Quando Pedro Valentim, 49 anos, se candidatou à segunda edição do Fator C’Idade, trazia consigo o sonho de abrir uma livraria infantojuvenil. Meses depois, o projeto que apresenta à Coimbra Coolectiva é já um tanto diferente. “Entrei com um sítio onde queria apresentar e vender histórias. Hoje, acabo com um projeto em que sou eu que as vou escrever”, brinca. A mudança até pode parecer brusca. Na verdade, é apenas o capítulo mais recente de uma procura que acompanha Pedro há décadas. Uma procura feita de recomeços sucessivos, de caminhos que se cruzaram e interromperam – e de uma inquietação que foi insistindo em regressar-lhe ao longo da vida: a de que ainda não tinha chegado à página em que tudo, finalmente, faria sentido.
Era uma vez um sonho
Pedro sempre gostou de desenhar. “Gostava de livros ilustrados, de bandas desenhadas”, e fascinava-se com tudo o que, de alguma forma, cruzasse palavra com imagem. Então, quando chegou a altura de escolher um caminho, ingressou em Estudos Artísticos. Fez licenciatura e mestrado na área, e especializou-se em cinema, convicto de que encontraria nele mais uma forma de se manter próximo do que sempre o entusiasmara: as histórias. Contudo, explica: “O curso de estudos artísticos, se te dá competências para alguma coisa, é mais para programação cultural. Na área dos filmes é tudo muito teórico”. Por isso, terminados os estudos, acabou por trabalhar em programação cultural, no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Não era o guião com que sonhara, mas permitia-lhe continuar ligado ao universo em que se formara. “Pelo menos, tive a sorte de conseguir trabalhar em algo minimamente relacionado com a área durante alguns anos”, diz. “Porque tenho vários colegas que nunca conseguiram sequer fazer isso”.
A experiência, contudo, não escapou a uma realidade que muitos conhecem. É, pois, que, para quem trabalha nas artes ou nas humanidades, a precariedade tende a ser regra e não exceção. Terminado o ciclo, viu-se então forçado a tomar uma decisão. E conta: “contrariamente ao que seria de esperar, em vez de fugir das humanidades, acabei por mergulhar ainda mais nelas”. Em 2018, regressou à sala de aula e iniciou um doutoramento em Materialidades da Literatura. Mais do que uma simples progressão académica, via ali mais uma tentativa de aproximar a vida profissional daquilo que verdadeiramente o preencheria. O plano, na verdade, era simples: concluir a investigação, entregar a dissertação e tentar carreira na área. Mas, pelo meio, meteu-se uma pandemia.
Página em branco
Com dois filhos pequenos em casa, os confinamentos intermináveis e as sucessivas interrupções da vida familiar, Pedro acabou por ver a bolsa terminar antes de conseguir concluir a tese. Obrigado a procurar uma alternativa profissional para se sustentar, começou a trabalhar para uma editora científica internacional, onde acompanhava processos editoriais na área da medicina de reabilitação. Mas o trabalho era totalmente remoto e, se a pandemia já o tinha obrigado a passar meses dentro de casa, a nova função acabaria por prolongar essa realidade por mais dois anos. Pouco depois, uma reestruturação interna da companhia conduziu ao despedimento coletivo de grande dos trabalhadores do sul da Europa. E Pedro foi um deles. A partir daí, seguiram-se dois anos de procura de emprego. Dois anos de candidaturas enviadas para dentro e fora da sua área de formação – e, sobretudo, de uma reflexão cada vez mais profunda sobre aquilo que realmente gostaria de ser e fazer. No mesmo período, separou-se da mãe dos seus dois filhos. E, “nessa altura”, recorda, “houve claramente uma vontade de começar outra vez… uma reconsideração profunda de tudo o que estava a acontecer e já tinha acontecido”. Foi precisamente nesse momento que encontrou o Fator C’Idade.
Apagar e reescrever
A ideia com que entrou no programa não era nova. Na verdade, remontava ao nascimento da filha mais velha, nove anos antes. “A paternidade transforma mesmo”, começa. “Queria que a minha filha conhecesse um pai mais feliz com a profissão que tem”. Então começou a questionar mais seriamente o seu rumo profissional. “Porque, querendo-o ou não”, nota, “o nosso emprego ocupa um lugar central no nosso quotidiano. E se não fizermos aquilo de que realmente gostamos, acabamos inevitavelmente por não nos tornarmos exatamente na pessoa que gostaríamos de ser”.
Na altura, a resposta pareceu-lhe estar na abertura de uma livraria especializada em literatura infantojuvenil. Era uma ideia suficientemente criativa para o entusiasmar e suficientemente realista para lhe permitir viver dela. Mas o processo de capacitação acabou por desafiar praticamente todas as certezas com que entrou. Primeiro desapareceram as paredes da livraria. Depois, a ideia transformou-se numa rede de workshops dedicada à narração de histórias. Até que um comentário inocente de um colega lhe abriu uma possibilidade que nunca lhe ocorrera. “Numa das sessões de brainstorming do Fator C’Idade, o Carlos, que trabalha em marketing, disse-me que as empresas precisavam de aprender a contar melhor a sua própria história”, sorri. “E aí, fez-se luz… Então e se alguém a contasse por elas?”, pensou. Nesse dia, o projeto mudou completamente de direção. Assim nascia o Dom Alado.
Antes que o tempo as apague
Hoje, Pedro imagina um serviço dedicado à recolha e escrita de histórias de vida. Através de entrevistas, conversas e testemunhos, propõe-se ouvir, organizar e transformar memórias dispersas em narrativas claras e cuidadas, capazes de fixar no papel aquilo que, tantas vezes, sobrevive apenas na lembrança de quem o viveu.


O ponto de partida pode ser uma empresa que deseje preservar a sua origem, os desafios que enfrentou ou os momentos que lhe mudaram o rumo. Mas pode nascer também no seio de uma família: com um avô cujas histórias ninguém quer deixar perder; uma mãe que guarda uma vida inteira de episódios por contar; ou um filho que queira oferecer ao pai um retrato escrito do seu percurso.
Por detrás da missão, está a convicção de que há histórias que merecem ser preservadas. Que não se podem esgotar na memória de quem as viveu, tampouco depender da sorte de ainda haver quem as saiba contar. “Eu sei mais ou menos a história dos meus avós”, explica. “Mas, quando chego aos meus bisavós, as coisas começam a ficar muito pouco nítidas.” Por isso, reflete: “As histórias são uma das formas mais antigas de cuidarmos uns dos outros. São testemunhos que vêm de algum lado e que, de outra forma, não chegariam até nós.”
Para já, o projeto continua numa fase muito inicial. Os primeiros testes estão ainda por realizar e os primeiros clientes continuam por encontrar. Mas, independentemente do que estiver por vir, Pedro sente que a experiência já lhe devolveu o essencial: a esperança. “Penso muitas vezes no momento em que me candidatei ao Fator C’Idade”, confessa. “O facto de nos devolver esperança… sobretudo numa coisa que gostamos de fazer, é tremendo. É mesmo um programa que, acima de tudo, nos dá uma oportunidade de sermos nós… De construirmos aquilo que sonhamos fazer e que de outra forma não estamos a conseguir, não é?”. Depois de anos passados entre o trabalho remoto, a tese e os confinamentos, voltar a integrar uma turma e conhecer pessoas novas revelou-se também para ele tão importante quanto o projeto em si. “Mas o mais importante”, diz: “é mesmo que, se não tivesse entrado no programa, teria mantido a minha ideia da livraria e não tenho dúvidas de que me teria deparado com muito mais dificuldades – além de, como sempre, sem grandes certezas de que seria aquela a chave para a minha felicidade”.
A volta ao círculo
Durante anos, Pedro imaginou-se. Imaginou-se desenhador de banda desenhada, cineasta, investigador, livreiro. Mas a cada página que escrevia, a história parecia teimar em mudar-lhe o enredo. Então admite: “Tive de aprender a fazer as pazes com os sonhos frustrados que fui tendo na minha vida”. Hoje, porém, olha para trás e consegue finalmente ligar os pontos. “Aquilo que todas essas coisas tinham em comum… o coração de tudo o que fui fazendo e querendo fazer… era a escrita.” Agora, o objetivo é apenas um: conseguir fazer da paixão sustento. “Acho que é isso que todos queremos”, diz. “Conseguir viver daquilo de que gostamos”, sorri.
“Acho cómico… Em fevereiro, apresentei-me com um sítio onde queria apresentar e vender histórias. Hoje, acabo com um projeto em que sou eu que as vou escrever. De certa forma, acabei por regressar ao início… por dar a volta ao círculo”, conclui.
O Dom Alado continua a dar os primeiros passos e o futuro permanece, naturalmente, incerto. Mas, hoje, Pedro sente que encontrou a página que, durante anos, tanto procurou. Aquela em que tudo começa, finalmente, a fazer sentido.
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.
