Olá, meus caríssimos coimbrinhas,

Quem foi Nicolau Chanterene ou, em grafia francesa, Nicolas Chantereine (ler com lábios bem abertos como quem lê chantilly)?

A rua é contraditória, um pouco como a António José de Almeida, tem início na, agora, depauperada Celas e tem o seu término mui cerca da sempre depauperada Conchada. Rua que rasga, comprida (sensivelmente 700m) e puramente habitacional, com aqueles prédios de acesso através de pequenas pontes, que sempre povoaram o meu pueril imaginário, tentando antever épicas batalhas, qual castelo entrincheirado, por entre aquelas passagens.

Como explanado no primeiro parágrafo, o proeminente que dá nome a esta artéria era francês. Renomado escultor, nascido no último quartel do século XV (1485) e falecido no meado do século XVI (1551), portanto renascentista, que era o que esta cidade necessitava agora, em 2026. Um Renascimento.

A primeira referência a este ilustre artista é na responsabilidade da elaboração da porta axial do Mosteiro de Santa Maria de Belém, que, traduzindo para nós, ignorantes, é a entrada da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos. Para quê complicar?

Em Coimbra, ao longo da primeira metade do séc. XVI, irá completar várias obras, no Mosteiro de Celas, na Sé Velha e na Universidade. Mas serão os trabalhos nos Túmulos Reais de D. Afonso Henriques e D. Sancho I, no Mosteiro de Santa Cruz, que lhe darão o reconhecimento mais mediático na contemporaneidade. Obras que todos nós devíamos visitar desde miúdos.

Um Rei não escolhe onde nasce, mas escolhe onde ser sepultado. Um berço será sempre obra do acaso, um sepulcro será sempre uma preferência e uma decisão. É ainda em Santa Cruz que terá das obras mais brilhantes, conhecidas ao dia de hoje: o púlpito, de estilo manuelino, com motivos religiosos e outros puramente artísticos.

Consta que terá andado por terras de Tentúgal e Ançã – este homem sabia onde comer. Com vasta e valorosa obra deixada por Coimbra e arredores, mas ainda por Lisboa, Sintra, Évora, Óbidos, Braga e afins, faz deste um dos mais proeminentes cidadãos que merece, sem qualquer ponta de dúvida, uma rua em seu nome.

Digo ainda, creio que ainda mereceria algo mais consentâneo com a sua obra. Mas enquanto houver Castros Matoso, Oliveiras Matos e Dias da Silva a pulularem por entre o macadame, o espaço para os verdadeiros génios ficará sempre mais apertado.

Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.

O Tatonas

Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participou nesta edição o jovem tumonauta do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Teresa Silva, Maria Sá, Constança Alves e Maria Vaz.

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