Não sou o porta voz de nenhum movimento anti-Coldplay (até simpatizo com o «Parachutes»)
e muito menos pretendo liderar qualquer oposição à política cultural do actual executivo
camarário conimbricense. Fui contactado por um órgão de comunicação social da cidade para
falar sobre a vinda dos Coldplay a Coimbra, e expressei a minha opinião.

Acho óptimo que se tragam grandes eventos para Coimbra, nomeadamente espectáculos de
música como os quatro concertos dos Coldplay. E não foi nada de novo no que diz respeito a
grandes concertos no Estádio Cidade de Coimbra. Em 2003 rejubilei com a vinda dos Rolling
Stones, em 2007 George Michael actuou por cá, em 2010 marquei presença num dos dois
concertos dos U2, em 2012 tivemos a Madonna e em 2021 dois concertos de Andrea Bocelli.

Todos estes grandes eventos colocaram Coimbra, sem dúvida, na ribalta, e são sempre boas
notícias, especialmente para a indústria hoteleira e para a restauração. Trata-se, no fundo, de
uma estratégia inteligente de promoção da cidade e do seu desenvolvimento turístico.
Mas não confundamos isso com estratégia cultural do Município de Coimbra para a nossa
cidade. Ora, foi esse precisamente o mote que a Coimbra Coolectiva lançou para discussão na
entrevista que gentilmente cedi.

E por isso é bom que se fale de factos:

  • que se tenha sabido publicamente, nenhum dos grandes concertos realizados em Coimbra no
    passado, envolveu qualquer apoio camarário, para além das contrapartidas habituais nestas
    situações (não-cobrança do aluguer do Estádio Cidade de Coimbra, isenção de taxas e licenças
    camarárias e apoio logístico);
  • o Festival Lux Interior, organizado pela Lux Records, foi apoiado na totalidade pela C.M.C. na
    primeira edição realizada em 2017 quando João Aidos era o programador do Convento São
    Francisco (as receitas de bilheteira reverteram na totalidade para a C.M.C.);
  • em 2018, já com Isabel Worm nos comandos da programação do Convento São Francisco, o
    Festival Lux Interior não foi apoiado pela C.M.C. e aconteceu em regime de partilha de receitas
    de bilheteira;
  • em 2019 e ainda com Isabel Worm nos comandos do Convento São Francisco e sabendo de
    antemão que não teria apoio camarário, a Lux Records optou por realizar a 3ª edição do
    Festival Lux Interior no Salão Brazil e no Teatro Académico de Gil Vicente;
  • em 2020 e 2021, a Lux Records optou pela não realização do Festival Lux Interior por causa
    das restrições impostas relacionadas com a pandemia Covid-19;
  • em Março de 2022, já com o actual executivo camarário e um novo responsável pelo
    Convento São Francisco, solicitamos (várias vezes) uma reunião de trabalho para a preparação
    da 4ª edição de Festival Lux Interior e estranhamente nunca fomos recebidos;
  • só em Outubro de 2022, com a chegada de Paulo Pires aos comandos do Departamento da
    Cultura e também do Convento São Francisco é que fomos recebidos, e os projectos que
    apresentámos foram merecedores de aprovação;
  • um dos projectos apresentados foi o livro de fotografias Now Here, Nowhere de Victor
    Torpedo com edição da Lux Records, e que mereceu o apoio financeiro da C.M.C. (aquisição de
    175 exemplares do livro ao preço de revenda);
  • em Novembro de 2022, a 4ª edição do Festival Lux Interior foi também aprovada para voltar
    a ser realizada no Convento São Francisco, e a pedido de Paulo Pires antecipámos a sua
    realização para o 1º trimestre do ano (as três primeiras edições aconteceram sempre entre
    Setembro e Novembro);
  • na altura fomos também informados que já não havia fundos no orçamento de 2023 para a
    cultura, e por isso o Festival Lux Interior não seria apoiado financeiramente pela C.M.C.;
  • na Lux Records acreditámos nos ventos de mudança que a liderança de Paulo Pires prometia,
    e por isso concordámos com a realização da 4ª edição de Festival Lux Interior em regime de
    partilha de receitas de bilheteira do Convento São Francisco;
  • foi com surpresa que já em 2023 ficámos a saber pelos órgãos de comunicação social que a
    empresa produtora dos concertos dos Coldplay seria apoiada com a verba de 440.000€ pela
    C.M.C., a mesma empresa que lucrou com as receitas dos bilhetes que esgotaram muitos
    meses antes e em poucas horas;
  • a 4ª edição do Festival Lux Interior aconteceu entre 17 e 19 de Março de 2023 no Convento
    São Francisco, com 5 projectos musicais sediados em Coimbra, e um sexto com edição
    discográfica de uma editora local;
  • hoje, dia 29 de Maio de 2023, ainda não recebemos a nossa percentagem da receita de
    bilheteira do Festival Lux Interior;
  • não se trata de um apoio ou de uma prestação de serviços, trata-se da devolução de uma
    percentagem da receita de bilheteira que efectivamente entrou nos cofres camarários até dia
    19 de Março de 2023.

    Na base do artigo da Coimbra Coolectiva estava o impacto dos concertos dos Coldplay na cultura da nossa cidade, e parece-nos clara a resposta. Se o apoio da C.M.C. à empresa produtora dos concertos dos Coldplay tivesse tido como contrapartida que um, dois ou até mesmo quatro artistas de Coimbra tivessem a oportunidade de se apresentarem para 50 mil espectadores diários, então sim poderíamos estar a falar de um apoio efectivo ao meio cultural da cidade. Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

    Os 5ª Punkada, banda de utentes da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra e que inclui dois artistas do catálogo da Lux Records, dias antes dos concertos dos Coldplay em Coimbra iniciaram uma petição nas redes sociais para terem a oportunidade de conhecerem ao vivo a banda britânica. Coincidência, ou não, dois dias depois da publicação do artigo da Coimbra Coolectiva, a C.M.C. intercedeu junto da produção dos espectáculos para que os 5ª Punkada tivessem a oportunidade única e inteiramente merecida de tocar uma canção com os Coldplay.

    Em jeito de conclusão, e citando autor desconhecido, só nos resta acrescentar que «ou há democracia ou comem todos».


Bem hajam.

Rui Ferreira é fundador da Lux Records, programador e organizador do Festival Lux Interior e programador e co-organizador do ciclo A Date With Lux no Teatro Académico de Gil Vicente.

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