Izabel Vieira não é estranha a desafios e mudanças repentinas. Natural do Pará, no Brasil, a participante da 2ª edição do Fator C’Idade, planeou como seria a sua vida e carreira após os 60 anos. Em 2016, começou a preparar a sua partida do país que sempre conhecera e partiu para uma nova aventura. Essa decisão trouxe-a até Coimbra, em Portugal, onde se encontra neste momento a incubar a sua iniciativa de empreendedorismo sénior, o projeto TeraPão.
Porém, a vida deu muitas voltas antes que Izabel Vieira viesse para Portugal. A empreendedora soma uma carreira de mais de 30 anos, enquanto consultora, tendo-se focado no interior e em negócios agrícolas. “Tudo o que eu estudei foi para levar e ajudar agricultores a transformar a sua terra num negócio sustentável, porque eu acredito que da terra pode vir muita coisa boa”, explica a também economista.
Um eixo fundamental na vida e percurso de Izabel foi o gosto pela educação. Durante a infância, marcada por um contexto conturbado e violento, o seu refúgio eram os livros. Saiu aos 18 anos de casa, com a “autoestima que conquistou no cimo de uma goiabeira”, juntamente com a sacola onde trazia os seus livros. Quando confrontada com o seu passado, a participante confessa que aprendeu a viver e “a dar graças”, porque, sem o seu percurso, não teria chegado onde chegou.
Com oito pós-graduações e uma carreira que a levou muito longe e lhe permitiu conhecer muita coisa, Izabel Vieira sentia que faltava alguma coisa. A consultora confessa que, após tantos anos a trabalhar nos projetos dos outros, sentiu a vontade de desenvolver um projeto para continuar a sua carreira, além de também se dedicar à escrita.
Esta vontade não veio sem os seus desafios. Além do processo de preparação para a sua vinda para Portugal, Izabel Vieira teve de lidar com uma separação. “Ele não sabia o que queria, mas eu nasci comigo e hei-de morrer comigo”, refere a participante. Confessa que, na viagem de avião, aproveitou para reafirmar o seu plano de vida para os próximos dez anos.
Veio para Portugal em setembro de 2018, mas voltava todos os anos para cumprir contratos da consultoria. Em setembro de 2019, voltou para executar um diagnóstico de Indicação Geográfica. Voltaria a Portugal em março de 2020 e foi surpreendida, como todos, pela pandemia. A pandemia obrigou-a a ficar no Brasil, tendo regressado em 2021. Ao voltar para Portugal, decidiu não mais voltar ao Brasil para trabalhar.
Esse regresso proporcionou a Izabel Vieira a oportunidade de criar conexões e envolver-se em vários projetos, muitos deles relacionados com equidade de género e apoio a imigrantes empreendedoras, em regime de voluntariado. Ao mesmo tempo, queria fazer algo que a também empreendedora sentisse que pudesse ser valorizada. Foi no decorrer dessa experiência que Izabel Vieira e o Fator C’Idade cruzaram caminhos e onde o projeto TeraPão, antes uma terapia individual, começou a ganhar materialidade.

O pão como caminho para o combate ao isolamento social
Izabel Vieira explica que o seu interesse por fazer pão foi alimentado durante a pandemia. De acordo com a consultora, a sua casa virou trincheira, onde “ficava a fazer pão até às 2 horas da manhã”, para depois distribuir pelos seus conhecidos e vizinhos. A partir desse gosto, a participante do Fator C’Idade começou a pensar de que forma poderia criar um projeto que pudesse ajudar a combater o isolamento social.
Izabel Vieira acredita que “aquilo que mais mata não é AVC ou doença cardíaca, é o isolamento social”. Nesse sentido, o TeraPão tem como principal eixo o convívio através da confeção de pão de fermentação lenta. “As pessoas vão meter a mão na massa”, de acordo com a participante, e colher os benefícios sensoriais que esse processo traz, enquanto socializam.
O projeto está orientado, de acordo com Izabel Vieira, para se organizar por grupos de dez a quinze pessoas, a partir dos 55 anos “num só espaço, conversando sobre o que gostam com o outro”. A mesma refere que a massa já viria fermentada e preparada para amassar, numa sessão pensada para durar cerca de quatro horas, sendo que o foco “não é o pão”, mas sim o que acontece durante a sua confeção.
Nesta fase inicial, a prioridade para Izabel Vieira é arranjar um espaço que lhe permita dinamizar estas sessões. “A nível de equipamentos é coisa pouca, é farinha, uma taça de inox e uma colher de pau, bancada e forno, além de cadeiras para os participantes”, explica. No entanto, assume que gostaria de, posteriormente, imaginar o espaço que acolhe o TeraPão enquanto multidisciplinar, pelo que a participante não fecha porta a possíveis parcerias.


Fator C’Idade enquanto espaço de encontro
Izabel Vieira acredita que, mais do que a incubação do seu projeto, o Fator C’Idade já vale a pena pelas possibilidades que abre. “Tudo o que é o Fator C’Idade me encantou, porque nos faz pensar sobre as possibilidades no pós-carreira. Valoriza tudo que trazemos de aprendizado e faz pensarmos em como o poderíamos usar para melhorar a nossa vida e a de outras pessoas”, refere ao relembrar o dia de aceleração, no dia 7 de março de 2026.
A criadora do TeraPão também considera fundamental o trabalho em conjunto com os restantes participantes. Por sua vez, admite que o espaço da incubadora de empreendedorismo sénior tem muito potencial para a implementação de “mentorias cruzadas”. Com isto, Izabel Vieira refere-se à promoção de um networking coletivo, em que “alguém que soubesse muito sobre uma área poderia trocar conhecimentos com outra pessoa. Seria uma troca de saberes”.
O TeraPão, como muitos dos projetos a serem incubados no Fator C’Idade, conta apenas com a presença de Izabel Vieira. No entanto, a empreendedora confessa que gostava de “colocar pessoas mais jovens na equipa”. Quando questionada sobre o porquê, a criadora do projeto assume que gostava de poder criar um legado que continuasse depois dela. “Eu não posso criar um legado numa empresa só minha, queria encontrar quem herde este trabalho e lhe dê continuidade”, assume.
O Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.
