Sinto-me no dever de alertar que o que se segue é apenas uma opinião e que, como tal, carrega o peso da minha experiência. Caberá ao leitor dar-lhe a importância que entender. É tão somente a perspectiva de alguém que evita perder-se no comodismo das queixas e lamúrias. Alguém que quer fazer parte da solução e não do problema — o que muitas vezes se materializa no envio de um simples e-mail de feedback. Por isso, foi com ânimo que aceitei o convite da Coolectiva para escrever este artigo. Nele não há -ismos, políticas ocultas ou ataques a estruturas organizacionais. Há desafios e sugestões. Peço-vos, portanto, que o leiam tal qual como ele é: um ponto de vista de alguém que, ao opinar, está a assumir a sua responsabilidade no que há para mudar.

Começo por dizer que faço parte dos que, nascidos e criados em Coimbra, jamais ousariam ter a vida académica noutro lugar senão na cidade que nos ensina que a Saudade não se explica, não se traduz; sente-se. Faço também parte dos que, findo esse tempo, fugiram daqui.
Tudo era sufocante, demasiado pequeno. As pessoas eram as mesmas, já conhecíamos todas as ruelas onde ecoámos “Éfe-érre-ás”, deixámos de pedir os menus nos restaurantes por já os sabermos de cor e salteado..! E se por breves instantes nos passasse pela cabeça ficar, até porque os nossos pais diziam que “Coimbra é óptima para criar família”, ainda que não estivesse nos nossos planos tal desígnio, faltavam-nos as oportunidades de trabalho.

A pandemia fez-me regressar e, por uma série de acontecimentos que os mais crentes chamarão de destino, Coimbra passou a ser lar outra vez. Passei então a fazer parte dos que regressaram, ainda que jurassem a pés juntos nunca (mais) o fazer. Dos que, munidos de argumentos para responder a quem se ouse rir da nossa decisão, disparam a lista de iniciativas que vão acontecendo, porque “agora em Coimbra passam-se coisas”. Ainda que, na sua maioria, nem participemos; por preguiça ou certamente por termos conhecimento delas já bem depois de terem acontecido.

Foi o que quase me aconteceu com o Coimbra Invest Summit, que decorreu no Convento de São Francisco nos dias 9, 10 e 11 deste mês. Uma semana antes, interessada em envolver-me no ecossistema da minha área de trabalho (tecnologia), decidi inscrever-me.
Note-se que, apesar de o dia 9 constar do programa oficial publicitado, só no dia 10 é que o evento recebeu o público geral registado. Assim sendo, à hora marcada, apresentei-me naquele que é um dos maiores equipamentos culturais da região centro e cuja imponência—e tinta que fez escorrer com os seus episódios de atrasos e derrapagens orçamentais—merece todos os esforços que têm sido feitos (e mais!) para o aproveitar.

Este evento prometia “unir os pontos”, mas que pontos, exatamente?

Fiz o exercício: Que sessão ou stand é relevante se eu quiser investir? E se estiver à procura de financiamento para a minha ideia, start-up ou PME? Uma coisa é certa, este não era evento para estrangeiros (a menos que dominassem a língua portuguesa). Que benefícios podemos retirar do evento que quer “posicionar Coimbra no radar dos investidores e agregar o ecossistema empreendedor e inovador existente no concelho”? Senti que a nossa presença acrescentou valor a essa ambição, mas que saímos sem colher frutos do que ajudámos a plantar.

O painel de abertura era constituído exclusivamente por homens, e, sessão após sessão, foi desanimador ver uma representação feminina tão baixa.

Tendo em conta a edição do ano passado, 50% dos participantes destacaram a mostra de empresas como o que mais gostaram. Um número demasiado significativo para o pouco cuidado que senti ter sido empregue nessa parte este ano.
? Mais do que definir claramente, é preciso comunicar de forma eficaz o objetivo do evento e o seu público-alvo. Sem floreados, expliquem: porque devo participar?
? Além disso, organizar o espaço e a agenda em torno de dois vetores—oferta e procura—pode trazer melhores resultados.

Não saber quem da audiência era estudante, empresário ou investidor tornou impossível a tarefa de iniciar conversas produtivas.
Imaginem escolher alguém ao acaso e perguntar “Então, o que o traz aqui?”, arriscando levar com a piadola “o carro”, seguido de um momento de profundo constrangimento. Ainda me cruzei com um corajoso que tentou quebrar o gelo ao ver que o sumo tinha acabado: “parece que as pessoas estão com sede”. Pois…
Temos de ser realistas: o mundo mudou. Ainda estamos a aprender a navegar no pós-COVID-19, que transformou radicalmente a forma de fazer networking. O respeito pelo espaço pessoal, o momento e a forma de abordagem nunca foram tão cruciais.
? Seria interessante incluir sessões que facilitassem a interação (mesas redondas, focus groups — há tantas dinâmicas possíveis!). Mas isso exige identificar o propósito da participação logo no momento do registo, de forma a facilitar posteriormente a organização dos participantes em grupos de discussão relevantes.

O painel de abertura era constituído exclusivamente por homens, e, sessão após sessão, foi desanimador ver uma representação feminina tão baixa. Dos 19 oradores e moderadores, apenas 5 eram mulheres (79% e 21% para quem prefere estatística). Esta análise não pretende desvalorizar os representantes oficiais presentes—era impensável que não comparecessem—mas tinham de ser eles em palco?

Eu percebo, a sério que percebo; Coimbra, profundamente enraizada nas suas tradições académicas, casa da universidade mais antiga de Portugal, ainda dá muita importância a títulos e formalidades institucionais. Este legado moldou a identidade da nossa cidade durante séculos, e eu respeito isso. Mas estamos em 2024, num evento de tecnologia, um setor onde a paridade de género já não é apenas desejável, mas necessária.
? Não me interpretem mal: não estou a pedir caridade. Defendo a meritocracia e a igualdade de oportunidades. E é por isso que desafio estas instituições e empresas a dar palco e voz (literalmente) às mulheres que, a julgar pelo que as entidades proclamam sobre o aumento da representação feminina em todos os níveis da sua estrutura, se espera que já ocupem cargos de liderança.
? À organização do evento, sugiro, caso ainda não o façam, que enderecem os convites às entidades em vez de a pessoas e que assumam um papel ativo na garantia de uma representação equilibrada.

Não posso terminar sem expressar a minha sincera admiração pela logística impecável do evento. Embora outras estratégias precisem de ser repensadas, é importante reconhecer que essa necessidade surge da coragem de quem se empenhou em fazer acontecer. E a essas pessoas, deixo o meu profundo agradecimento…porque é preciso investir em Coimbra!

Alexandra Bigotte de Almeida é natural de Coimbra e iniciou a sua jornada cívica aos 6 anos. Foi dirigente associativa, empreendedora social e geriu projetos de organizações internacionais. Após 8 anos a viver fora, regressou à nossa cidade. Hoje, é Mulher na Tecnologia, promotora do respeito no trabalho e da saúde mental, e partilha conteúdos.

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Jornalismo de soluções, Coimbra.

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