Cristina Murta, conimbricense de gema com 57 anos, tem o sonho de criar a Vint’Ajudar, uma empresa de transporte e acompanhamento personalizado para pessoas de mobilidade reduzida, que pretende oferecer desde passeios de lazer até acompanhamento a consultas médicas.

História familiar como primeira peça do efeito dominó

A vontade de criar um transporte personalizado remonta a 2009, quando o seu sogro passou pela amputação de uma perna por complicações de diabetes. Na sua ótica, um homem que outrora era «muito ativo e dinâmico» ficou isolado. «Mentalmente estava muito bem, mas começou a decair porque estava sempre dependente de alguém», reforça. Essa circunstância familiar fez com que Cristina percebesse uma lacuna na oferta de transporte personalizado para que pessoas como o seu sogro dessem continuidade às suas rotinas sociais quotidianas.

Desde então, a vontade de fornecer esse tipo de apoio ficou latente dentro de si. À época trabalhava no ramo imobiliário, onde somava uma carreira de 20 anos, até à crise imobiliária de 2009, que a deixou desempregada com 41 anos. Por volta da mesma altura, o seu marido vê-se na mesma situação depois da insolvência da empresa onde trabalhava.

Por considerarem ser «complicado» encontrar um novo emprego perto dos 50, decidiram fundar a Tuk a Day, empresa de passeios turísticos, em 2015. Uns anos mais tarde, pouco depois da pandemia de Covid-19, aventurou-se mais uma vez na criação de um projeto próprio e abriu o Baloiço Bar, no Seminário Maior de Coimbra. Em julho de 2025, encerrou esse espaço de lazer por motivos familiares, além da sazonalidade adjacente às duas empresas pesar muito.

A circunstância ideal para alavancar as engrenagens

Passados 16 anos desde que a semente da Vint’Ajudar brotou no seu pensamento, Cristina deparou-se com o Fator C’idade e decidiu que era o momento de germinar a sua ideia.

Apesar de já ter na bagagem a criação de duas empresas, admite que o programa é «interessantíssimo» e que lhe concedeu ferramentas que não tinha quando fundou os seus outros projetos. «Há dois ou três anos contactei com o IMTT – Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres, I. P. (hoje integrado no atual IMT – Instituto da Mobilidade e dos Transportes), o INEM – Instituto Nacional de Emergência Médica, o INE – Instituto Nacional de Estatística, porque não há nada 100% esclarecedor, há uma parte meio obscura na lei», explica. Participar no Fator C’idade permitiu-lhe reiniciar os contactos «com outro conhecimento».

Admite que na fase de aceleração desenvolveu mais a sua ideia e percebeu a importância de oferecer uma experiência mais intimista e humana, que permitisse a criação de laços de confiança. No sentido de oferecer o melhor acompanhamento, pretende contratar trabalhadores com formação adequada em cuidados de saúde.

Pedras no caminho

De momento, o desenvolvimento da empresa está em pausa devido à quantidade de tempo que a Tuk a Day exige. Nesse sentido, a definição de preçário e pacotes de oferta da Vint’Ajudar ainda não está concluída, nem a aquisição de viaturas adaptadas.

Espera conseguir avançar com a Vint’Ajudar num futuro «mais breve possível enquanto ainda tem forças» para o fazer. Apesar de imaginar que o transporte de clientes com mobilidade reduzida vai exigir esforço a nível físico, acredita que a sua crença no projeto é tamanha a ponto de isso não representar um entrave.

Para Cristina, a Vint’Ajudar pode ser uma resposta ao isolamento social de pessoas idosas em Coimbra, por ser um serviço mais personalizado. Dando como exemplo diferenciador o facto de «os bombeiros no fim da consulta não irem com a pessoa à farmácia». Contudo, sabe que o crescimento vai ser a longo prazo e através da passagem de palavra que espera originar reconhecimento entre a comunidade.

A necessidade de simplificação de processos burocráticos

Embora não seja inexperiente neste terreno, compreende as dificuldades sentidas por pessoas com mais de 50 anos que ambicionam fundar o seu próprio negócio. Assim, defende que gabinetes de apoio à criação de empresas são essenciais para esclarecer a confusão burocrática porque «as pessoas perdem muito tempo a tentar compreender a lei e desistem dos projetos».

Termina com um apelo para a existência de acompanhamento mais profundo e mais financiamento para projetos de cariz social. «Para entrar numa coisa destas, vou ter de me endividar», ilustra.

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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