Um ano depois da primeira edição, o Fator C’Idade criou um daqueles momentos em que a teoria do «empreendedorismo de impacto» ganha carne, rosto e voz. No sábado, 7 de março, na Fundação Bissaya Barreto, três participantes regressaram ao palco não para falar de planos, mas para contar o que mudou nas suas vidas desde que saíram da incubadora e começaram, de facto, a fazer.

Joana Pires Araujo, da Coimbra Coolectiva, conduziu a conversa como quem abre um álbum de família recente: reconheciam?se ali histórias já contadas em reportagem, mas agora partilhadas em primeira pessoa, diante de quem está a começar o mesmo caminho. Ana Rita Mourão – Destralhe Coimbra, Abílio Milheiro – Centro de Convívio 50+ e Luís Silva – Ninho de Aventuras, falaram sem filtros sobre sonhos antigos, dúvidas recentes e as voltas inesperadas que os seus projetos deram ao longo do último ano.

Logo à partida, o tom ficou claro: mais do que um painel inspiracional, era uma passagem de bastão. Quem se sentava nas cadeiras da plateia, a iniciar o programa de Aceleração, ouvia quem esteve naquele lugar exatamente um ano antes e hoje já lida com clientes, licenças, arrendamentos e burocracias — e com a certeza de que a ideia não ficou só no papel.

Ana Rita e as «dores de crescimento»

Ana Rita Mourão chegou vestida com uma t?shirt com a marca do Destralhe Coimbra em destaque, como se tivesse trazido o projeto ao peito, literalmente. O gesto, aparentemente simples, tinha muito simbolismo: um ano antes, a ideia de criar um serviço que vai a casa das pessoas recolher aquilo que já não precisam — móveis, eletrodomésticos, objetos que deixaram de caber na rotina ou no espaço — ainda estava a ser afinada nas sessões do Fator C’Idade; agora, a marca ocupa lugar próprio no corpo e na cidade.

Ao contar o percurso, Ana Rita confessou que o que mais a surpreendeu não foi a procura: «A ideia era muito boa, e continua a ser», disse, meio a rir. O inesperado foi perceber que, ao destralhar casas, passou a acumular outra espécie de problema: falta de espaço para armazenar tudo o que ainda pode ter uma segunda vida. Falou de armazéns, garagens cheias, eletrodomésticos em bom estado e de uma lista crescente de pessoas que precisam precisamente daquilo que outras estavam prestes a mandar para o lixo. «Estou a sofrer de dores de crescimento», resumiu, com a naturalidade de quem sabe que esta dor é sinal de vida a expandir?se.

O momento mais marcante deu?se precisamente aí. Enquanto Ana Rita expunha o dilema — não conseguir encontrar um espaço maior, apesar de ter cada vez mais trabalho desde o fim da incubação — Abílio, colega da mesma edição, interrompeu, em palco, para dizer que talvez tivesse uma solução: «Eu tenho um espaço, acho que posso ajudar.» Não foi apenas uma oferta logística. Foi o exemplo ao vivo de como as redes criadas em programas como o Fator C’Idade podem, literalmente, abrir portas e resolver problemas concretos, no instante em que são partilhados.

Abílio e a comunidade que ainda está por abrir

Quando Abílio falou do Centro de Convívio 50+, deixou claro que o projeto nasceu de uma ideia forte de comunidade, numa instituição de solidariedade que há anos trabalha com diferentes gerações e que, aos poucos, se foi aproximando das necessidades da população mais velha. A ambição era criar um espaço onde pessoas idosas pudessem ir de acordo com as suas vontades, encontrar atividades, manter relações, continuar a aprender — um lugar que prolonga a formação da vida, como ele próprio descreveu.

Só que, mesmo com a ideia amadurecida, o espaço físico ainda não abriu. Abílio falou sem rodeios das dificuldades: a dependência de autorizações, as exigências da Segurança Social, as rendas elevadas, a necessidade de reforçar receitas porque os centros de convívio deixaram há muito de caber nos programas de financiamento habituais. No meio da enumeração de obstáculos, ficava claro o que o programa lhe deu: ferramentas para estruturar o projeto, uma rede de parceiros e uma equipa de apoio que o ajuda a não desistir.

Foi também Abílio quem puxou o fio da perseverança. Aos novos participantes, deixou um conselho direto: aproveitar ao máximo a «inteligência» que têm à disposição — a dos mentores, das equipas técnicas, dos colegas — e trabalhar o projeto com seriedade, sabendo que haverá fases em que tudo parece travado. Se há algo que o último ano lhe ensinou, disse, é que a resiliência não é um slogan: é a capacidade de continuar a ajustar, procurar soluções e usar cada contacto informal para dar mais um passo. O comentário em palco a propósito do armazém para o Destralhe Coimbra foi a prova prática disso.?

Luís e o Ninho de Aventuras que ainda está a nascer

Luís Silva apresentou?se com um sorriso largo e uma frase de quem se recusa a esconder a idade: «Tenho 60 anos, fresquinhos.» A ideia que trouxe ao Fator C’Idade andava a ser «examinada» há mais de 15 anos e ganhou rumo no programa: um Ninho de Aventuras, um parque de desafios ao ar livre, no meio de árvores, carvalhos e medronheiros, pensado para crianças entre os 6 e os 12 anos e, mais tarde, para famílias e equipas de empresas.

Ao falar, Luís saltou entre memórias de infância e as muitas formações que fez ao longo da vida. Tudo converge na mesma convicção: as crianças precisam de brincar livremente na natureza, subir às árvores, sujar as mãos, arriscar, aprender com o corpo inteiro. Citou estudos, evocou o trabalho de quem há décadas defende esse tipo de brincadeira e usou os próprios filhos como exemplo de «cobaias felizes» naquele terreno que hoje quer abrir à comunidade.

Não tem medo, garantiu. Tem consciência de que o caminho é longo: está a atualizar áreas no papel, a tratar de licenciamentos, a lidar com prazos pouco compatíveis com o entusiasmo de quem quer ver o projeto de pé. A principal aprendizagem que retirou do programa? Resiliência, outra vez. E a noção de que ser empreendedor não é apenas ter uma boa ideia, mas estar disposto a passar muitas noites a pensar nela, a ajustar planos e, se for preciso, ir «dormir à porta das entidades» para destravar processos.?

Ferramentas, confiança e redes que ficam

Na ronda final, Joana pediu que cada um deixasse uma recomendação a quem está a começar agora. Ana Rita falou das ferramentas: os exercícios, os materiais, as sessões que a obrigaram a olhar de frente para as suas motivações, a perceber o que faz melhor e onde precisa de ajuda. O que mais levou do Fator C’Idade foi essa combinação de autoconhecimento com método — e a sensação de estar num espaço seguro, onde se pode testar uma ideia antes de a apresentar ao mundo.

Abílio insistiu na qualidade da formação e no facto de ser gratuita, algo que, admitiu, nem sempre aconteceu na sua vida. Lembrou que, num contexto em que toda a gente fala de inteligência artificial, é fácil esquecer a importância de ter, ali à frente, uma equipa real, disponível para ouvir dúvidas, fazer perguntas difíceis e ajudar a refinar soluções. E reforçou: muito do que acontece num programa como este nasce fora das sessões formais, nos corredores, nas pausas para café, nos encontros improváveis que ligam uma necessidade concreta — como um armazém — a alguém que pode ter a resposta.

Luís, fiel ao estilo, voltou à palavra que o acompanha: resiliência. Disse aos novos participantes que este caminho implica desconforto, ajustes, alguma insónia e muita persistência. Mas também lhes deixou uma imagem simples: tal como as crianças que sobem a uma árvore e só ganham confiança depois de arriscar o primeiro ramo, também os projetos precisam desse momento de «subida» — um passo que ninguém pode dar por quem está agora a começar.

Foi isso que tornou esta mesa tão especial: num sábado dedicado à aceleração de ideias, houve um tempo em que o mais importante não foram os pitchs nem os planos de negócio, mas a honestidade de três pessoas que já viveram o processo e se dispuseram a contar o que acontece depois. Quem se sentou a ouvir saiu não só com exemplos concretos do impacto do Fator C’Idade, mas com a certeza de que, como se costuma dizer, «eu sozinho ando bem, mas contigo ando melhor» — numa rede onde as ideias crescem juntas.

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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