No burburinho da manhã, as pessoas que, no sábado, 7 de março, se juntaram na Fundação Bissaya Barreto não conseguiram esconder o seu entusiasmo. Ao leve som da voz de Elis Regina como pano de fundo, os participantes da nova edição do Fator C’Idade falavam uns com os outros, preparando-se para aceitar um novo desafio, que ajudaria a trazer corpo às suas ideias. No meio da diferença de idades, motivações e projetos, uma coisa os unia: obter o conhecimento e as ferramentas para se tornarem os empreendedores do amanhã.
O evento de Aceleração, que se propôs a reunir e capacitar empreendedores séniores ou quem tenha ideias para implementar na comunidade sénior, começou pelas 10h30. Joana Pires Araújo, da Coimbra Coolectiva e principal anfitriã do evento, tomou a palavra e fez uma apresentação das atividades que marcariam o dia, acompanhada de Teresa Monteiro, da Fundação Bissaya Barreto, e de José Ricardo Aguilar, representante do Instituto Pedro Nunes.
O começo de uma viagem pelo mundo do empreendedorismo sénior
A programação para o dia contou com várias atividades e conversas direcionadas para a construção de um projeto de empreendedorismo. O primeiro momento foi marcado por uma tentativa de “quebrar o gelo” entre os participantes. Assim, a primeira dinâmica, denominada de speed-meeting, focou-se em pequenas conversas rotativas de quatro minutos, nas quais os participantes se apresentaram uns aos outros.
Esta atividade durou cerca de 15 minutos e tinha como objetivo que as pessoas integrantes se conhecessem. O ambiente quis-se, acima de tudo, descontraído e de confiança, onde cada participante pudesse falar de si e das suas motivações, porque “é isso que aproxima as pessoas”, referiu Joana Pires Araújo.
De seguida, o auditório recebeu três antigos participantes da edição anterior. Ana Rita Mourão, Abílio Milheiro e Luís Silva puderam partilhar com os novos empreendedores do Fator C’Idade os desafios e vantagens de participar no programa de capacitação. Os três, apesar das diferenças de percurso, deram um conselho semelhante: o de «aproveitar o tempo, as ferramentas, assim como o conhecimento» que a iniciativa deixa à disposição de todos os que desejam desenvolver a sua ideia.
Atividades de capacitação do Fator C’Idade
De seguida, deu-se início às dinâmicas preparadas para capacitar os futuros empreendedores. A primeira atividade foi apresentada por Carla Duarte, uma das gestoras de inovação do Instituto Pedro Nunes, numa pequena palestra onde foram abordados alguns desafios sobre o envelhecimento em Portugal, assim como possíveis soluções para responder a eles.
No seguimento desta conversa, os participantes foram desafiados a construir uma proposta de valor para as suas ideias. O objetivo desta atividade seria, dentro do contexto do Fator C’Idade, a identificação de um problema, uma solução e um público-alvo para a sua implementação.
Os participantes rapidamente aderiram à dinâmica proposta. O silêncio que se fez presente durante a apresentação foi substituído pela efusividade da troca de impressões entre alguns dos participantes e os vários mentores, enquanto alguns preferiram primeiro trabalhar sozinhos.
A atividade chegou gradualmente ao fim, à medida que se aproximava a hora do almoço. Porém, o momento de pausa não significou uma suspensão do diálogo entre as várias pessoas que se dirigiram até a Fundação Bissaya Barreto naquele dia, que se prolongou até ao recomeço das atividades da parte da tarde.
Apesar da moleza da hora do almoço ainda se fazer sentir, a próxima tarefa não tardou a chegar para os presentes. Após uma apresentação sobre modelos de negócio, por Alexandre Almeida, gestor no Instituto Pedro Nunes, os participantes distribuíram-se de novo pelo auditório.
Com a proximidade de quem partilhou uma manhã de criatividade e conhecimento, os grupos dedicaram-se à construção de um modelo de negócio. O propósito desta atividade era que cada futuro empreendedor conseguisse responder às questões relacionadas com os recursos, as fontes de financiamento, parcerias e possíveis atividades para implementação das suas ideias.
No fim desta atividade, Isabel Gomes do Instituto Pedro Nunes, deu uma pequena palestra sobre o seu envolvimento no empreendedorismo. Este envolvimento culminou com a sua participação na primeira incubadora de empreendedorismo sénior e de impacto da cidade de Coimbra.
A palestrante levantou várias reflexões face ao acentuado envelhecimento de Portugal e sublinhou a necessidade das sociedades saberem reagir a estes desafios, no contexto da democracia portuguesa. Deixou uma última recomendação aos participantes daquele dia, que estava a chegar ao fim: que os vários empreendedores «libertassem a sua magia».
O momento do pitch

Carla Duarte voltou a pegar no microfone e a subir ao palco do auditório para apresentar a última atividade do dia: a construção de um pitch, uma apresentação curta, com cerca de um minuto. Esta apresentação, referiu Carla Duarte, tem como objetivo falar de forma breve sobre o problema identificado, a solução proposta e o que é preciso para a implementar.
Após a apresentação, os participantes tiveram a oportunidade de construir cada um o seu pitch. A concentração para esta dinâmica acentuou-se, com cada concorrente a trabalhar sob a sua apresentação, ocasionalmente trocando impressões com quem se encontrava ao lado. No fim, o momento de apresentar os os comentários dos avaliadores chegou.
Foram apresentados ao todo 16 pitches, alguns individuais e outros em conjunto. Cada apresentação foi comentada por um painel de avaliadores, composto por Brígida Mateus, em representação da Câmara Municipal de Coimbra, Fernando Queirós da Black Monster Media e Luísa Bernardes, em nome do Portugal Inovação Social.
Testemunhos empreendedores
Pedro Valentim tem 48 anos e achava que a ideia que tinha era «impraticável». O Fator C’Idade cativou-o pelo programa que apresentava para o seu dia de Aceleração. Inscreveu-se no evento «sem expectativas» e depressa se apercebeu que se encontrava no sítio certo para poder desenvolver um projeto «que já o acompanhava há algum tempo».
Por outro lado, para Isabel Vieira, «brasileira, economista e roqueira» de 69 anos, já não é a primeira vez que se debruça sobre o empreendedorismo. Trabalhou durante 30 anos no Brasil enquanto formadora junto a empresas, e o que a surpreendeu foi «a qualidade dos profissionais» que se fizeram presentes no Fator C’Idade.
Ambos os participantes consideram que iniciativas assim podem ter um impacto positivo na sociedade e no envelhecimento saudável. «Quando chegamos a esta altura da vida, há a vontade de recomeçar, e é importante que haja este tipo de programas que nos ajudem a repensar e a pôr em perspetiva como o fazer».
Para Isabel, que nunca se conformou em ser uma pessoa de ficar em casa, estes projetos são essenciais para valorizar as pessoas, acima de tudo quando chegam a uma certa idade. «’A pessoa quer sentir-se útil, valorizada, e é esse o grande impacto», sublinha a também formadora.


O fim de um dia, o início de uma caminhada
Após a apresentação dos pitches, Vilma Reis, também representante da Coimbra Coolectiva, e Joana Pires Araújo procederam ao encerramento do evento. Foram feitos agradecimentos às várias entidades e instituições que colaboraram na organização do evento e no desenvolvimento do Fator C’Idade enquanto iniciativa de empreendedorismo sénior e de impacto. Ao som de Don’t Stop Me Now dos Queen e com a boa disposição que marcou o dia, os participantes e a organização tiraram a tradicional foto, encerrando assim o primeiro dia desta nova edição.
O evento de aceleração deu o arranque ao Fator C’Idade e abriu portas para a próxima fase: a capacitação, já em março, com sessões gratuitas no IPN. Quem não participou pode e deve candidatar-se — inscrições abertas para:
- Sessão 1 – 20 março (6ª, 16h-20h)
- Sessão 2 – 27 março (6ª, 16h-20h)
- Sessão 3 – 2 abril (5ª, 16h-20h)
- Sessão 4 – 10 abril (6ª, 16h-20h)
- Demo Day – 17 abril (6ª, 10h-18h)
Ao longo de 5 semanas, há mentoria e networking, culminando no Demo Day para apresentar projetos.
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.
















