É possível misturar o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, Lota de Macedo Soares e a sua companheira Elizabeth Bishop com o plano de renovação para a nova Estação Intermodal de Coimbra? No meu entender sim e essa costura pode revelar-se surpreendente, para não dizer mesmo poética. Na semana em que teremos mais uma oportunidade de ter uma voz para fundamentar nossas aspirações para Coimbra (está a ser feito um inquérito geolocalizado e acontece no sábado um encontro para co-desenhar a cidade através de uma nova ferramenta de design participativo), quero contar-vos uma história que aconteceu no Brasil, há mais ou menos setenta anos.
Em 1951, a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop viajou para o Rio de Janeiro para visitar uma amiga, a bailarina Mary Stearns Mors, casada com a brasileira Lota de Macedo Soares – uma excêntrica senhora que nunca frequentou a universidade, mas tornou-se, mesmo assim, um dos grandes nomes da arquitetura mundial, como paisagista e urbanista autodidata. Na casa delas, Bishop ficou espantada ao descobrir que, afinal, a nut Caju era uma fruta suculenta, mas provou e teve uma reação alérgica terrível. Ficou bem mal, hospedada na casa das duas e foi tão bem cuidada que se apaixonou pela anfitriã, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares – conhecida por Lota.

As mulheres não poderiam ser mais diferentes (sim, um amor assim pode dar certo). Lota nasceu em berço de ouro, estudou na Europa, fazia parte da alta sociedade carioca, passava férias a tirar cursos no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Bishop era Bishop. Bebia muito e escrevia muito, inquieta e errante, cheia de problemas. Mas é por causa dos escritos dela, uma das maiores epistológrafas da literatura americana, que viemos a saber como foi pensado, cuidado e criado um dos maiores parques urbanos do mundo que tem, na sua essência, a preocupação com as pessoas – e é por aqui que vou chegar em Coimbra, mas calma.
Durante esta história de amor, foi concebido o parque Aterro do Flamengo, aos pés da Baía de Guanabara do Rio de Janeiro, que eu considero um poema urbanístico. Foi Lota quem o criou. O governador do Rio a contratou e pediu um projeto para albergar oito pistas expressas para carros com o objetivo de desafogar o futuro trânsito da cidade. Lota aceitou o contrato e, de seguida, escreveu a ele dizendo:
«O maior inimigo da beleza e do conforto de uma grande cidade é o automóvel. As pistas cada vez mais largas, os estacionamentos cada vez maiores vão destruindo rapidamente os edifícios antigos, as travessas estreitas, os jardins, os becos, as tortuosas ruas que desembocam inesperadamente em pequenas praças e que dão à cidade aquele elemento de surpresa e de originalidade que a distingue das outras. Você fica com essa porcaria desse negócio de esgoto, de água e não sei o quê, você pensa que alguém vai se lembrar de você por causa disso? No dia em que puxarem a descarga da privada e sair água, ninguém vai se lembrar de você; quando o sujeito tiver filho na escola, nunca mais se lembrará que essa escola foi feita por você. Água e escola são fatos naturais que todo governo tem obrigação de fazer. A única coisa de que vão lembrar é que você fez o Parque Aterro do Flamengo.»
Era assim que Lota mostrava como trabalharia a ideia original da obra, transformado-a numa ousadia urbanística.


Pistas (horrorosas) de automóveis viraram uma área verde de 1,2 milhão de metros quadrados com 17 mil árvores, uma façanha que grita preocupação genuína com o espaço público e desejo de reconciliar a cidade e seus habitantes. Lota foi a regente de uma orquestra que incluiu Affonso Reidy no urbanismo, Burle Marx no paisagismo e a educadora Ethel Bauzer Medeiros, responsável pelas áreas de lazer para crianças.
Sob a batuta de Lota, o parque, inaugurado em 1965, virou uma crítica à forma como as cidades se desenvolvem idolatrando a máquina. Ela lutou com unhas e dentes pela recreação ativa da população numa experiência urbana completamente diferente: «Neste mundo de hoje, em que se pensa tão pouco no indivíduo, na criatura humana de carne e osso […] parece que o Aterro é obra urgente e inédita: cuida tanto da beleza e conservação da paisagem, quanto da utilidade dela, põe as necessidades do homem diante das reivindicações da máquina, ousa oferecer ao pedestre, pária da idade moderna, o seu quinhão de sossego e lazer.»
As passarelas do Parque deram muita luta. Nunca eram aprovadas com a desculpa de que Lota as encarecia por capricho. Ela falava: Não, mas a pessoa tem que ver o parque, ver o mar, ver a cidade. Antes dela, os pedestres atravessariam as pistas por passagens subterrâneas (e algumas chegaram a ser construídas). Só que, para Lota, os carros não podiam passar por cima da cabeça das pessoas. As pessoas é que tinham que ser elevadas. Lindo, não?
Como este artigo é para Coimbra, não posso terminá-lo sem uma citação académica… Em 2018, a historiadora Silvia Ilg Byington defendeu a sua tese de doutoramento intitulada «No coração da cidade. Memória, poesia, arquitetura e as narrativas sobre o Parque do Flamengo (1950 – 1960)». O trabalho assinala o papel da participação política da população na construção das suas cidades e que foi materializado pela Lota no Parque Aterro do Flamengo. No Resumo, Silvia diz que «imaginar a cidade é ato poético, político e ético de seus habitantes, sempre um intercâmbio entre a dimensão subjetiva e a dimensão social. É a forma moderna de habitá-la, construí-la como cidade metafórica a conectar a experiência fugaz, fragmentária e conflituosa da experiência metropolitana a alternativas possíveis de como as coisas poderiam ser».
Está em curso o processo de elaboração do Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra. Enquanto comunidade, podemos dar um contributo efetivo para a sua elaboração. É a oportunidade única que temos de fazer cidade.
Vilma Reis é jornalista, brasileira e vive em Coimbra
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