No próximo dia 10 de Março, os portugueses vão às urnas para decidir o futuro político do nosso país. Independentemente do partido que angarie mais votos, nessa mesma noite o mediatismo internacional acabará por recair noutro tipo de vitórias, dado que a 96.ª cerimónia de entrega dos Óscares está igualmente agendada para essa data.
Certamente que a marca política das legislativas acabará por popular a conversa nas semanas – quiçá anos! – seguintes, mas há sempre um certo fascínio tradicional em se reunir em torno da televisão e apreciar as indumentárias, os agradecimentos e os esboços humorísticos que todos os anos fazem parte do evento circense que galardoa e homenageia cineastas.
Mais, a noite de 10 de março irá ser o culminar de tendências que já perduram há quase um ano, dado que os dois principais nomeados estrearam a 20 de julho do ano passado. Barbie de Greta Gerwig e Oppenheimer de Christopher Nolan já originaram tanta dissertação ao ponto de fazer corar alguns arquivos académicos. Os opostos efectivamente atraíram os espectadores às salas para vivenciar um evento denominado «Barbenheimer», onde ambos os filmes acabaram por triunfar quer a nível financeiro como em clamor artístico.
Dado o trajecto de galardões que tem vindo a colecionar, supõe-se que o filme biográfico sobre J. Robert Oppenheimer protagonizado por Cillian Mrphy seja o grande vencedor nas categorias principais. No entanto, a Academia por vezes gosta de surpreender – como se exemplifica pelo grande vencedor do ano passado (Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert) – e este ano há um potencial para surpresas.
Pobres Criaturas de Yorgos Lanthimos é um forte adversário de peso aos dois sucessos comerciais, não só pela excentricidade artesanal e sexual que enverga e rivaliza com a explosão atómica de Oppenheimer, ao mesmo tempo que se afirma como exemplo superior das temáticas de género que a adaptação da Mattel parodiou de leve.
Perante o espanto de muitos cinéfilos por Greta Gerwig e Celine Song (realizadora que se estreou com o delicado Vidas Passadas) não serem nomeadas para o galardão de melhor realização, a presença feminina atrás da câmara faz-se notar com a nomeação de Justine Triet pelo trabalho em Anatomia de uma Queda, um thriller jurídico que aborda o negrume que se permeia na vida familiar por entre lacunas linguísticas. O filme partilha a actriz nomeada Sandra Hüller com A Zona de Interesse, de Jonathan Glazer, que já se afirmou como um das visões cinematográficas mais singulares do holocausto nazi, tema que variadas vezes já determinou os votos dos membros da Academia.
Numa abordagem mais centrada na história americana, o lendário Martin Scorsese também entra em jogo com a sua epopeia mais recente, Os Assassinos da Lua das Flores. Um drama trágico que, não obstante ter a presença sonante de Leonardo DiCaprio e Robert DeNiro, tem em primeiro plano o trágico relato dos assassinatos que ocorreram na década de 1920 contra a tribo nativo-americana Osage. Uma metragem longuíssima que, em termos de opulência, só é contestada por Maestro, segunda investida de Bradley Cooper enquanto actor que se torna autor, desta feita narrando a vida e obra de Leonard Bernstein.
Já em termos mais humildes, o grande favoritismo de muitos tem sido toldado para o drama natalício de Os Excluídos de Alexander Payne. Um pequeno grande filme assente nos desempenhos de Paul Giamatti e Da’Vine Joy Randolph que, juntamente com o estreante Dominic Sessa, redefinem a nostalgia cinematográfica para campos mais empáticos. Pode não ter tido um efeito impactante nas bilheteiras, mas pelo menos acabou por estrear em salas portuguesas, ao contrário de American Fiction, um filme com uma mensagem cultural marcante presa em laivos ambíguos de dramédia esquecível.
Por último, o último grande confronto da noite se dará no campo da animação. Nomeadamente entre o visualmente espantoso Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (co-assinado por um trio de realizadores, um deles português, Joaquim dos Santos) e a eloquência narrativa do mestre Hayao Miyazaki, que regressou da reforma para nos trazer O Rapaz e a Garça, uma fábula sobre o peso da juventude.
Ou seja, será uma cerimónia onde as emoções viver-se-iam através destes pequenos duelos cujos resultados irão deixar partidários contentes ou desiludidos. No entanto, enquanto espectadores expectantes, caímos no conforto de saber estes resultados por não termos voto neste tipo de eleições.

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Pedro Nora é locutor do programa sobre cinema e televisão Os Críticos Também se Abatem, na Rádio Universidade de Coimbra, e colabora como jornalista com a Coimbra Coolectiva.
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