escreve em 1975: «Marnoco e Souza soçobrou ao peso do trabalho, falecendo em plena pujança da vida (com 46 anos de idade), após uma enfermidade de poucos meses, contraída, manifestamente, na sequência do esforço físico que a si próprio se impôs, durante anos seguidos, numa vida de tarefas contínuas e sem um momento de repouso.»

Um poço de força e resistência este Marnoco e Sousa, que viria a soçobrar ao mesmo. Foi, portanto, alguém com vincada obra na Universidade e na cidade, merecedor de batismo daquela inalienável rua. Aquele empedrado, aquele enquadramento, a natureza orgânica de um lado e a clássica graciosidade do casario do outro fazem jus e justa homenagem ao homem que o proporcionou. Nem todos os ex-presidentes de câmara se poderão orgulhar do mesmo.

Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.

O Tatonas

Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participaram nesta edição os jovens do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Carolina Abrantes, Guy Borin, Gustavo Silva, Guilherme Silva, Henrique Marques, Leonor Pratas, Letícia Sá, Madalena Faria, Matilde Morgado, Miriam Silva, Santiago Leandro, Sofia Ventura e Teresa Reis.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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