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Visitámos o equipamento pioneiro que a universidade tem ao serviço da biblioinclusão

Foi escolhido um dia simbólico para a abertura, 3 de Dezembro, Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, mote para mais uma etapa no caminho para a inclusão plena na Universidade de Coimbra (UC). A nova sala inclusiva na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), destinada a pessoas com dificuldades visuais e neuromotoras, é um equipamento pioneiro nas bibliotecas das instituições de ensino superior nacionais. Ainda é cedo para recolher múltiplos benefícios pessoais, mas já se apontam diversas mais-valias desta biblioteca adaptada.

O que define então uma biblioteca inclusiva? No caso da BGUC, é uma sala dedicada a estudantes com necessidades educativas especiais, a que se acede pela Sala de Leitura Geral que é o coração da Biblioteca. Reúne equipamentos com soluções tecnológicas para o benefício de pessoas cegas, com baixa visão ou com dificuldades neuromotoras, cedidos pela Fundação Altice. Protocolado entre a UC e a Fundação Altice, esta sala adaptada inscreve-se no «UC for All», programa integrado para a promoção da igualdade de oportunidades e equidade no acesso e frequência da UC, uma marca identitária da Universidade. O desígnio é que este equipamento possa contribuir para o sucesso da carreira académica dos estudantes que dele necessitem, num esforço continuado para lançar soluções inclusivas. 

«Esta é uma coisa muito importante que não pode ficar pelas intenções. O próprio regulamento académico foi revisto para trabalhar esta inclusão dos estudantes com deficiência».

João Gouveia Monteiro, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Somos recebidos e simpaticamente conduzidos pelo Director da BGUC, João Gouveia Monteiro, e por Fátima Carvalho, responsável pela área técnica da Biblioteca. As mesas da sala de leitura estão preenchidas de gente empenhada num qualquer exame, habitantes estudiosos, vigiados de perto pelo enorme painel cerâmico de Jorge Barradas.

Quando surgiu a ideia de criar esta sala inclusiva, Gouveia Monteiro abraçou-a imediatamente. Este é um equipamento que aborda directamente a temática da UC como a universidade portuguesa mais sustentável, na medida em que trabalha o 10º objectivo dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável 2030 propostos pela Organização das Nações Unidas, «Reduzir as Desigualdades».

Gouveia Monteiro comenta que: «Esta é uma coisa muito importante que não pode ficar pelas intenções. O próprio regulamento académico foi revisto para trabalhar esta inclusão dos estudantes com deficiência». Serão cerca de 150 estudantes com necessidades especiais, sendo que algumas dezenas destes é que têm dificuldades visuais e neuromotoras, o público alvo deste equipamento inclusivo. 

Um destes estudantes é Bernardo Lopes, Presidente da Pró-Secção de Boccia da Associação Académica de Coimbra, a primeira secção de desporto adaptado criado numa universidade portuguesa. Bernardo comenta ter tido uma experiência de utilização muito positiva da sala inclusiva e refere que: «Foi um investimento que vale a pena, tanto para estudantes, como para professores, até para turistas». Aponta-a como uma semente da inclusão na UC e levanta uma questão pertinente, a de que «a sala inclusiva não deve ser apenas para os alunos com necessidades especiais, os professores precisam ir lá para aprender como trabalhar com [estes] alunos». 

Há, no entanto, que aprimorar as acessibilidades. A BGUC foi inaugurada em 1956, um projecto de Alberto Pessoa (com intervenção de Cottinelli Telmo), erguida durante a grande transformação urbana na Alta da cidade. Obedece à linha estatizante da época e não foi pensada para os utilizadores com deficiência visual e neuromotora. Acresce ser Património Mundial, o que poderia inviabilizar intervenções de fundo, há que encontrar o equilíbrio entre a preservação patrimonial e a sua usabilidade. O Director identifica algumas dificuldades, nomeadamente na plataforma elevatória de acesso ao piso onde se situa a sala inclusiva, a ser resolvidas brevemente.  

Estas dificuldades são também apercebidas por pessoas com deficiência visual, como Luís Barata, que trabalha no Apoio ao Estudante com Necessidades Educativas Especiais dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC), na produção documental em formatos alternativos, ou seja, braille, ampliados, entre outros. Luís fala da mais-valia do espaço para os invisuais, que é o de poderem usufruir e interagir com a biblioteca, de requisitar e digitalizar um livro para ler as partes que lhe interessam; o que agora é permitido por esta tecnologia. Ou seja, como refere, «é dar as condições para que as pessoas possam desenvolver ao máximo as suas capacidades». Os estudantes quando se inscrevem na UC são encaminhados para os SASUC e são-lhes explicados todos os serviços à sua disposição, a que somará mais este. Luís acrescenta, «Estes cerca de 150 estudantes têm características diversas, alguns com deficiências não abordadas por este equipamento, haverá ainda outros com limitações não declaradas. Mas o que estamos aqui a tratar é do acesso à informação; e a passos certos chegaremos a todos».

Funcionalidades

A sala inclusiva conta com postos de trabalho direccionados para pessoas com deficiência motora profunda, e outros para cegos e pessoas com baixa visão e ambliopia. Segundo Gouveia Monteiro, alguns destes programas colocam-nos ao nível de um filme de ficção científica, tal o vanguardismo que apresentam. Para pessoas com limitações neuromotoras, proporciona câmara eyetracker que permite aos utilizadores operar um computador através do movimento dos olhos e um software que permite aceder ao computador de forma indirecta como alternativa à interacção teclado/rato. 

Para pessoas cegas ou com baixa visão, disponibiliza linha braille para utilizadores que usem o braille, ampliador de monitor e lupa digital portátil, software de ampliação e contraste de cores e leitor de ecrã que converte o texto em voz feminina sintetizada (é a Joana, uma leitora assistente virtual), o que pode ser um documento digitalizado, como uma página de Internet. Um utilizador cego pode também requisitar um livro, coloca-o sob o leitor e este converte o texto em voz, em português e noutras línguas. Poderá depois gravá-lo numa pen USB e levá-lo consigo. Fátima Carvalho sublinha que: «Com este equipamento pode ter acesso a qualquer obra da Biblioteca Geral, naquilo que previamente tinha que estar digitalizado». Este equipamento contorna esse obstáculo, permitindo o acesso a um acervo de quase dois milhões de títulos. 

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