Em meados dos anos 90, quando os meus pais decidiram mudar de local de residência da Solum para o Monte Formoso foi um choque para mim. Para um adolescente, que só tinha memória de viver naquela parte da cidade, o receio de perder amigos, mudar de escola, ir para uma zona completamente desconhecida e, ainda por cima, mal-afamada causava uma grande apreensão. Ouvia e, pasmem-se, ainda ouço «o Monte Formoso não é perigoso»?!
Nos primeiros tempos, apesar de viver a menos de 100 metros da Avenida mais movimentada e apenas um quilómetro da baixa, parecia que estava noutra cidade. As dinâmicas da escola e de bairro eram completamente diferentes daquilo que estava habituado, admito que para mim, foi um período difícil.
Com o passar do tempo fui-me adaptando e fazendo uma rede social com amizades duradouras que preservo até hoje.
Amadureci a consciência social, numa realidade com graves problemas de pobreza e desemprego. É certo que a minha família sempre estimulou esta preocupação social, mas o contacto com a realidade de encerramento de fábricas e de crise económica veio aprofundar essa inquietação e despertar para essa tomada de consciência enquanto adolescente.
Foi assim que «descobri» uma Coimbra que não era de Doutores, uma Coimbra esquecida, uma Coimbra desconhecida (pelo menos para mim), uma Coimbra ostracizada, uma outra Coimbra: a zona Norte. Esta «urbe» composta por 4 Uniões de freguesias mais uma parte significativa da U.F. Coimbra totalizando mais de 30 mil pessoas correspondendo a quase 25% da população oficial da cidade, ou seja, pelo menos um em cada quatro conimbricenses são da zona norte. Para se ter ideia, esta área, como componente rural e urbana, tem mais população do que algumas capitais de distrito e maior do que 75% dos concelhos do nosso país.
É verdade que esta grande zona é tratada como uma periferia suburbana e continua a ser apartada do resto da cidade, concentrando mais de 60% da habitação social, tendo assim uma significativa população em vulnerabilidade.

Não é somente na dimensão habitacional que a «zona Norte» é discriminada. A inexistência de espaços culturais, criados especificamente para o efeito, numa cidade que se vangloria de ser a capital histórica da cultura em Portugal, é bem demonstrativa desta exclusão. Uma cultura de proximidade é tão ou mais importante do que projetos megalómanos, o que ajudaria não só a criar novos públicos como seria fundamental para se exercer um direito inalienável, o direito à cultura.
Também, na área da mobilidade, os transportes são em número reduzido e de pior qualidade comparativamente com resto da cidade, num território que, devido as suas idiossincrasias, o transporte é ainda mais fundamental. Entre os utentes dos SMTUC fala-se, às claras, que são enviados para esta zona da cidade os piores e mais velhos autocarros. Independentemente desta, alegada, discriminação ter correspondência com a realidade, só o facto de as pessoas terem esta sensação é bem paradigmático do abandono sentido por estas populações.
Num projeto estruturante como o Metro Mondego, não será coincidência este terminar à entrada da zona norte, mesmo sendo esta muito mais densamente povoada do que outras bafejadas pela passagem deste transporte. Igualmente no desporto, é manifesta a falta de infraestruturas. Mas não impediu que tenham surgido atletas do mais alto nível marcando, inclusivamente, a história do desporto nacional, nomeadamente, no «desporto rei» ou atletas que representarão Portugal nas próximas Olimpíadas.
Outro sector que «dá cartas» é o industrial, mesmo com a catastrófica (diria mesmo criminosa) destruição do aparelho produtivo conimbricense, a zona norte teve a capacidade de reerguer-se e reconfigurou-se com uma indústria de ponta, sobretudo na área farmacêutica com, inclusivamente, reconhecimento internacional.
Na educação, a Escola Secundária D.Dinis era (e ainda é) estigmatizada, como se fosse uma escola de vândalos. Desta escola infamada saíram milhares de cidadãos com excelente formação e, muitos deles, têm mediatismo em diversas áreas como, por exemplo, na música. Posso dizer que nos finais da década de 90 em outras escolas da cidade vi, com os meus próprios olhos, consumo de drogas duras, algo que nunca presenciei no D. Dinis.

Não se pode escamotear que existiam(em) problemas sociais, evidentemente, o espaço escolar não fica alheio ao contexto envolvente. Contudo, o trabalho do corpo docente e não docente tem sido, ao longo dos anos, fantástico, atenuando essas dificuldades dos estudantes e dos seus familiares. A título de exemplo, no auge da pandemia, um conjunto de ex-estudantes mobilizou-se e, em parceria com outras instituições e com a própria escola, e recolheu alimentos que entregou aos agregados familiares mais carenciados. Aliás, a participação cívica é matriz definidora desta zona. A fascinante história de autoconstrução do Bairro da Relvinha ou inúmeras associações cívicas, em plena actividade, nomeadamente de moradores, são exemplos disso mesmo. Este engajamento na defesa do que é nosso é uma lição que pode (e deve) ser replicado pelo resto do município.
Esta cidade «invisível», pelo menos aos olhos do poder hegemónico, é, na verdade, uma Coimbra que sempre existiu. Uma Coimbra marginalizada, mas não marginal. Uma Coimbra com identidade própria e que é das poucas zonas por onde a cidade pode crescer. Uma cidade onde um conjunto de várias comunidades se desconhecem mutuamente, não é uma cidade, é uma urbe segregada. A responsabilidade desta situação, não é apenas do poder político, é de uma determinada visão de cidade que prefere «olhar» para o seu umbigo e não entender que Coimbra é, muito mais que a «Coimbra dos Doutores». Uma Coimbra de Futricas da zona Norte, que não é melhor que qualquer outra zona, mas que se recusa a ser tratada como de «segunda». Cidadãos da zona norte (já agora do resto do município) uni-vos!!!


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Rui Calado vive actualmente em Coimbra. É activista, professor de História e doutorando na Universidade de Coimbra.
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