Site icon Coimbra Coolectiva

Disparidade salarial: o último corte icónico de Carlos Gago

Está provado: quem não espera, também alcança. Das reacções possíveis a abrir o email no final de um dia trabalho, a de Carlos Gago, director artístico do salão Ilídio Design (ID) e um dos mais reconhecidos cabeleireiros portugueses, foi: «É publicidade enganosa». Não era. A empresa acabava de ser distinguida pelas boas práticas na promoção da igualdade salarial entre homens e mulheres, com os carimbos a que tem direito – Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, Autoridade para as Condições de Trabalho, Gabinete de Estratégia e Planeamento, e Governo da República Portuguesa. Sem candidaturas; sem «fazer nada» – além de seguir há mais de duas décadas uma regra de não discriminação e que foi reconhecida oficialmente em Dezembro.

«Há muitos anos que tenho esta política e não abdico dela. Não faz sentido funcionar de outra maneira. Há um ordenado e um prémio em função do que fazem – homem ou mulher. O mesmo em relação à nacionalidade. Não é por serem imigrantes que vão ter um ordenado mais baixo. As pessoas são todas iguais», diz Carlos Gago, consciente de que a norma salário igual para trabalho igual anda ainda mais pelo campo dos princípios do que das práticas.

A disparidade salarial entre os géneros tem vindo a diminuir, mas, em média, continua a ser superior a 10% em prejuízo das mulheres. Em Coimbra, os homens ganhavam, em 2019, mais 14% do que as mulheres – isto se consideramos apenas a remuneração de base. Se juntarmos à conta os prémios, subsídios e outros ganhos, a diferença aumenta para 19%. Os dados constam do «Relatório de Diagnóstico Municipal para a Igualdade e Não Discriminação», aprovado no final do ano passado.

O problema é persistente e estrutural. Em oito anos, pouco ou nada mudou no município: entre 2011 e 2019, a desigualdade, aferida pela média dos ganhos mensais, diminuiu 0,09 pontos percentuais.

O inquérito às empresas (responderam 10) indica que a maioria tem tabelas de vencimento por função e metade diz aplicar critérios de valorização objectivos. No entanto, 40% responde «não se aplica» quando a pergunta é se a avaliação de desempenho é feita através de parâmetros comuns a homens e mulheres. Apenas quatro em dez têm uma estratégia para colmatar as diferenças salariais de género – a Ilídio Design faz parte deste grupo. Tem também um sistema para garantir igualdade de oportunidades de progressão na carreira. E foi aprendido antes da viragem do milénio.

O corte que trouxe igualdade

O ID foi inaugurado em 1984 (fez 39 anos a 1 de Fevereiro) e surge como uma espécie de loja-âncora do então novíssimo centro comercial Gira Solum, pela mão de Ilídio Gago, considerado também um dos melhores cabeleireiros em Portugal na altura. Além do nome, trouxe de Leiria para Coimbra dois sobrinhos como sócios. Um (adivinharam) é Carlos Gago, que assumiu o salão em 2000. «Não concordava com a forma de gerir de antigamente» e, no percurso que fez, entre estágios com as principais referências de Lisboa, e idas a Paris e Londres para ver como paravam as modas, incluiu uma formação em recursos humanos, no Porto, com uma empresa francesa. «Éramos 10 cabeleireiros no norte e 10 no sul. Três dias, de três em três meses, durante três anos. Essa empresa tinha uma forma de gestão completamente diferente do que se fazia em Portugal. Já dizia que não podia haver diferenças entre homens e mulheres», resume.

Como se traduz isto em igualdade salarial? A valorização, sublinha, «tem de ter em conta vários itens, além da facturação; tudo o que [o trabalhador] contribui para a empresa. É muito importante, nesta empresa, que todos trabalhem para o mesmo, para que o atendimento ao cliente seja sempre feito da mesma forma, seja por um homem ou por uma mulher». Equipa e formação ao longo da carreira são duas ideias a reter aqui, mas vamos abrir um parêntesis para perceber de onde veio a percepção de que os homens teriam mais jeito – e como se cortou esse preconceito.

«Os grandes cabeleireiros franceses começaram a aparecer no século XVIII e eram homens. Há uma figura muito forte nessa época, quando se usavam perucas muito grandes, que era o Cabeleireiro Anão, que trabalhava num escadote, montando perucas sobre perucas. Até aos anos 60/70 do século XX, em que a França é o expoente para o mundo, são os homens que predominam, os que sabiam fazer o trabalho como deve ser», situa Carlos Gago, que, além das formações em corte e styling da L’Oreal Professional, também já ensinou história do cabeleireiro.

A mudança acontece em Inglaterra, com «o senhor Vidal Sassoon, que criou o corte geométrico» e acabou com os penteados armados, os bouffants, bigoudis e horas a fio debaixo de secadores. Dois ícones nasceram: o pixie de Mia Farrow no filme «Rosemary’s Baby», de Roman Polansky (1968) e o bob da estilista Marry Quaint, criadora da minissaia. «Vidal Sassoon fez com que, tendo formação, se consiga fazer o corte bem feito – seja homem ou mulher. Até aí, era por intuição, sensibilidade, mais ou menos volume, e as mulheres achavam que os homens faziam isso melhor porque era um homem a ver uma mulher e não uma mulher a ver outra mulher», compara Carlos Gago.

Em Portugal, Isabel Queiroz do Vale abriu o primeiro cabeleireiro em 1974 e, dois anos depois, voltou a ser pioneira ao inaugurar um salão unissexo, com um barbeiro também ele revolucionário: António Variações. Mas a viragem demorou a ganhar expressão: nos anos de 1980/90 a tendência era ainda haver cabeleireiros separados por género. Carlos Gago «era contra» e continua a ter «muito, muito, gosto» em sentar no mesmo salão «famílias completas», lado a lado, «até à quarta geração» – sem cadeiras de barbeiro, nem diferenças no preço de corte.

Colectivo de tesouras

Na ID, trabalham quatro homens (três são cabeleireiros) e 16 mulheres – quatro fazem parte do «núcleo duro», estão no salão há mais de 30 anos e são envolvidas na gestão da empresa. «Qualquer coisa que seja para decidir e que afecte toda a equipa – um despedimento, por exemplo – são chamadas para eu saber o que pensam», ilustra Carlos Gago.  

Todos os anos, há também uma reunião geral em que se avalia o trabalho e evolução de cada um e «todos sabem o que cada um vale». O objectivo é reforçar a noção de equipa, promover a camaradagem e evitar «jogos de escondidas», estabelecendo bom ambiente.

A prática de diálogo e transparência é comum a mais de metade das empresas de Coimbra, mas 40% não incentiva os trabalhadores a apresentarem sugestões sobre a política salarial.

A formação é também uma parte importante na estratégia da ID para promover a igualdade remuneratória e é igualmente pensada para o colectivo: o salão chega a fechar ao público para se assumir como escola e criar oportunidades de progressão na carreira. «A maneira de combater [as desigualdades] é dar ferramentas para as pessoas serem melhores profissionais. A formação permite que os que estão atrás possam apanhar os que estão mais à frente. Em grupo, faz com que estejam todos mais nivelados, em vez de haver um que é vedeta e outros cá em baixo», defende Carlos Gago.

A maior parte dos cabeleireiros do ID formou-se no salão. É o caso de Miguel, que «não sabia fazer nada» quando chegou e, 25 anos depois, tem tesouras tatuadas no braço. Aponta: «O culpado é aquele senhor [Carlos Gago]. Ensinou-me o que cada tesoura faz». Zita começou a formação no tempo do «sr. Ilídio». Depois do curso, ainda foi obrigada pelo pai a voltar para a terra, no Bombarral, mas a casa já estava no Gira Solum. Voltou. «Aqui é o meu lugar. Somos uma equipa. Como os mosqueteiros. É um por todos e todos por um», diz. Faz parte do «comité central», tal como Paula, há 35 anos no salão. «Vim fazer 18 anos aqui. Aprendi tudo aqui. Cresci aqui. Nunca se opuseram aos desafios que propus e sempre me proporcionaram aberturas ao nível profissional», destaca.

O mais recente prémio do ID «não foi surpresa» porque a igualdade de género «sempre foi uma atitude normal». A um ano dos 40, todos querem o mesmo: «continuar a evoluir» e fazer cortes que marcam.

Exit mobile version