Móveis empilhados, enciclopédias antigas, eletrodomésticos por testar, cabos sem dono, roupa usada, antiguidades curiosas, brinquedos, louça – muita louça – e, ali no meio, uma sauna finlandesa que ninguém conseguiu ainda pôr a funcionar. Todos estes objetos têm história. Alguns até contam várias. Muitos pertenceram a alguém que, durante anos, negou desfazer-se deles. Grande parte já nem funciona. A maioria só precisa de tempo ou de uma boa limpeza. Hoje, todos aguardam, ali, pacientemente, naquele espaço escondido em Celas, por uma segunda vida. Uma vida que Rita lhes promete dar, a partir desta garagem – que entretanto se transformou em duas – e que faz ofício de escritório improvisado para o Destralhe. O projeto nasceu há pouco menos de um ano em Coimbra e conta hoje entre os dezasseis incubados no Fator C’Idade.

À procura de uma missão

É curioso, como a vida dá voltas. Há «coisa de dois anos», Rita sentia-se perdida. Durante muito tempo, andou à procura. Sem saber do quê, nem onde procurar – apenas convicta de que nada do que fazia lhe era definitivo, tampouco suficiente.

Formada em Relações Humanas e Comunicação Empresarial, saltou de emprego em emprego, em busca de um caminho que a preenchesse, de uma vez por todas, profissionalmente. Experimentou a receção de um hotel; foi hospedeira de bordo; viveu em Marrocos; vestiu a farda de pasteleira; aventurou-se no ramo imobiliário; e passou seis anos na Suécia, antes de regressar – uma vez mais, de mãos a abanar – para Portugal.

«Passei a vida a fazer coisas que não têm nada a ver umas com as outras e muito menos com a minha área de estudos», conta. E Rita não se conseguiu identificar com nenhuma. Só mais tarde viria a perceber que, afinal, existia, sim – desde sempre, dentro dela – uma vocação que, na verdade, só precisava de receber pernas para andar.

O “bichinho” que germinava

Adolescente, Rita já escrevia sobre o afogo que sentia perante a quantidade de objetos que detinha em casa. «Nunca fui acumuladora», sublinha. «Mas era muito colecionadora e, a certo ponto, isso começou-me a causar muita angústia», recorda. «Afligia-me ter a casa cheia de tralha.» Na Suécia, descobriu a cultura da segunda-mão e a venda de garagem. «Os suecos são muito mais desapegados das coisas», conta. «Organizam espécies de flea market pelo menos uma vez por época: tiram as coisas que já não usam de casa, até mesmo as que ainda funcionam e cabem; abrem as portas à comunidade; e organizam eventos de venda, a que chamam Lópis». E isso, partilha: «Fascinava-me profundamente. Cheguei até a fazer a minha própria venda e desfiz-me, num dia, de 80% das coisas – móveis, roupa, tudo».

Mais tarde, já em Portugal, a experiência enquanto agente imobiliária trouxe-lhe outro abre-olhos. «Percebi que, para vender casas, já existem montes de intermediários, mas para lidar com aquilo que fica dentro delas existem poucas respostas estruturadas. E, muitas vezes, a desocupação precisa de ser feita em dias».

Com esse «bichinho» já a germinar há muito, Rita foi, há cerca de dois anos, chamada para ajudar o pai numa troca de casas. Foi quando descobriu a complexidade – física, logística e emocional – que envolve esvaziar um espaço cheio de anos de vida, e se apaixonou pelo processo. «Foi aí que percebi realmente que era disso que gostava – não necessariamente da mudança, mas do destralhe», diz.

Um salto no escuro

Então, recorda: «Despedi-me, sem plano fixo nem salvaguarda, mas com a certeza de que aquilo que me preencheria ainda precisava de ser criado». E explica: «Estava convencida de que, se as pessoas para quem eu tinha andado a trabalhar tinham conseguido criar um negócio, eu também era capaz de ser dona de uma coisa bem-criada, com pés e cabeça». Assim nasceu a Lópis – hoje Destralhe – para ajudar quem precisa de libertar a casa da tralha que a atrapalha.

«Nunca tinha passado pelo processo de criar uma empresa», relembra. A ajuda do Fator C’Idade – e da sua importante rede de apoio, competências, contactos, experiência e disponibilidade – revelou-se, por isso, decisiva para acelerar a passagem do papel para o terreno. «Se eu já tinha garra, aquela malta agarrou nela, multiplicou-a e atirou-ma de volta», garante.

Desde então, Rita e o companheiro – que deixou a cozinha profissional para se juntar ao projeto – intervêm juntos em situações de acumulação, mudanças ou heranças, desocupando casas de décadas de vida e encaminhando os bens para o «destino certo». Doam o que é essencial a quem mais precisa; levam o lixo para reciclagem; e só os bens colecionáveis ou restauráveis seguem para venda, a preços simbólicos, depois de cuidadosamente arranjados. «É muito trabalho para dois frangalhotes», brincam. Até porque esse trabalho raramente se resume a chegar, carregar e levar. Há pessoas que têm vergonha de mostrar a sua acumulação. «E nós também intervimos com esse bloqueio», dizem. «Ficamos ali, com a pessoa, do início ao fim do processo, a perceber que ligação tem às coisas e a desconstruí-la para que se consiga desfazer do que é descartável».

Às vezes, defende Rita: «É mais respeitável despedir-se da coisa e deixá-la ir do que mantê-la escondida no sótão ou no fundo do armário durante 25 anos». E explica: «Ali, ela já nos chega a fazer mal, porque sabemos que, tal como essa, estão ali outras dezenas de milhares de objetos a ocupar-nos o cérebro». Então, a maior vitória, assegura, não é a transformação do espaço em si, mas o impacto da sua passagem em quem o habita. «Só quando percebemos que a pessoa não volta a guardar coisas é que sentimos que fizemos bem o nosso trabalho.»

Hoje, a equipa trabalha a tempo inteiro neste projeto que cresce ao ritmo da procura. «Notámos logo que havia muito mercado porque, sem fazer grande publicidade – ou seja, só através do boca a boca – conseguimos ter muito trabalho desde o início.» Foram até forçados a fazer uma pausa de um mês para reorganizar o próprio armazém, que carecia de espaço. «Foi um bocado o feitiço a virar-se contra o feiticeiro», brincam. Mas Rita não se deixou desmotivar: alugou mais uma garagem; destralhou a que já tinha; e retoma hoje com mais ambição e energia do que nunca.

Um plano para o futuro, finalmente

Com a graduação do Fator C’Idade à porta, o foco está agora em consolidar o projeto com cuidado: conhecer melhor o mercado, afinar estratégias, fortalecer parcerias e, sobretudo, encontrar um espaço – loja ou armazém – que seja grande o suficiente e lhes permita crescer sem desperdiçar tempo, combustível e energia física. Antes de abrir empresa formalmente, a equipa quer garantir que o serviço é eficiente para quem o presta, para quem o procura e para o ambiente. Acima de tudo, espera ter um impacto no fim da linha: combater o consumismo, baixar os níveis de produção de «tralha« e contribuir para uma «economia circular acessível a todos».

Essa ambição, Rita faz questão de sublinhar que a deve ao apoio físico e emocional da família e dos amigos – com especial destaque para Noah, o filho de 7 anos que acreditou na mãe desde o começo e pôs a mão na massa sempre que pôde. «O Noah desenhou-nos logotipos e bandeiras; ajudou-me a preparar o pitch do Demo Day no Fator C’Idade e ainda me convenceu – eu que sou fã do antigo acordo ortográfico – a usar o novo no PowerPoint», sorri. «Foi uma verdadeira ajuda».

Às vezes, são essas pequenas mãos que empurram com mais força as decisões mais ambiciosas. Talvez por isso Rita se sinta agora finalmente capaz de afirmar: «Hoje, acordo diariamente realizada por saber que estou a fazer o que quero. Encontrei uma necessidade no mercado e estou feliz por estar no terreno.»

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

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Lisboa viu-me nascer; Bruxelas viu-me crescer; Coimbra viu-me aprender – e vê-me hoje evoluir. Em cada um desses lugares a que, juntos, chamo casa, conheci ritmos, culturas e rostos muito diferentes. Nos dois primeiros, descobri o que me move e apaixona: investigar a vida, conversar com pessoas e encontrar, em cada uma delas, uma história por contar. Já o terceiro deu-me as ferramentas para o fazer. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, estudei Jornalismo; no Diário de Coimbra, pu-lo em prática pela primeira vez. Hoje, com a Coimbra Coolectiva, sigo à procura do que a cidade sussurra entre linhas: as histórias esquecidas, os desafios abafados, as comunidades marginalizadas e os gestos invisíveis. Em cada um deles, vejo fragmentos da Coimbra que me inspira a continuar a ouvir, investigar e narrar. De resto, gosto de dizer que, além de apaixonada por animais, sou amiga da minha família e família dos meus amigos. Mas é só um resumo – o resto é história. Uma história que fico de contar para a próxima.

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