Na qualidade de clientes, no papel de trabalhadores ou enquanto cidadãos de um determinado lugar, como podemos avaliar o impacto positivo de uma empresa? Será que este papel se reduz aos programas de responsabilidade social? Existe algum mecanismo de certificação do impacto de uma empresa? 

Estes são os pontos de partida para esta série, Negócios com Impacto, onde pretendemos reflectir sobre o papel das empresas na sociedade. Queremos conhecer ferramentas que ajudem a avaliar a forma como as empresas assumem preocupações com o ambiente, com a comunidade, com os seus trabalhadores e também no seu modelo de governação. Também pretendemos identificar casos concretos de empresas portuguesas que acolhem estes desafios no desenvolvimento dos seus negócios. Pelo caminho, queremos perceber se estas são também preocupações de diferentes empresas estabelecidas em Coimbra.

Começamos este desafio com uma entrevista a Luís Amado, Director Executivo do B Lab Portugal, uma organização que integra o movimento B Corp, uma associação sem fins lucrativos que mede o impacto positivo das empresas. Em 2021, existiam já mais de 4,300 empresas com a certificação B Corp, das quais cerca de 700 encontram-se estabelecidas na Europa, incluindo 15 empresas portuguesas. Aliás, na Europa, esta comunidade B Corp verificou um aumento de 27% com a integração de novas empresas que partilham os mesmos valores e preocupações. A sustentabilidade dos negócios parece ser o caminho de futuro para este conjunto de organizações que não pensa apenas no lucro.

Joana Pires Araújo Em que se traduz o movimento B Corp? 

Luís Amado – Falamos de empresas para o bem ou com vontade de criar impacto positivo. O que está por trás do nascimento deste movimento é a consciência de que as empresas têm uma força enorme para mudar o mundo e devem fazê-lo para o bem. As empresas podem enriquecer a sociedade em várias as perspectivas – em todas aliás – e ajudar a encontrar caminhos para criar valor para a sociedade. O que está por trás do nascimento deste movimento é a consciência de que as empresas têm uma força enorme para mudar o mundo e devem fazê-lo para o bem.

JPA Como é que este movimento chegou a Portugal?

LA – Chega a Portugal pela mão do Instituto do Empreendedorismo Social (IES), em 2015. Resolveram trazer o movimento para cá e um dos encontros europeus aconteceu em Cascais. Desde então, tem havido um crescimento exponencial. Foi necessário semear, tentar estabelecer alguma solidez e verificamos que tem havido uma curva tremenda de crescimento do movimento. É difícil dar resposta atempadamente, o interesse tem sido crescente e muito diversificado, não só em termos de áreas de actuação – de escritórios de advogados a empresas de vinhos – mas também desde multinacionais a pequenas startups. Noto que normalmente há mais mulheres mais preocupadas com estes temas.

«Não existe apenas a preocupação da criação de valor para os accionistas. Assim, as empresas podem ter um impacto positivo para toda a sociedade.»

Luís Amado – Director Executivo do B Lab Portugal

JPA O que é isso de mudar o mundo para o bem? Quais as preocupações que a certificação B Corp acolhe?

LA – No fundo, trata-se de ter em atenção todos os stakeholders: os colaboradores e as suas famílias, os fornecedores, os clientes, o ambiente, a comunidade onde se insere a empresa, etc.. Não existe apenas a preocupação da criação de valor para os accionistas. Assim, as empresas podem ter um impacto positivo para toda a sociedade.

JPA – Qual é o critério mais exigente da certificação BCorp?

LA – Há uma única coisa em todo o processo que não é contornável: é obrigatório incluir nos estatutos que a empresa tem de ser gerida em função dos interesses de todos os stakeholders e não apenas dos accionistas, incluindo os clientes e todos os que interajam com aquela empresa. Lá está, falo dos trabalhadores, da comunidade, dos clientes, da governação, da interação com accionistas e da interacção com o ambiente. Se ainda não estão lá, pergunto: «porque existem?». No outro dia, num fundo de investimento, fiz esta questão e veio o dinheiro à cabeça mas essa resposta é muito igual. Afinal, porque é que a empresa existe e o que pode criar como mais valia? Como pode distinguir-se das outras?

JPA – Como é que uma empresa pode começar a aproximar-se deste tema e avaliar o seu impacto positivo?

LA – A aproximação ao movimento B Corp acaba por ter perspectivas diferentes. Umas empresas querem muito ser certificadas, outras ouviram falar da ferramenta de gestão do impacto e querem fazer uma avaliação. Isto é uma jornada, não é um ponto de partida nem de chegada e as empresas que se certificam aproveitam a ferramenta para irem progressivamente melhorando. Cada vez mais temos a experiência de que a própria certificação B Corp ajuda na tomada de decisões futuras da empresa, ajuda a definir objectivos, para onde se quer ir.

JPA – O que as empresas precisam de fazer? 

LA – Temos disponível uma ferramenta de medição do impacto, o B Impact Assessment (B Impact). É uma avaliação exigente, do impacto socioambiental de uma empresa. As empresas podem registar-se gratuitamente e inserir dados da empresa relativamente à localização geográfica, dimensão (número de pessoas) e área de operação. A informação é confidencial, protegida por password. Aliás, toda a informação não é pública até ao momento em que as empresas passam a ser certificadas e a ter uma folha de informação pública.

É uma ferramenta de trabalho e de gestão que funciona com perguntas de escolha múltipla, com pontuação, para as empresas perceberem onde estão e para onde podem ir, até ao dia em que a empresa decide que quer ser certificada. Nessa altura, há uma equipa internacional que vai verificar e pedir comprovativos das informações feitas.

Durante o processo, o BLab dá todo o apoio na clarificação de dúvidas quanto ao processo, seja indicando onde poderá existir informação relativamente aos assuntos ou o que se pretende com cada questão. É um apoio gratuito. Claro que há situações em que as empresas já identificaram dezenas de questões e aí o BLab não faz consultoria mas pode indicar pessoas ou empresas de consultoria que estejam dispostas a ajudar.

Um dado curioso é que existem 150 mil empresas em todo o mundo a utilizar a ferramenta de gestão de impacto e isso é um dado que mostra que o B Impact tornou-se num roteiro de melhoria, o caminho que muitas empresas estão a fazer.

JPA – Quais os custos associados à utilização da ferramenta B Impact?

LA – A utilização do B Impact é completamente gratuita. Na etapa final, existem dois custos, um de submissão para avaliação (250€), criado para obter um compromisso com a empresa neste momento de verificação da informação prestada, e ainda um custo anual indexado às receitas.

«Não é apenas para as empresas. Cada vez mais as pessoas (clientes e trabalhadores) têm uma palavra a dizer.»

Luís Amado – Director Executivo do B Lab Portugal

JPA – A certificação acaba por ser importante para quem?

LA – Não é apenas para as empresas. Cada vez mais as pessoas (clientes e trabalhadores) têm uma palavra a dizer. Aliás, fazemos campanhas a dizer que as pessoas podem votar com as suas carteiras, podem influenciar e muito as empresas que vão ter no futuro. Essa é uma das vertentes importantes e não se fica por aqui.

O que sentimos é que cada vez mais os consumidores dão valor a isso. Temos empresas B (B Corp ou B) que já alteraram esta indicação nos seus rótulos, passando-os da parte de trás para a frente, para lhe dar visibilidade. Ser B ajuda na interação com o consumidor. Também sabemos que as empresas B recebem toneladas de currículos porque se tornam locais atractivos para trabalhar. Isto faz com que o chamado executive search para empresas B seja mais simples pelo feedback e entusiasmo das pessoas que trabalham a explicar porque ali trabalham e porque é bom trabalhar numa empresa B.

Também cada vez mais esta ferramenta entrou na área do investimento, é usada como forma de termómetro para medir estas várias áreas. É uma forma de avaliar a resiliência e resistência ao risco porque são empresas que agradam a todos os stakeholders, então podem ter acesso mais barato ao dinheiro.

JPA – Como podemos seguir as novidades e exemplos de boas práticas?

LA – Temos duas esferas ou camadas do ecossistema: os que já são certificados têm acesso a documentação e eventos de troca de boas práticas com uma distinção anual de onde saem casos de estudo. As restantes organizações têm acesso a muita desta informação que é pública. O movimento B Corp tem a preocupação de organizar alguns eventos para empresas que já estão interessadas nestes temas e envolvê-las na troca de experiências.

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