A zona histórica tem de ser o coração pulsante de qualquer cidade sustentável e eu acredito que Coimbra merece uma Baixa digna e cheia de vida. Uma Baixa com viabilidade a nível económico, social, cultural e ambiental.

Citando alguns estudos: «O Centro histórico de uma cidade é por definição um lugar central relativamente à restante área construída mais moderna, sendo definido pelo seu poder de atracção sobre os habitantes e turistas, como foco polarizador da vida económica e social»; «conjuntos urbanos com valores culturais, nomeadamente históricos, arquitectónicos, urbanísticos ou simplesmente afectivos, cuja memória importa preservar»; «esta memória colectiva constitui um quadro de referência fundamental para o equilíbrio psicológico necessário para reagir às mudanças que constantemente se prefiguram nas nossas cidades».

«É possível inverter o ciclo de degradação, esvaziamento e desvalorização, que se arrasta há décadas e, em conjunto, transformá-la numa zona histórica que nos orgulhe.»

Pedro Serra, proprietário do espaço CoolaBoola CoLAB

A Baixa de Coimbra tem de ser das memórias e essas terão de ser uma força para as gerações futuras. Todos nós, sem excepção, somos os responsáveis por trazer essas memórias de volta. Como? Fazendo acontecer! A Baixa tem de ser de todos, dos que em Coimbra nasceram e dos que a adoptaram como sua. Dos que por cá passam ou cá passaram e dos que a visitam. Tem de ser de todos. Todos concordamos que a zona histórica, à semelhança de muitas cidades europeias, necessita de se regenerar, reabilitar e recriar. Sabemos também que é mais fácil arranjar argumentos para a depreciar e maltratar do que fazer por ela. A curto prazo, mudar este paradigma é o primeiro passo para vencer esta longa batalha.

A Baixa tem de ser das instituições, com o executivo da Câmara Municipal de Coimbra ao leme para, em conjunto, se criarem condições para cativar empresas jovens a se instalarem, agilizando processos de licenciamento, ocupando os pisos superiores de muitos espaços devolutos. É necessário repensar a Baixa como um condomínio, atrair habitantes, investidores e comércio de qualidade e diferenciador. É imprescindível agilizar com os senhorios condições para reabilitação e criar habitação de qualidade para os futuros jovens trabalhadores, e também os estudantes. Estamos atrasados neste processo comparativamente com outras cidades portuguesas, mas a tempo de recuperar. Existem apoios, que sejam postos em prática com celeridade.

A Baixa tem de ser de quem nela investe, pois são estes empresários que acreditam e fazem acreditar que é possível, criando condições favoráveis para o tecido comercial e empresarial, tornando-a viável e estimulante! O apoio do executivo tem de ser presente e célere, quer nos apoios para reabilitação dos edifícios, quer na motivação para outros e novos investimentos, negócios e comércios e novas formas de serviços e indústria, de forma a reabilitar o tecido empresarial e a própria cidade.

A Baixa tem de ser dos Comerciantes, reinventando-se e colaborando mutuamente para atrair novos clientes e fidelizar os existentes, apresentando uma oferta de qualidade e diversificada. A Baixa tem ser das lojas tradicionais mas também das lojas âncora. Tem de ser de quem lá trabalha e vista por esses trabalhadores como o local ideal para habitar e/ou socializar. Mas a Baixa não pode ser apenas o local de trabalho, tem de ter infra-estruturas de lazer atractivas para quem ali circula diariamente, tem de ser dos jovens, trabalhadores ou estudantes, que começam a vida adulta. São eles que vão tornar a Baixa viva e atractiva.

A Baixa tem de ser dos que chegam de outros países, seja para procurar um local para a sua reforma, seja para os Erasmus ou estudantes de pós-graduações, ou mesmo só aqueles que procuram uma oportunidade de trabalho. Muitos destes novos cidadãos já escolhem a Baixa para habitarem, que se criem com celeridade condições para os fixar. A Baixa tem de ser dos que nela habitam melhorando a qualidade de vida das mesmas, em especial proporcionando mais luminosidade e policiamento nas suas ruas.

«A baixa é um espaço comercial a céu aberto, amiga do ambiente, sem ar condicionado ou poluição dos grandes parques de estacionamento e com diversidade das lojas históricas às mais modernas. Mas também tem de ser das marcas de referência, caberá ao poder local as atrair para que sirvam como âncora para novos projectos e investidores.»

Pedro Serra, proprietário do espaço CoolaBoola CoLAB

A Baixa tem de ser de quem nos visita, hoje considerada uma atracção turística em todo o mundo não só pela sua beleza e sua história, mas em especial pelo que se mantém «intacto» – uma verdadeira atracção para aqueles que se esqueceram do que é original, cultural e tradicional. Que Coimbra saiba preservar. A Baixa tem de ser fundamentalmente da cultura, funcionando como um polo de atracção não só para um turismo cultural, mas também para atrair os jovens e fazer reapaixonar os mais velhos. A cultura servirá como alavanca para uma zona viva e dinâmica.

A Baixa tem de ser dos clientes e do cidadão comum que nesta cidade habita, que nos preocupemos em preservar memórias. Numa altura tão difícil para o comércio, restauração e cultura, com dois anos de dificuldades nunca antes vividas, somos todos nós os responsáveis por apoiar os negócios locais e familiares, acima de tudo para que tudo não se perca e que um dia, quando acordarmos deste pesadelo, não reste mais nada a não ser um vazio colectivo, de espaços e de memórias. Apoiemos sim, com todo o prazer. Seja numa compra de um presente para quem gostamos, seja um mimo para nós que merecemos, um jantar romântico ou entre amigos, ou mesmo socializando após o trabalho com uma cerveja ou um café.

A Baixa não é só cortiça como muitos o querem fazer crer! Apesar de ter ainda muito para se recriar e desenvolver, tem uma oferta rica. E sim também pode ter lugar ao nosso artesanato que por vezes queremos fazer crer que só o turista pode gostar. A Baixa tem uma história inigualável, e esta sente-se ao atravessar estas ruas e ruelas. Não só de monumentos se faz a cultura de uma cidade mas também das memórias que passam de geração em geração e que a fazem tão especial. Porque acham que nos visitam tantas pessoas por ano? Sim, também eu sou o tal «turista» na minha própria Baixa, pois é nela que me gosto de perder, saboreando cada recanto. É linda e por ela me apaixonei desde os meus primeiros dias de vivência!

A Baixa tem uma das mais bonitas praças europeias, a Praça do Comércio, que pela sua centralidade, é fundamental dinamizar. É nela que desaguam as ruas de todos os pontos da Zona histórica, a nossa Praça Central, magnifica. Mas temos outras, sem a mesma escala mas não menos magníficas, como o Largo da Sé Velha, o Terreiro da Erva, o Pátio da Inquisição, a Praça 8 de Maio, etc. A Baixa de Coimbra é rica em diversidade na restauração, onde a oferta vai desde o tradicional ao gourmet reinventado, das tascas às pizarias, das petisqueiras às tabernas, das chocolatarias às gelatarias, etc. Existem espaços para todos os gostos e carteiras, e a maioria de qualidade! Há cafés e cervejarias, espaços ideais para tertúlias, espaços de encontro de famílias e amigos das mais diversas zonas da cidade e região, e onde se criam ou partilham memórias e vivências, muitas partilhadas também com quem nos visita.

A Baixa é um espaço comercial a céu aberto, amiga do ambiente, sem ar condicionado ou poluição dos grandes parques de estacionamento e com diversidade das lojas históricas às mais modernas. Mas também tem de ser das marcas de referência, caberá ao poder local as atrair para que sirvam como ancora para novos projectos e investidores. A Baixa tem cultura e salas especializadas para a apresentação das diversas vertentes como a música, teatro, artes plásticas, museus, rádio, etc. As ruas e ruelas da baixa têm de ser uma «sala cultural» a céu aberto com criação de espaços para artistas da região.

Estou convicto de que a Baixa de Coimbra, mais que uma ameaça ao valor da cidade, tem agora a sua grande oportunidade. É possível inverter o ciclo de degradação, esvaziamento e desvalorização, que se arrasta há décadas e, em conjunto, transformá-la numa zona histórica que nos orgulhe. Acreditem! Eu acredito. Venham viver a baixa e preservar memórias!



Pedro Serra é empresário, proprietário do Coolaboola CoLab e do Café Académico em Coimbra

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