O alargamento da zona de intervenção do Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra à frente ribeirinha é uma conquista fundamental para a cidade, que pode finalmente encontrar uma solução para suturar o vazio urbano que fractura a sua relação com o rio.
Aberta a discussão, e com o intuito de estimular o debate de ideias, este artigo propõe uma estratégia de ocupação alternativa para a zona – a criação de um Bairro Tecnológico Urbano que transforme a ARU (Área de Reabilitação Urbana) Coimbra-Rio num epicentro de inovação e dinamismo.
22@ Barcelona
O lamento é antigo, vivemos em Coimbra, uma cidade fantástica que forma mas não fixa. Foi este o mote que, no início da década passada, motivou a reflexão com que terminei o curso de Arquitectura. Foquei-me em compreender e comparar as estratégias urbanas traçadas por Coimbra para fixar mão-de-obra qualificada e atrair empresas fora dos setores tradicionais em que a cidade se especializa, nomeadamente na economia do conhecimento.

O percurso leva-me a Barcelona, onde o antigo bairro industrial de Poblenou é revitalizado através da criação de um distrito tecnológico. A decisão apoiou-se num estudo multidisciplinar (“La ciudad digital” Oliva&Barceló, 2002), que analisou 21 parques internacionais sediados em cidades com as mais distintas características morfológicas, para concluir que o sector das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), inicialmente desenvolvido em pólos empresariais periféricos, evoluiu para o centro urbano, o seu habitat natural.
Este carácter eminentemente urbano faz com que as empresas se prefiram estabelecer nos centros de decisão em detrimento dos centros de produção, apostando na qualidade de vida inerente para atrair talento e investimento. À parte da centralidade, a configuração destes bairros requer um sistema de mobilidade eficiente, atividade 24/7, flexibilidade de espaços, uma rede de infraestruturas urbanas avançadas e centros I&D com presença ativa das universidades locais.
Para atrair empresas e mão de obra qualificada, a cidade tem que se reposicionar e adaptar as suas zonas nobres para receber um novo padrão de indústria não poluente, perfeitamente integrável com todos os agentes urbanos.

O caso do iParque
Por oposição, e com uma década de atraso em relação ao 22@, Coimbra projeta o seu parque tecnológico (o iParque) na periferia da cidade, sem transporte público e com uma rede de infraestruturas tradicional, remete a construção de equipamentos públicos e habitação para uma fase posterior do plano – que não realiza – e instala um business center sem presença ativa da universidade. A experiência resulta num território programado para horário laboral, isolado e pouco atrativo, e na consequente fraca dinamização do investimento.
A falha está no conceito, a falta de definição do tipo de atividades a captar levou à criação de um modelo desajustado, adaptado ao sector secundário, que por sua vez encontra nos municípios vizinhos critérios e, sobretudo, custos mais competitivos para se estabelecer.
O iParque, pela sua posição e investimento, é um parque industrial de excelência. E se é verdade que o perfil de empresas a atrair por cada um destes modelos é distinto, ainda que complementar, torna-se essencial clarificar a mensagem numa política de gestão urbana unificada.
Previsivelmente, o sector das TIC rejeitou o IParque e migrou para a Baixa. No entanto, porque o fez sem beneficiar de uma estratégia concertada, através de uma ocupação espontânea e dispersa, levantam-se agora barreiras técnicas que limitam o potencial de crescimento de todo o ecossistema.
Identificar um padrão
No entanto, o iParque não é uma experiência única no contexto da política urbana local. Se retrocedermos para analisar o espaço físico universitário concluímos que não é mais que um reflexo dos “três Polos Universitários de Coimbra (…) “monstruários” arquitectónicos que não conseguiram fazer cidade” (1).


No Pólo I encontramos uma “cidadela especializada que por não se deixar contaminar, está dentro da cidade mas não faz parte dela” (2). Uma “nova “cidade”, talvez, mas cristalizada e monofuncional, como a conhecemos ainda hoje” (3).
O Pólo II é “um problema que a universidade criou à cidade, e levará muito tempo e dinheiro a solucionar. O problema está na separação física entre ambas, e na ideia que a Universidade deve crescer em “terreno virgem” nas margens da cidade, lá longe”(4). Como explicam os autores do plano, “A concretização dos programas de comércio e de habitação e a construção das praças públicas e dos espaços verdes, é entretanto indispensável para o sucesso do modelo proposto, que se baseia numa vida urbana que só a complexidade de usos permite” (5). No entanto este programa complementar nunca é realizado, o que gera mais um fragmento monofuncional que não é absorvido nem integrado na cidade, desta vez na sua periferia.
O Pólo III, embora restringido por condicionantes de localização, encontra-se uma vez mais segregado da cidade – até por via do seu acesso insólito – sendo que “nada o parece distinguir das precedentes experiências universitárias” (6). “A universidade não cresce com a cidade e, por isso, pode dividir-se, provando que um mal nunca vem só” (7).
São premissas estratégicas decalcadas a papel químico para o plano do iParque. Esta proliferação de novas polaridades suburbanas, dispersas e isoladas, incapazes de gerar sinergias, encontros de talento e explosões de criatividade, são uma constante transversal na relação entre universidade e cidade.

Bairro da Estação
Os méritos da nova proposta do Arq. Joan Busquets (PPEIC) são inegáveis, tal como é o seu ponto de partida. A estação estende a transformação à cidade, e a aposta na mobilidade destaca-a de todas as experiências anteriormente citadas.
No entanto, e com a introdução de um novo hub empresarial, não estaremos novamente a forçar uma centralidade suburbana demasiado ambiciosa? Estará o sector tecnológico disposto a abdicar da proximidade ao centro para se implementar nesta nova periferia? Mais importante, não estará a cidade a desperdiçar a última oportunidade para ativar o seu centro urbano?
Lições e desafios
Durante a investigação, destaquei 3 case-studies para antecipar desafios que Coimbra poderá vir a enfrentar numa fase de implementação de um parque tecnológico urbano na baixa ribeirinha. Tratam-se de exemplos com características muito distintas, mas que contribuíram para consolidar boas práticas e evitar barreiras transversais na criação do 22@.
Cyberdistrict, Boston – infraestrutura técnica: Sem que o governo local tenha antecipado, o sector privado identificou a oportunidade de se estabelecer na zona e a ocupação aconteceu de forma espontânea. Contudo, a falta de infraestruturas de telecomunicações num dos bairros mais antigos e centrais da cidade tornou-se um obstáculo permanente.
Silicon Fen, Cambridge – transporte e qualidade de vida: Enfrentou dois grandes desafios: uma infraestrutura de mobilidade inadequada, dentro de uma malha histórica que não foi redimensionada, o que causava problemas de tráfego constantes; e a fraca atractividade residencial do seu centro urbano.
Soft Center, Ronneby – universidades e centros I&D: Um caso particular de um parque tecnológico que se extingue após a universidade relocalizar o seu polo para uma cidade vizinha. A decisão é precipitada pelo encerramento do centro de I&D da Ericsson, quebrando a sinergia entre produção e ensino.
Work, Play & Live
Na competição por investimento, levam vantagem as cidades que se reinventam focadas na melhoria dos padrões de qualidade de vida. Seja na atracção de alunos, mão de obra qualificada, ou residentes, as nossas universidades, empresas e cidades têm que convergir para evoluir, colectivamente.
Coimbra tem-se empenhado em superar os desafios outrora enfrentados por Cambridge, seja no campo da mobilidade, com a recuperação do projeto do Metrobus; ou da atractividade do centro, através da revitalização lúdica e cultural dos equipamentos, parques e espaços públicos da zona ribeirinha.

Previsivelmente, o sector das TIC rejeitou o IParque e migrou para a Baixa. No entanto, porque o fez sem beneficiar de uma estratégia concertada, através de uma ocupação espontânea e dispersa, levantam-se agora barreiras técnicas que limitam o potencial de crescimento de todo o ecossistema.
Atingimos o ponto em que a atracção de empresas para o centro gera o embaraço de não termos onde as acolher, a que se seguirá, inevitavelmente, a discussão sobre a falta de preparação infraestrutural dos espaços disponíveis para o efeito.
Para criar um laboratório vivo capaz de testar e exportar soluções inovadoras para o mundo, precisamos de edifícios de escritórios adaptados, flexíveis, apoiados por uma infraestrutura urbana avançada. Não podemos exigir que as empresas operem em exclusivo sobre a rede medieval de um centro histórico e, ao mesmo tempo, esperar que alcancem todo o seu potencial.
Estas indústrias actuam como catalisadores urbanos: optimizam recursos, reforçam a conectividade, alinham-se com os novos critérios de mobilidade, criam sinergias para reter talento e contribuem para cidades mais inclusivas, diversas e resilientes. E, neste caso específico, podem também servir de ponte entre a cidade e o rio.
Não menos importante é a necessidade chamar as universidades ao Bairro, seja através de centros I&D ou na integração de uma agência de gestão independente, que sirva como pivô entre actores. “Um” (ou o) IPN a instalar-se, por exemplo, no edifício da estação Coimbra-A, que poderá assim recuperar a sua missão estratégica de ligar a cidade ao mundo.
Mas que se vá mais longe – um novo alargamento do plano à margem esquerda permitirá repensar a localização dos SMTUC e reclamar, através da expansão urbana, o Mondego em toda a linha.
Termino, portanto, com a seguinte questão: se temos finalmente a oportunidade de criar impacto na frente rio, como é que a pretendemos ocupar?
Por Guilherme Murta, arquitecto
Notas bibliográficas:
1- GRANDE, Nuno, ‘3 pólos universitários, 3 “faces” da arquitectura portuguesa’, Rua Larga , Universidade de Coimbra. n.º 29 (Coimbra, 2010).
2- BERNARDINO, Raquel, ‘Coimbra: Arquitetura e Poder – Três Pólos Universitários, três episódios na Cultura Arquitetónica Portuguesa’, (FCTUC, Departamento de Arquitetura, 2013), pág. 141.
3- GRANDE, Nuno, Op. Cit. pág. 62.
4- GOMES, Paulo Varela, ‘Salamanca: comentário.’ em GRANDE, Nuno; LOBO, Rui, ‘CidadeSofia’, Edarq, (Coimbra, 2005) pag. 38-41.
5-VIEIRA, Mercês; CORTESÃO, Camilo, ‘O Pólo II da Universidade de Coimbra: desenho urbano e integração na cidade’ ’em GRANDE, Nuno; LOBO, Rui, ‘CidadeSofia’, Edarq, (Coimbra, 2005).
6-GRANDE, Nuno, Op. Cit. pág. 63.
7-COSTA, Alexandre Alves, ‘Textos Datados’, Edarq, (Coimbra, 2007).
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