Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Como toda a Coimbra, esta rua também não escapou ao destino reformador da cidade, estando, no momento que decorre, desalmadamente esburacada.
Apesar de ligeiramente secundária, esta é daquelas míticas ruas de Celas, bonita na sua concepção e agradável à vista do casario que a ladeia.
Serviu, não raras vezes, de ponto de passagem para o José Falcão, através da maternidade Bissaya Barreto, um atalho, agora à distância do tempo, tão estranho quanto ineficiente. Mas dava gozo descer aquele pedaço desta Rua Augusta e atravessar a maternidade rumo às escadas do Liceu.
Quando lemos e pensamos em Augusta, a inclinação condicionada é vislumbrarmos algo majestoso, grandioso e imponente. Mas a origem deste nome, em Coimbra, nesta rua, tem uma origem bem mais poética, sentimental, visceral até, direi, do que o prosaico fausto da ostentação.



A Rua Augusta liga a Cruz de Celas (onde é que andará?) à Antero de Quental e teve projeto aprovado a 15 de janeiro de 1925. Mas Coimbra não seria Coimbra sem uma boa dose de atrasos e polémicas.
O proprietário, Manuel Lopes de Quadros (onde é que já ouvimos este apelido?..), proprietário da Quinta da Rainha, terreno onde assentaria a futura Rua Augusta, predispôs-se a terraplanar e a ceder aquela língua de terra para esse efeito.
No entanto, em 1928, as obras ainda não haviam sido concluídas. A Câmara, intimou então judicialmente o proprietário a acelerar o processo. Sempre do lado dos cidadãos, a autoridade camarária.
Dou-me conta agora que ainda não vos elucidei acerca do nome Augusta. Manuel Lopes de Quadros impôs uma única condição para doar o terreno e acomodá-lo para a nova rua. Esta teria de ter o nome de sua mãe: Augusta.


Se não é esta das maiores provas de amor, dedicação e inspiração? A afetuosa deferência à mãe, neste ato último de imperecível homenagem, para sempre tatuada no coração de Coimbra, torna esta, muito provavelmente, a mais bela das ruas desta cidade.
Inefável beleza que a Câmara não descansou enquanto, a trote do desaguisado acima explicado, não alterasse o nome desta artéria para Rua Oliveira Salazar que, felizmente, foi deliberado somente durante meio ano, de junho a dezembro de 1932.
Espero que de ora em diante, sempre que passarem naquela rua, se recordem que existe mais amor naqueles 260 metros do que alguma vez houve numa semana em Woodstock.
Finalmente uma rua na cidade merecedora do seu nome.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participaram nesta edição os jovens do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Joaquim Portelinha, Salvador Batista, João Ponte, Inês Martins, Daniel Silva, Constança Ferreira e André Gil.

