Portugal assumiu, em 2016, na Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, o compromisso de alcançar a neutralidade carbónica até 2050. Estas não são palavras minhas, é o início do Decreto-Lei nº 15/2022, de 14 de Janeiro que estabelece a organização e o funcionamento do Sistema Elétrico Nacional.
Quem coloca um pé na rua na Cidade de Coimbra vê a enorme transformação que está a acontecer com obras sem fim para um futuro sistema, espera-se que melhor de mobilidade, que inclui o MetroBus integralmente elétrico e também podemos assistir à progressiva substituição dos autocarros dos SMTUC por autocarros elétricos. A questão é que a CMC até agora parece ter-se esquecido da produção dessa energia elétrica de modo a reduzir o seu orçamento anual com energia e ganhos ambientais pelo consumo de energia renovável.
Este artigo é um humilde contributo de um simples munícipe, sem qualquer especialidade na matéria, mas recolhendo alguns elementos torna-se fácil de perceber o atraso em que nos encontramos. Além disso, parece ser possível integrar esta transição sem fundos europeus ou outros. A simples produção de energia iria colmatar em poucos anos o investimento e a vida útil dos painéis solares (20-25 anos) encarregar-se-á de produzir durante bastantes anos a custo zero muita energia.
Dados que consegui recolher, dos mais antigos para os mais recentes:
Em 2022 o custo de percorrer 100km com um autocarro a gasóleo era de 43,78€ para 11,74€ com um autocarro elétrico. Tentei obter dados do SMTUC mais recentes, mas não obtive qualquer resposta até hoje. Também nesse ano e apenas com cinco autocarros BYD de 12 metros com capacidade para 80 pessoas (33 sentadas) a poupança na emissão de CO2 foi de 760 toneladas.
O orçamento da CMC em 2023 para energia elétrica foi de 7 915 810€, valor este que divide em 5 588 790€ para baixa e média tensão e 2 427 020€ para iluminação pública. Devo referir, que gostava de ter encontrado dados sobre a diferença entre o consumo das lâmpadas antigas e LEDs mas não encontrei. Também é de notar que ainda não ocorreu a substituição integral de todas as lâmpadas para LED o que trará alguma redução nestes mais de 2,4 milhões de euros. Estes valores são anuais para que não restem dúvidas.
O orçamento dos SMTUC, foi possível obter os dados para este ano. As despesas previstas com gasóleo são de 4 milhões de euros e com eletricidade, cerca de 450 mil euros. Em particular neste ponto da redução todos os anos com a fatura do gasóleo, com a manutenção do serviço com cerca de 1/3 do custo por cada 100KM percorrido que é possível encontrar logo uma das formas de financiamento inicial para a transição energética.
Mais alguém está a fazer isto?
Coimbra está muito atrasada. Évora está muito à frente. O Porto também já tem um projeto Porto Solar e há mais projetos aprovados pela ERSE.
O que é que a Câmara necessita de fazer?
Na minha modesta opinião deve criar uma Comunidade de Energia Renovável da qual seja a responsável e adquirir os equipamentos de modo a ficar com o controlo total da energia produzida porque necessita de toda a energia produzida devido ao consumo não só dos edifícios que detém mas também do sistema de transportes que é responsável e que são deficitários em termos orçamentais. Só os SMTUC, em 2024, têm um défice de 6,6 milhões de euros.
A Comunidade permitiria que particulares com Unidades de Produção para o Auto Consumo pudessem pelo menos doar o excesso de produção. Não sei de momento se podiam vender.
Como fazer?
Colocação de painéis solares no edificado público que esteja exposto a Sul. Minimizar ao máximo os custos e maximizar os benefícios. Eventualmente no futuro equacionar a colocação no solo como vemos em muitos locais. Os munícipes compreenderão se explicado porque se tomam as decisões. A outra opção pode ser a colocação no Rio Mondego com alguma proteção dos painéis contra vandalismo, nomeadamente o arremesso de pedras.
Temos muita sorte com a orientação do edificado público que existe em Coimbra. As imagens são retiradas do Google Maps que são antigas pelo que consigo perceber, são pelo menos anteriores a Julho de 2022. Pode haver locais já ocupados com painéis.
Todas as fotografias apresentadas (em baixo) estão alinhadas com o norte para a parte superior e naturalmente o sul é para a parte inferior da mesma. Para maximizar a eficiência os painéis devem estar virados para Sul. Perfeito era acompanharem o movimento de rotação do sol, mas isso iria aumentar os custos exponencialmente, por isso, os painéis estão fixos, o que os torna também mais resilientes ao vento em particular, assim, a orientação para Sul é a melhor opção.
Custos e porque é que a Câmara de Coimbra deve ser diferente
1000 painéis solares custam 170 mil euros com IVA incluido. 46 000 Watts em painéis ou se preferirem 0,46MW. A eficiência é muito menor do que isso. Mas ficam com uma ideia. A isto adiciona inversores, sistemas para colocar no telhado, todo o sistema de cabos, calhas, trabalhos de construção civil e mão de obra. Seguros e outros que naturalmente me escapam. Mas os painéis que são baratos e têm uma duração de 20-25 anos são baratos para quem tem uma fatura próxima de 8 milhões de euros por ano e o MetroBus ainda não começou a funcionar. O Orçamento da CMC para 2024 é de 234,1 milhões de euros. Será mais simples calcular os custos depois de instalar em alguns edifícios e aprender com o que já existe no edificado público.
Em particular nas Escolas pode-se lançar uma campanha «adota um painel solar» em que depois seria colocada uma placa com a configuração dos painéis e o nome da pessoa que fizesse a doação. Outra sugestão de financiamento pode ser o pagamento do IMI multi-anual com um desconto de 5%, por exemplo, verba que seria canalizada para a instalação de painéis solares. Esta medida tem o problema de ser discriminatória em termos de capacidade económica das famílias. Seguramente haverá melhores ideias. Estas são duas ideias iniciais.
Cada um do edifício é uma instalação. Não é necessário instalar tudo para ficar uma coisa a funcionar. Estou verdadeiramente confiante que em particular nas Escolas os alunos vão gostar de saber que estão a contribuir para um planeta melhor e vão querer levar isso para casa.
A CMC pode e deve ficar independente energicamente de qualquer empresa de modo a poder ter o excedente que produzir para utilizar como pretender, além disso, tem os transportes que são uma fonte muito grande de consumo de energia. A energia solar é uma fonte de energia intermitente e as baterias têm uma vida de cerca de 10 anos e são caras. Mas a câmara terá as baterias dos autocarros para depois utilizar para outros fins. E adquirir de forma inteligente baterias menores ou de outras fontes para utilizar em edifícios. A independência energética é uma das enormes riquezas que pode ter para reduzir a sua despesa.
No site da Câmara deve existir a informação de qual a potência instalada, quanto está a produzir, quanto está a ser consumido, qual foi o dia em que mais foi produzido e mais foi consumido. Nas entradas da Cidade deve estar um Painel com essa informação também a ser mostrada.
Academia
Sinto genuinamente há muitos anos que existe um divórcio entre as várias Instituições da Cidade. Coimbra tem tudo para estar na vanguarda das melhores soluções para as pessoas. Nesta questão já podia haver o pedido à Academia ou desta a proposta de soluções para melhorar. Não sei se estamos sempre uns à espera dos outros ou qual é o problema. O SMTUC não me respondeu, mas tive uma resposta do ISR que agradeço profundamente quando coloquei questões sobre a iluminação pública. O problema é de 2,4 milhões de euros anuais e não há uma boa solução. Há seguramente espaço para, com tempo, encontrar uma solução aqui de melhoria.
Conclusão
Este é uma pequena introdução a este assunto sem questões técnicas e pouco aprofundado sobre o assunto como teria de ser para não ser um artigo pesado. Faltam-me muitos elementos essenciais para poder avaliar várias variáveis essenciais. Isso não afeta o problema de fundo que é a falta de visão a curto e médio prazo de Coimbra para reduzir a pegada ambiental e reduzir os custos com energia. Coimbra não é uma ilha e os municípios têm de funcionar em rede e partilhar as suas experiências e trabalhar em conjunto. Não estamos a inventar nada. Nenhum dos locais propostos nesta fase para instalar painéis tem um desafio particular pelo que será simples perceber o que fazer e que material escolher, qual será o custo aproximado. Só temos de começar a fazer. Os problemas resolvem-se um de cada vez.
Nota
Parece-me importante referir que uma versão prévia e reduzida deste trabalho que venho a desenvolver há algum tempo foi adaptado e apresentado na 2ª Geração Coletiva no dia 29 de Janeiro de 2025 por mim em conjunto com o Miguel Dias e Maria Pereira que tive o prazer de conhecer nesse dia. No dia 5 de Fevereiro reuni-me com a Senhora Provedora do Munícipe para lhe mostrar esta minha inquietação. Devo acrescentar que não tenho qualquer motivação partidária ou outro a não ser melhorar a Cidade que me acolheu há mais de 30 anos.
Carlos Reis, cidadão de Coimbra e participante da segunda edição da Geração Coolectiva
Gostaram do que leram?
E repararam que não temos publicidade?
Para fazermos este trabalho e o disponibilizarmos de forma gratuita as leituras e partilhas são importantes e motivantes, mas o vosso apoio financeiro é essencial. Da mesma forma que compram um lanche ou um bilhete para um espectáculo, contribuam regularmente. Só assim conseguimos alcançar a nossa sustentabilidade financeira. Vejam aqui como fazer e ajudem-nos a continuar a fazer as perguntas necessárias, descobrir as histórias que interessam e dar-vos a informação útil que afine o olhar sobre Coimbra e envolva nos assuntos da comunidade.
Contamos convosco.
























