No dia 14 de janeiro de 2023, a Coimbra Coolectiva lançou a Geração Coolectiva, uma iniciativa de geração de ideias e capacitação cívica destinada a sonhadores-fazedores que querem fazer acontecer as suas ideias para transformar o lugar em que vivem.

Foi um dia magnífico! Num espaço mágico do edifício da antiga Coimbra Editora, juntaram-se mais de 120 pessoas e, organizados em grupos, começaram a trabalhar para tornar as suas ideias uma realidade.

Muitos participantes neste primeiro dia da Geração Coolectiva inscreveram antes as suas ideias, porém, muitos outros apareceram sem ideias, isto é, apareceram sem inscreverem antes ideias, mas levaram consigo a sua vontade de transformar Coimbra e a sua energia para colaborar em projetos com esse mesmo objetivo. Assim, a Coimbra Coolectiva integrou esses participantes “sem ideias” em diferentes grupos de trabalho, organizados em função de ideias ou de temas antes inscritos para transformar
Coimbra.

De forma inocente ou apenas porque não sabia o que fazer com tantas pessoas “sem ideias”, a Coimbra Coolectiva criou, pelo menos, um grupo com estas pessoas que “apenas” querem
construir coletivamente uma Coimbra melhor.

Como era de esperar, quando as pessoas deste grupo se começaram a sentar à volta da mesa de trabalho que lhe foi disponibilizada, elas lá se iam apresentando e diziam:

– Eu inscrevi-me na Geração Coolectiva, mas vim sem uma ideia!

– Eu também!

Foi aí que tudo começou… e não podia ser mais “simples”.

Não é que havia outro grupo que estava a explorar uma ideia, antes proposta, com semelhanças com a ideia que este grupo começou a explorar? E não é que nesse mesmo grupo “eu também” era a raiz da ideia apresentada? Na verdade, o que aconteceu é que todos os membros destes grupos partilharam convictamente que acreditam que os melhores bairros de uma cidade são bairros amigáveis, são bairros pensados com as pessoas. Assim, com esta coincidência de ideias, todos lançaram ideias convergentes para a discussão.

Ideias como um “simples” sorriso simpático, um “bom dia” alegre ou um “olá” caloroso
poderem fazer toda a diferença entre um dia enfadonho e dececionante, e um dia bom, um dia
diferente.

Ideias como sensibilizar para a importância de não ocupar passeios com automóveis, para garantir que todas as pessoas possam caminhar confortavelmente e em segurança.

Ideias como plantar e apadrinhar árvores em caldeiras vazias nas ruas da cidade.

Ideias como recolher lixo e depositá-lo nos contentores de recolha.

Ideias como criar espaços lúdicos para as crianças e outras.

Foram muitas as ideias que surgiram para exemplificar as melhorias que podem ser feitas em Coimbra, com as pessoas. Melhorias no espaço físico da cidade, é certo, mas também melhorias que resultam do reforço da relações entre as pessoas, da sua cooperação e incluindo entidades do setor público ou do setor privado.

Com o ritmo de vida tão apressado que temos no nosso dia-a-dia, é comum sentirmos que a nossa vida é constituída apenas pelo que nos faz correr e raramente nos lembramos que somos criaturas sociais.

Mas não é.

A nossa vida é constituída por muito mais do que aquilo que nos faz correr todos os dias e, na verdade, até sabemos isso a todo o momento, que a nossa vida não é apenas o que nos faz correr. Sabemos que aquilo que nós somos – e como somos – é o resultado de uma construção que se desenrola, inevitavelmente, nos espaços em que nos movimentamos. Sejam domésticos, privados, públicos, naturais ou urbanizados, os espaços em que nos deslocamos, vivemos ou visitamos, são sempre o palco da construção de nós próprios. Por isso é que, para se descrever a si próprio, Jorge Luís Borges dizia que: «Soy todos los autores que he leído, toda la gente que he conocido, todas las mujeres que he amado. Todas las ciudades que he visitado, todos mis antepasados…»

Como criaturas sociais que somos, procuramos espontaneamente espaços onde possamos conviver confortavelmente uns com os outros, ou seja, procuramos espaços onde a dimensão pública da nossa vida possa ter lugar, e esperamos, para isso, encontrar espaços confortáveis, seguros e agradáveis.
Não precisam ser espaços mágicos ou espaços grande. Podem nem ser muito elaborados.
Podem ser espaços simples. Por vezes, uma simples árvore pode ser o suficiente para criar
um lugar desses, assim como uma mesa ou um banco, mais ou menos improvisados, podem
criar um lugar para conversarmos uns com os outros e contarmos histórias que nos
acompanham ao longo da vida.

Pois bem, a espontaneidade com que desejamos encontrar espaços agradáveis para dar
palco à dimensão pública da nossa vida, deve-se ao facto de o encontro ser essencial para o
futuro da espécie humana tal como a conhecemos.

Porquê?

Porque o encontro entre as pessoas poder gerar benefícios inimagináveis, como, por exemplo, resolver problemas comuns, criar negócios, partilhar mágoas e abraços de conforto, contar histórias e ensinar o que sabemos… ou dar vida a um amor. Assim, em tese, quanto mais oportunidades de intercâmbio houver, mais rica e mais satisfatória pode ser a vida para as pessoas como membros de uma comunidade. Portanto, não basta dizer apenas que Coimbra parou no tempo e que temos ideias para
melhorar os espaços (em) que vivemos. Vamos deixar de ser apenas críticos e vamos arregaçar as mangas? Vamos dizer “eu também”? Vamos mudar Coimbra?

Foi com esta energia e com esta vontade de mudar Coimbra, que nasceu o coletivo EU TAMBÉM. Nasceu a partir de sementes lançadas na iniciativa Geração Coolectiva e começou a organizar-se nas sessões de capacitação que decorreram depois na Nest Collective e terminaram no dia 22 de fevereiro.
A missão que o EU TAMBÉM se propõe cumprir baseia-se na convicção de que viver melhor,
é em conjunto e numa cidade vibrante. Para isso, o método adotado passa por estimular a
cidadania ativa, com o envolvimento das pessoas, procurando, para isso, promover o encontro de ideias, porque construir um lugar é construirmo-nos.

É com este espírito e com a missão de construir uma Coimbra melhor que nos lançamos para
o seu futuro.
E vocês?
Também?

Adelino Gonçalves é arquitecto e professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Share.

Jornalista

Comenta esta história