A história começa num fim de semana de março, no Techstars Startup Weekend Coimbra, no espaço Urubu. Depois de dois workshops preparatórios, foi num evento de 54 horas – pensado para juntar pessoas com ideias, formar equipas e testar protótipos – que Maria apresentou o projeto de saúde hormonal das mulheres que viria a dar origem ao Menostart. «Serve para o corpo de uma mulher que está do meu lado. Ou uma pessoa da tua família», justifica Miguel, explicando por que um engenheiro de 53 anos se juntou ao grupo.
Num modelo que começa com apresentações rápidas, post-its colados nas paredes e equipas que se formam em torno das ideias, Maria e Miguel acabaram integrados numa equipa de seis pessoas com formações muito diferentes, da engenharia à gestão. «Começámos na sexta com uma ideia e no sábado à tarde trocámos completamente de rumo», explica Maria sobre os ajustes intensos que fizeram. Ao longo de três dias, a equipa foi recebendo feedback de mentores, ajustando propostas e testando hipóteses até chegar a um ponto de equilíbrio entre ambição e exequibilidade.
A primeira versão do projeto passava por desenvolver um dispositivo capaz de medir indicadores hormonais e antecipar variações de humor, energia ou desempenho, ajudando mulheres, famílias e contextos de trabalho a perceber o impacto dos ciclos hormonais. Mas, depois de conversas com ginecologistas e outros profissionais de saúde, a equipa percebeu que seria muito difícil criar, num curto espaço de tempo, um aparelho não invasivo, fiável e acessível, que não dependesse de recolha de sangue ou outros métodos complexos.

A ideia foi reorientada para algo mais realista: uma plataforma e, mais tarde, uma aplicação móvel centrada na menopausa, capaz de combinar informação, acompanhamento e ligação a especialistas. O projeto Menostart nasceu assim, ainda durante o fim de semana, e continuou a ser trabalhado mais tarde no programa de capacitação e incubação do Fator C’Idade.
Uma app tipo Flo, mas para a menopausa
Se a Flo é hoje uma das aplicações mais populares para acompanhar o ciclo menstrual e envolver também os parceiros, o Menostart quer fazer algo semelhante para o momento em que o período deixa de chegar – e tudo o que acontece antes e depois. A visão é oferecer uma app e um website com conteúdos educativos, workshops, consultas com especialistas, ativação de comunidade, chatbots e newsletters, ajudando as mulheres a registar sintomas, integrar resultados de análises e perceber melhor o que está a acontecer ao corpo.
A ideia é que cada utilizadora vá alimentando o sistema com dados do dia a dia – ondas de calor, sono, humor, fome, energia – e que a aplicação devolva padrões, pistas e sugestões para a vida quotidiana. Quando a informação digital não chega, a plataforma deve também funcionar como ponte para profissionais de saúde, privilegiando o SNS, mas incluindo uma rede verificada de médicos e especialistas do setor privado para quem preferir esse caminho.
Parceria com a Associação VIDAs e o Fator Cidade
O Menostart não está a nascer isolado. Uma das primeiras decisões de Maria e Miguel foi aproximar?se da Associação VIDAs – Associação Portuguesa de Menopausa, liderada por Cristina Mesquita De Oliveira, que tem trazido o tema da menopausa para o debate público e chegou mesmo a levá?lo à Assembleia da República, onde foi integrado em iniciativas legislativas. A associação tem conhecimento acumulado, comunidade ativa e legitimidade pública, fatores que a dupla considera essenciais para ganhar espaço num terreno ainda marcado por tabu e desinformação.
A incubação no Fator C’Idade deu outro impulso: ao lado de outros projetos ligados ao envelhecimento ativo e ao impacto comunitário, o Menostart beneficiou de formações, mentoria e acesso a redes, incluindo o Instituto Pedro Nunes e o ecossistema de inovação de Coimbra. A ideia quer ajudar a enquadrar a menopausa não apenas como questão individual, mas como tema de cidade, trabalho e políticas públicas.
Maria Ávila nasceu e cresceu em Coimbra, estuda Gestão no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra e, aos 23 anos, partilha com naturalidade o desenvolvimento da app com avaliações na faculdade. No Menostart, assume a definição da visão e estratégia, a representação institucional, a comunicação externa e a ligação com stakeholders, parceiros e comunidade. Miguel Nunes nasceu em Kinshasa, na atual República Democrática do Congo, em 1972, e regressou a Portugal em 1974. Engenheiro eletrotécnico de telecomunicações, com um MBA e a terminar licenciatura em Gestão na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, coordena as operações diárias do Menostart, planeia processos internos e supervisiona logística, depois de ter passado pela Critical Software, onde se aproximou do universo das startups e de eventos como o Startup Weekend.

Alguns leitores poderão reconhecer o nome: Miguel já foi retratado numa reportagem anterior sobre pessoas autistas a navegar o mercado de trabalho, experiência que o próprio traz agora para a forma como pensa a organização e a tecnologia.
?Ao longo da conversa, há uma ideia que se repete: a menopausa não é um «acidente» individual, é um fenómeno com impacto na saúde das mulheres, nas famílias, nas empresas, no orçamento público e até na produtividade do país. Maria e Miguel sublinham que muitas mulheres começam a ter sintomas entre os 20 e os 30 anos, num período que pode arrastar?se durante décadas até à menopausa propriamente dita, sem que haja informação clara, acompanhamento consistente ou espaço para falar disso no trabalho.
Com carreiras mais longas e reformas cada vez mais tarde, a geração hoje nos 40 e 50 anos vai passar uma parte considerável da vida ativa em menopausa, ao contrário das mães, que muitas vezes atravessaram esse período já aposentadas. Para Miguel, isso significa também olhar para os homens da sua geração e lembrar?lhes que apoiar as companheiras nessa fase é parte do que significa ser parceiro, colega ou familiar atento.



Nos próximos passos estão o lançamento de um website com conteúdos educativos e espaço para perguntas, o desenvolvimento de uma comunidade ativa de utilizadoras e o contacto com especialistas e a participação em eventos ligados à menopausa e à saúde da mulher. Mais à frente, o objetivo é ter entre 800 e 1500 clientes pagantes e 10 mil utilizadoras ativas, assegurar parcerias com clínicas e médicos de referência e construir uma rede com profissionais de diferentes áreas, da ginecologia à saúde mental. A presença em eventos de saúde e tecnologia para mulheres e um plano de possível entrada em Espanha estão igualmente no horizonte, sempre com a app – mais complexa e exigente do ponto de vista técnico – como meta a médio prazo, depois de uma fase inicial centrada na plataforma web.
O que falta e como podem ajudar
O financiamento para desenvolver a aplicação, bem como recursos humanos com competências técnicas para a construir, são apontados como necessidades centrais para que o Menostart passe do papel às lojas de apps. Maria e Miguel admitem que, entre trabalhos, licenciaturas e a procura de emprego, o tempo dedicado ao projeto oscilou, mas assumem 2026 como ano para voltar a concentrar energias, consolidar a parceria com a Associação VIDAs e explorar colaborações com estudantes de Engenharia Informática que possam desenvolver partes da solução em contexto académico.
Do lado da comunidade, o pedido é simples: que se fale de menopausa com menos medo e mais informação, que mulheres em diferentes fases da vida se disponibilizem para testar e dar feedback sobre conteúdos e ferramentas e que profissionais e organizações abertas a este tema se aproximem. O Menostart está ainda em construção, mas, como lembram os dois fundadores, um projeto começa muito antes da app existir – no momento em que alguém decide que um silêncio longo demais precisa de ser interrompido.
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.


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