Parece ser simples, quando se fala de cidade e de solução, a primeira coisa que me ocorre é que a melhor solução é a cidade em si mesma. Sim, esta inovação, que conta já com cerca de uma dezena de milénios, continua a surpreender-nos, dada a sua capacidade de «solucionar» alguns dos nossos maiores problemas. Não cabe aqui elencá-los todos, não cabe literalmente, mas é possível sublinhar apenas alguns dos mais evidentes.

A cidade corresponde ao modo de habitar mais gregário, as formas de regulação dessa vivência começaram a ser definidas há milénios e ainda continuam em permanente afinação. Essas formas determinam os protocolos de entendimento entre os indivíduos e entre estes e a comunidade, algumas delas vivem connosco, usamo-las tão naturalmente como respiramos. Não admira, por isso, que ainda hoje tenhamos de associar etimologicamente a palavra que designa a mais genérica dessas formas de regulação — a política — à cidade.

«Actualmente estudam-se medidas de adaptação das estruturas existentes à sustentabilidade energética e/ou à energia zero. Essa adaptação também se torna muito mais produtiva se, em vez de ser realizada casinha a casinha como frequentemente se vê, for pensada e implementada nas estruturas urbanas, quarteirões, edifícios colectivos, espaços públicos, ruas e praças.»

José António Bandeirinha, arquitecto e professor

Mas a cidade é também conhecimento, são os pensadores mais antigos que o realçam. Desde sempre a proximidade espacial e comunicacional promoveu e ampliou a curiosidade intelectual e a busca de respostas para as mais intrigantes questões. É certo que, hoje em dia, a necessidade dessa proximidade física já não é tão condicionante, mas a vida e a cultura urbanas continuam a estimular a abertura ao outro, a compreensão, o diálogo, a tolerância da diferença, a necessidade e a vontade de saber mais sobre o que nos rodeia.

Ora, mesmo de um ponto de vista ecológico, a cidade é um processo que vem sendo cuidadosamente elaborado para dar respostas sustentáveis, quer no plano ambiental, quer no económico. Porquê? Primeiro, porque o espaço que ocupamos é um recurso natural, como qualquer outro, e os modos de ocupação do espaço na cidade, desde que convenientemente estudados e organizados, são muito mais parcimoniosos que as alternativas existentes — os subúrbios metropolitanos. Quanto mais organizarmos o nosso habitat, mais recursos poupamos, mais espaço se liberta para a expansão dos elementos naturais, para a biodiversidade. A mobilidade também se torna menos agressiva do ponto de vista ambiental, uma vez que é mais fácil organizar as deslocações de um modo coletivo e descarbonizado.

Actualmente estudam-se medidas de adaptação das estruturas existentes à sustentabilidade energética e/ou à energia zero. Essa adaptação também se torna muito mais produtiva se, em vez de ser realizada casinha a casinha como frequentemente se vê, for pensada e implementada nas estruturas urbanas, quarteirões, edifícios colectivos, espaços públicos, ruas e praças.

Em segundo lugar, do ponto de vista económico o espaço organizado, um pouco mais compactado, pode minimizar os gastos em infraestruturação, reduz o desperdício nas diversas redes de comunicação, abastecimento e de drenagem, nos serviços de transporte em comum, tudo contribui para investimentos mais sustentáveis do que no espaço suburbano mais disperso e frequentemente desorganizado, pelo menos no caso português.

«Agora mais do que nunca, é necessária uma ecologia das cidades, para nos ajudar a resolver os problemas que surgem nos seus espaços sem nunca a pôr em causa, enquanto estrutura eminentemente política, ancestralmente significante e actuante como solução.»

José António Bandeirinha, arquitecto e professor

Postas as coisas nestes termos, com tantas evidências, como dizem na televisão de Lisboa, parece portanto simples afirmar que a solução é a cidade. Mas atenção, uma coisa é considerarmos a cidade como solução, outra coisa, completamente antagónica, é andarmos à cata de soluções, no plural, para a cidade. Não porque a cidade, como solução que é, não necessite também de soluções parcelares para resolver determinados problemas, mas sim porque essas soluções parcelares não devem, não podem nunca, perder de vista a cidade como um todo integrado. E não só no plano das transformações materiais, na construção de edifícios, no arranjo de espaços públicos, nas ampliações que necessita, quando se pensam soluções específicas para determinados problemas pontuais não devemos nunca afectar a própria ideia de cidade.

É tarefa difícil, porque actualmente a cidade passa por uma crise que é, em primeira instância, uma crise de identidade, ou ontológica, se quisermos. Também não cabe aqui explanar as razões dessa crise, o que importa é perceber que algumas pequenas soluções, que parecem resolver pontualmente problemas das pessoas que vivem nas cidades, se não forem pensadas em harmonia com a ideia de cidade, poderão afectar indelevelmente a grande solução. Por isso, agora mais do que nunca, é necessária uma ecologia das cidades, para nos ajudar a resolver os problemas que surgem nos seus espaços sem nunca a pôr em causa, enquanto estrutura eminentemente política, ancestralmente significante e actuante como solução.


José António Bandeirinha é arquitecto, professor catedrático do Departamento de Arquitectura Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais

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