Na sala de atendimento da creche, os minutos antes da entrevista são uma coreografia de urgências: uma educadora vem avisar que a sala de descanso já está preparada para o momento discoteca, outra entra a avisar que o almoço das crianças acabou de chegar, o telefone toca insistentemente, há papéis da Segurança Social a pedir assinatura. Fernando Martins e Abílio Milheiro, dois sócios há meio século, levantam-se uma e outra vez para atender chamadas, confirmar documentos, dar uma palavra às educadoras – até que, num instante de pausa, fecham a porta, suspendem o ritmo da creche e dizem: «Vamos ao princípio». O princípio tem mais de 50 anos, mas hoje interessa tanto como ontem, porque ajuda a perceber como é que alguém decide continuar a empreender aos 70, agora também a pensar na comunidade sénior da Quinta da Maia, um lugar que lhes está cravado na memória e no coração.?

Meio século de «começos»

É logo após o 25 de Abril de 1974 que Fernando Martins e Abílio Milheiro se cruzam na Cooperativa Mondego, nascida da grave crise habitacional – sair de casa dos pais era um luxo impossível para muitos. Há 50 anos, organizaram-se para construir 800 fogos de habitação social, 560 deles na Quinta da Maia, sempre com a visão de rentabilizar os espaços «que não eram só para morar, mas para criar comunidade».?

Desses terrenos emergiu a Mondego – Associação de Intervenção Social, Instituição Particular de Solidariedade Social que, há 30 anos, é uma creche e jardim de infância que já acolheu milhares de crianças e dezenas de profissionais que ali construíram carreiras.?? Durante três décadas, o centro da ação foi sempre a infância: creche, pré-escolar, agora também uma sala de estudo que apoia os jovens da Quinta. Ao mesmo tempo, Abílio, hoje com 75 anos, e Fernando, com 76, foram percebendo que, à medida que as famílias iam crescendo, os avós e vizinhos envelheciam, muitas vezes sozinhos, fechados em casa, enquanto ali, do outro lado da janela, as crianças corriam pelo jardim. «Foi inevitável pensarmos: se conseguimos transformar a vida de tantas famílias com a creche, por que não criar também um lugar de encontro para quem já tem mais anos de estrada?», recordam.

O tempo da reforma como tempo de ação

O próximo passo chama-se Centro de Convívio 50+ e tem uma morada concreta: rua Dom Luís da Cunha, Lote 24, na Quinta da Maia. O objetivo é reabilitar – ou melhor, dizem, «readequar» – o espaço para acolher atividades, encontros e oficinas pensadas para a população sénior, com uma lógica assumidamente pedagógica e comunitária. A licença atrasa-se, a burocracia acumula camadas, mas Fernando e Abílio optam por ler essa espera como oportunidade: é tempo de afinar a programação, fechar parcerias, ouvir as pessoas do bairro, preparar o terreno para que, quando a autorização chegar, nada esteja parado. «Se há coisa que aprendemos é que usar o tempo de espera em ação pode ser a chave para o sucesso», sublinham.?

Cuidar de quem cuida e de quem já cuidou

O futuro do Lote 24 promete juntar duas dimensões que aqui convivem há anos, mas ainda em edifícios separados: os cuidados quotidianos da creche e os cuidados dedicados a pessoas mais velhas. Na prática, significa criar um centro de convívio flexível, com atividades de bem-estar, artes, informática, hortas e uma estufa, mas sempre com uma premissa clara: «Podemos construir aqui momentos de ligação, combate à solidão e fazer atividades que liguem os jovens, as crianças, aos mais idosos». A ideia não é inventar do zero, é aprofundar algo que a própria instituição já testou quando recebia grupos de pessoas mais velhas para conviver com as crianças: «Víamos-lhes a alegria nos olhos, voltavam a falar dos netos, da infância, da sua própria história».?

Fernando Martins, hoje presidente da associação, resume o que está em jogo: «Queremos combater o isolamento e mostrar a todos aquilo que já sabemos: as pessoas mais velhas têm muito para ensinar». A visão é simples e poderosa: usar a experiência acumulada em 30 anos de trabalho com famílias para construir um modelo em que quem sempre cuidou também passa a ser cuidado – não apenas em termos de saúde, mas sobretudo em termos de sentido de pertença, utilidade, reconhecimento. Na Quinta da Maia, onde ajudaram a erguer casas, ruas, jardins e memórias, o Centro de Convívio 50+ quer ser o lugar onde a comunidade sénior deixa de ser vista como um capítulo final e passa a ser coautora dos próximos parágrafos da história comum.?

Um final que continua

Quando a entrevista termina, o relógio já passou pela hora de almoço: as crianças chamam, os telefones voltam a tocar, há papéis à espera de assinatura. Fernando e Abílio levantam-se, retomam o vaivém entre salas, cozinhas, corredores, como se a conversa tivesse sido apenas mais uma tarefa da manhã. Mas o que fica da pausa que fizeram é a sensação de que este «princípio» ainda não acabou. Aos 70 anos, continuam a tratar cada projeto como se fosse o primeiro e a viver cada atraso como oportunidade para preparar melhor o futuro. Na Quinta da Maia, onde tantas famílias começaram uma nova vida, querem agora acender também a luz de quem, depois de tanto fazer pelos outros, merece voltar a encontrar um lugar cheio de vozes, perguntas, risos e tempo – tempo para ensinar, tempo para estar com os mais novos, tempo para perceber que a comunidade ainda precisa muito de si.?

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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