Está actualmente a decorrer nas escolas públicas portuguesas, o projeto-piloto Manuais Digitais (PPMD). Crianças e jovens, desde o 1º ciclo ao ensino secundário, viram os seus manuais escolares em papel, substituídos por computadores e tablets.
O PPMD já está no seu 5º ano de implementação, sem que haja estudos do Ministério da Educação (para além de um pequeno relatório no fim do 1º ano) sobre o seu impacto na aprendizagem dos alunos. Nos primeiros 4 anos assistiu-se a um aumento do número de alunos envolvidos, ano após ano… chegou-se aos 24 000 alunos do 3º ao 12º ano e sem nenhum estudo oficial do seu impacto. A entrada no 5º ano de PPMD, este ano lectivo, foi diferente. Um terço das escolas envolvidas, a nível nacional, abandonou-o, e o número de alunos desceu para quase metade.

A petição Contra a excessiva digitalização no ensino e a massificação dos manuais escolares digitais, lançada em Dezembro de 2023, trouxe este tema para a luz do dia. Logo a seguir, a criação do Movimento Menos Ecrãs, Mais Vida e um activismo crescente dinamizado, nomeadamente, à volta desta temática fez com que o assunto passasse a ser presença frequente em notícias de jornais. Isto levou a que houvesse um aumento da consciencialização de professores e pais sobre o assunto. Muitas direcções escolares decidiram autonomamente sair. Em alguns casos, a desistência da escola foi fruto da pressão de pais descontentes perante esta experiência.
Naturalmente todos sabemos que o uso de computadores e tablets facilita o acesso a muita informação e recursos educativos. Há estudos que demonstram diversos pontos positivos associados ao seu uso. Outros concluem que o impacto na aprendizagem não é positivo nem negativo. Por outro lado, muitos estudos têm demonstrado que os efeitos adversos do uso de ecrãs em meios educativos são muitíssimos.
À data de hoje, não existe evidência científica de que medidas de transição digital, como o uso de manuais digitais sejam benéficas para os alunos e tenham vantagens para a aprendizagem. Coerentemente, vários países na vanguarda da aplicação de programas semelhantes ao Projeto-piloto Manuais Digitais (ex: Suécia e Finlândia) recuaram e reintroduziram os manuais em papel.
A distracção é um dos principais factores de preocupação, assim como a dispersão para conteúdos não lectivos. A menor compreensão e retenção de informação durante a leitura de textos, principalmente de textos informativos, como é o caso do manuais escolares é também apontada. As dificuldades na produção escrita são maiores. Existem efeitos físicos de desconforto, como dores de cabeça, fadiga visual (há um crescimento exponencial da miopia nas novas gerações) e problemas de postura. Mais tempo de internet implica uma exposição acrescida a todos os riscos decorrentes de uma navegação online sem supervisão.
À data de hoje, não existe evidência científica de que medidas de transição digital, como o uso de manuais digitais sejam benéficas para os alunos e tenham vantagens para a aprendizagem. Coerentemente, vários países na vanguarda da aplicação de programas semelhantes ao PPMD (ex: Suécia e Finlândia) recuaram e reintroduziram os manuais em papel.

As condições técnicas em que decorre o PPMD, com avarias dos computadores (e falta de assistência técnica), falhas de internet, fraca qualidade dos equipamentos, gera desigualdade de acesso ao material didáctico, comparativamente com os alunos que continuam no método tradicional. Juntamente com os impactos negativos descritos, constata-se que o “direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar” (artigo 74º da nossa Constituição), não está a ser garantido, com este modelo de ensino no digital.
A Organização Mundial de Saúde, as Associações Americanas de Pediatria e Psicologia e recentemente a nossa Sociedade Portuguesa de Neuropediatria (SPNP) já emitiram recomendações sobre o tempo máximo diário recomendado de uso de ecrãs e tecnologia digital. A SPNP indica que dos 7 aos 11 anos as crianças podem estar até 1 hora por dia expostas a ecrãs, com controlo parental e sem acesso a redes sociais.
Entre os 12 e os 15 anos, até 2 horas por dia de uso ecrãs, permanecendo o controlo parental e a restrição de redes sociais. Entre os 16 e os 18 anos, até 2 a 3 horas por dia de uso ecrãs, ainda com controlo parental, mas possibilidade de acesso a redes sociais.
É consensual dentro da comunidade científica que o uso moderado de ecrãs, parece ter benefícios cognitivos SE a tecnologia tiver propósitos pedagógicos e SE houver envolvimento parental na utilização recreativa. O uso excessivo de ecrãs (mais de 2h-3h por dia) apresenta inúmeros riscos para a saúde física, mental, social e desempenho escolar de crianças e jovens.
Dados de um estudo português divulgado esta semana indicam que a maioria das crianças e jovens excedem as 4h de uso diário de ecrãs. Sabemos que o uso recreativo destes dispositivos (Tik-tok, Instagram, WhatsApp, videojogos e YouTube) é o que maioritariamente os ocupa e que os smartphones são o dispositivo mais usado.
Com o ensino no digital (em particular os manuais digitais), há um agravamento de toda esta problemática e o Ministério da Educação, Ciência e Inovação tem obrigação de encarar este problema de forma a ter em conta o superior interesse das crianças e jovens. Não é possível ter várias aulas por dia que contemplam o uso de ecrãs, fazer trabalhos e estudar matéria das diferentes disciplinas em casa a olhar para um ecrã, sem ultrapassar o tempo recomendado, com a agravante deste tempo já estar esgotado com o uso de smartphones!… A utilização de smartphones é outro problema por resolver urgentemente nas escolas portuguesas, e o Menos Ecrãs, Mais Vida tem estado na linha a frente dessa luta. Tanto a nível dos smartphones como dos manuais digitais, já existe evidência suficiente de riscos para a saúde, para que se adoptem medidas restritivas em espaço escolar.

Em Coimbra, o Agrupamento de Escolas Martim de Freitas (AEMF) foi um dos que aderiu voluntariamente a este projecto há já 4 anos. Este ano houve um alargamento para mais turmas e mais alunos, em contracorrente com a tendência nacional. Em Março deste ano, 80% dos pais da escola já tinham revelado insatisfação e pedido o término do projecto, em resposta ao inquérito elaborado pelo Menos Ecrãs, Mais Vida. Estes resultados foram facultados à direção do AEMF, que optou por não os valorizar. Só que o alargamento do projeto a ainda mais alunos, foi a gota de água para muitos pais e há um descontentamento crescente. É uma escolha da direção do AEMF participar no PPMD e continuar a achar que é uma boa opção… no entanto quando a insatisfação é geral e a ciência não apoia, torna-se difícil a manutenção desta posição.
A internet e os ecrãs estão em todo o lado, trazem óbvios benefícios para as nossas vidas, mas também trazem riscos, esses já não tão perceptíveis para todos. Os manuais digitais não são uma opção benéfica para os alunos. Poderão coexistir com o papel, mas apenas para um uso complementar, tal como outros recursos digitais.
Em vez de dar portáteis e tablets aos alunos desde tenras idades, seria mais vantajoso ter escolas com salas de informática bem equipadas com bons computadores e internet, que permitam pesquisas e aprendizagens interactivas, feitas de forma estruturada durante o período lectivo. É possível ensinar as crianças sem que elas tenham portáteis nas suas mãos durante todo o dia!

Todos os estudos recentes nos indicam que crianças e adolescentes passam horas infindáveis ligados à internet, presos a olhar para um ecrã, a conteúdos adictivos e ilimitados, que na sua maioria, na melhor das hipóteses são inúteis, na pior são prejudiciais ou mesmo perigosos. O tempo não volta para trás, a infância e adolescência são fases muito curtas e a imersão digital actual é particularmente preocupante nestas idades em que esta perda de tempo é uma perda de oportunidades únicas de desenvolver competências para a vida.
A melhor forma de prepararmos os nossos filhos para os desafios do futuro é proporcionar-lhes uma infância e adolescência o mais saudável possível, em que tenham oportunidades de brincar livremente e socializar, experimentar, desenvolver a criatividade e a imaginação (que os ecrãs bloqueiam), pois tudo isto potencia o seu bem-estar e desenvolvimento cognitivo necessários para uma vida plena.
Catarina Prado e Castro
Movimento Menos Ecrãs, Mais Vida
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