Imaginem uma arma capaz de mudar a lei. Uma arma capaz de movimentar milhões de euros, construir habitação, fechar fronteiras ou lutar pelos direitos humanos. Imaginem uma arma que consegue baixar e subir impostos, proteger-nos ou pôr-nos mais vulneráveis perante as alterações climáticas. Uma arma poderosa, uma arma por quem minorias já lutaram anos (e lutam ainda hoje, noutros pontos do globo). Agora imaginem que todos nós, no nosso país, temos livre acesso à nossa arma aos 18 anos, mas alguns, dependendo do local onde vivem, têm uma arma sem balas.
Parece injusto, mas este país que arma jovens adultos com direito de voto, distribui-os de forma a condenar uma boa parte da população a escolher entre dois partidos se não quiser desperdiçar a sua arma com tiros em branco. E se durante anos vivemos um ambiente político propício a não considerar muito estas coisas — a alternância democrática exibia-se só entre os dois partidos do centro que aprovavam as maiorias relativas um do outro, se fosse caso disso—, a geringonça mostrou-nos o peso de partidos com menos assento parlamentar. Não obstante, votar nalgum partido com menos votos na região de Coimbra significa o mesmo que votar em branco — não tem expressão, não tem impacto, não elege ninguém, não me representa.
Tenho a sorte de ter grupos de amigos onde se discute política e com abertura falamos sobre horas sobre o que está mal e sobre quem parece ter a chave para melhorar. Nos últimos meses, a maioria parecia-me como eu muito indecisa. Além de não me sentir especialmente representada em nenhum partido político, várias vezes decidi que não conseguia arriscar permitir possíveis acordos com partidos que são a imagem de tudo o que não quero para o meu país e democracia.
Que triste estar condenada a votar ao centro para o meu voto não ir para o lixo, pensei. Isso tem peso no meu voto, e não devia. Eis que surge a ideia que mando para uma dessas mesas de discussão: estou capaz de trocar de voto. Amigos que votam em Lisboa que estejam decididos a votar ao centro, eu voto por um de vocês em Coimbra — onde a eleição de um deputado ou deputada da vossa cor é garantida — e vocês votam por mim em Lisboa onde uma votação superior no partido que me parece representar melhor nestas eleições pode significar a eleição de mais uma pessoa. Quem alinha?
Uma amiga, em quem confio bem mais que um voto se necessário, desafiou-me a considerar aquilo que tinha mandado para o grupo quase como piada. E assim firmámos acordo de honra, votaremos trocadas, numa vã esperança de não deitar o meu voto ao lixo, dotando de um superpoder: jogar ao esconde-esconde com a representatividade dos nossos círculos eleitorais.
Faz sentido?
Não sei. Mas sei que a maioria das pessoas a quem fui falando do meu negócio percebeu-me. Num dia como hoje — em que celebramos a luta feminina pela igualdade de género, que começou antes de tudo com o direito a votar, como iguais — custa especialmente aceitar a frustração de acordar no domingo e ir pôr uma cruz por convicção com a convicção que não será suficiente para contar para algo. Esta foi a minha solução para este domingo, e conto-a para que comigo reflitam se o país não precisa de uma melhor para o futuro.
Ana Sousa Amorim é cidadã de Coimbra.
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